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A serenidade da aceitação | O que esperar do documentário “Laerte-se”?
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix

Algumas pessoas são intrigantes e possuem uma certa aura de mistério à sua volta, do tipo que faz você ficar com vontade de puxar conversa e entender um pouquinho mais sobre a forma que ela enxerga a vida. Laerte é uma dessas pessoas, que há décadas vem intrigando os brasileiros.

E isso é curioso, considerando que desde sempre, sua obra vem dizendo, assim, como quem não tem nada, tudo sobre esta estrela dos quadrinhos brasileiros. Mas ainda assim, tudo sobre Laerte é misterioso, a começar por sua identidade. Quem é Laerte? Laerte é homem ou é mulher? Como devo me referir a essa pessoa?

Pois bem, o primeiro documentário original Netflix brasileiro, “Laerte-se”, chegou para tentar responder - dentro do escopo do possível - a estas perguntas.

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Laerte Coutinho nasceu em corpo de homem, no ano de 1951, em São Paulo. Durante 60 anos vivendo com esta roupagem, construiu uma respeitada carreira como cartunista e chargista, realizando trabalho para alguns dos mais importantes jornais nacionais. Até que um dia, decidiu que tudo precisava mudar. Assumiu-se mulher.

A mudança começou com as roupas. As pessoas encontravam-se com ele e - Opa! -, em vez de O Laerte, lá estava A Laerte. No começo, pensava-se que Laerte era crossdresser, aqueles caras que gostam apenas de se vestir de mulher, pra tirar uma pira. Depois, muita gente confundiu, achou que era travesti, mas para Laerte, a mudança sempre foi mais profunda do que isso. E é por isso que a partir de agora eu vou me referir a Laerte apenas no feminino: porque Laerte é, na verdade, uma mulher transgênero. Uma mulher que nasceu em um corpo de homem.

Nua de corpo e alma

Laerte-se” não foi atrás de contar com datas e detalhes práticos como foi, para Laerte, essa desconstrução. O documentário vai muito mais a fundo, lá no cerne da questão. É como se dissesse “peraí, mas o que é ser homem ou ser mulher?”. E é por isso que se trata de um daqueles filmes que não precisa nem fazer teste de DNA pra saber que é filho da Eliane Brum.

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Uma das jornalistas e cronistas mais admiradas do país, Eliane acumula toda a sorte de prêmios na prateleira que gritam sensibilidade, informação, humanidade. Seus textos têm alma, é como se ela de fato entendesse seus entrevistados antes de retratar suas histórias, o que, convenhamos, está cada vez mais raro.

E não tinha ninguém melhor pra contar a história da Laerte do que a autora de “A Menina Quebrada” e coautora de “Médicos Sem Fronteiras: Dignidade”. Nessa empreitada, Eliane contou ainda com a ajuda de uma das mais experientes diretoras de cinema do Brasil, a Lygia Barbosa da Silva, que já conta com mais de 20 anos de experiência em audiovisual, passando por produções como o filmes d’O Castelo Ra Tim Bum, e uma infinidade de outras produções importantes.

À linguagem extremamente literária de Eliane, Lygia adicionou uma pitada importantíssima de palavreado televisivo, que ajudou e muito para que o documentário, que é bastante intenso em qualidade e quantidade de informações, não ficasse cansativo e maçante.

Quero. Posso. Não preciso. Mas,  devo?

Ao intercalar tiras e cartoons significativos feitos por Laerte com filmagens da casa, da família, de participações dela em programas de TV, “Laerte-se” se constrói de forma a englobar diversos aspectos da vida da artista.

Onde se esconde essa pessoa, qual é seu posicionamento político, como é seu espaço de produção artística, quem são seus amigos, como ela lida desde com questões práticas do dia a dia como escolher um vestido para um evento até dúvidas existenciais vitais para uma mulher trans, como decidir colocar entre colocar silicone ou não.

Há anos, Laerte não se esconde mais. Mas, mais do que isso, esse documentário escancara, com toda a serenidade e calmaria de um afago da voz de Eliane Brum, um dos assuntos mais polêmicos da década, quando não, do século, que é a transexualidade, seus preconceitos, suas incertezas, suas dúvidas.

Laerte não tem dúvidas quanto a seu gênero e quanto à sua sexualidade, mas mesmo a pessoa mais segura de si do mundo ficaria intimidada tendo suas angústias mais íntimas sendo reveladas e desnudadas assim, na frente das câmeras.

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E a reação dessa pessoa incrível a toda essa exposição é a mais serena e tranquila possível. Laerte não se considera corajosa, nem heroína de trans algum. Muito pelo contrário. Sabe que lhe levaram 60 anos para finalmente aceitar quem era e tornar isso público. Mas hoje isso é só mais um momento da vida, que passou, e com o qual ela lidou quando teve que lidar.

Ela é mulher, em um corpo que nasceu masculino. So what? Por que isso deveria importar para alguém? Por que nos incomoda tanto chamá-la de A Laerte? Ela não nos faz essa pergunta, mas é essa a questão que deveríamos estar nos perguntando face a esse documentário.

Desvendar a identidade trans e compreender essa temática fica um pouco mais fácil quando podemos ouvir quem está dentro de uma pele que parece não lhe pertencer. Tenhamos um pouco de empatia. Libertemo-nos. Laertemo-nos.

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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