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Crítica do filme A Garota Dinamarquesa

A beleza do amor que rompe barreiras

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 05 de Fevereiro de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures

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A transgeneridade é um assunto que vem ganhando espaço não apenas nas mais diferentes esferas midiáticas, mas também na sociedade de maneira geral.

Para quem é cisgênero, compreender  como se sente e o que se passa com quem é transgênero é algo além do alcance.

O longa-metragem "A Garota Dinamarquesa" é umas das produções atuais que traz este assunto à tona e tenta mostrar o olhar de quem é trans.

Dirigido por Tom Hooper (dos premiados O Discurso do Rei e "Os Miseráveis"), é roteirizado por Lucinda Coxon com base no livro homônimo de David Ebershoff, que conta a história de uma das primeiras mulheres transgênero de que se tem conhecimento – a dinamarquesa Lili Elbe. 

Em A Garota Dinamarquesa, Eddie Redmayne é Einar Wegener, um jovem e talentoso pintor que há seis anos é casado com Gerda (Alicia Vikander), uma também pintora que trabalha para conseguir emplacar uma exposição nas galerias de Copenhague, em meados da década de 1920. 

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Quando uma das modelos de Gerda falta a uma sessão, a pintora pede a Einar que vista as roupas femininas e pose para que ela ao menos possa iniciar a pintura. E é assim, com um gesto tão simples, que Einar deixa aflorar a personalidade de Lili, que desde a infância estava aprisionada.

Daí por diante, o longa nos conduz pela jornada de transformação de Einar em Lili, as dúvidas, as angústias, a via-sacra entre os médicos e terapeutas, até chegar à cirurgia de mudança de sexo. Lili Elbe não é a primeira mulher transgênero da história da humanidade, mas é uma das primeiras que se sabe ter passado pela cirurgia de mudança de sexo.

Aqui, cabe um adendo: é importante saber a diferença entre sexo e gênero, que muita gente confunde! Vem com a gente pra um breve glossário:

Gênero

É como a pessoa se define internamente, sua identidade, sua personalidade. É por isso que se fala em identidade de gênero e transgeneridade.

Sexo

É aqui que entra a sexualidade! Diz respeito a quem a pessoa se sente atraída sexualmente – homossexualidade quando alguém curte pessoas do mesmo sexo que ela, heterossexualidade quando se sente atraída por pessoas do outro sexo, bissexualidade quando se sente atraída pelos dois, homens e mulheres; Pansexualidade quando a pessoa se sente atraída por toda e qualquer sexo ou identidade de gênero. É por isso que se fala em orientação sexual, diferente da identidade de gênero.

Cisgênero

É a pessoa que nasce homem e se sente homem, ou nasce mulher e se sente mulher. Não importa por quem essa pessoa se sente atraída. Ela pode ser homem e gostar de homem. Nesse caso, é um cisgênero homossexual. Ou ser mulher e gostar de homem, que é o caso de quem é cisgênero heterossexual.

Transgênero

É a pessoa que não se reconhece em sua estrutura biológica. É quem, por exemplo, nasceu com o corpo de um homem, mas se sente mulher. Essa pessoa pode ou não optar por realizar uma operação de mudança de sexo. Independente de fazer isso ou não, essa pessoa é transgênero. A sexualidade também não tem nada a ver com isso. Uma mulher trans (nasceu homem, mas se identifica como mulher) pode ser heterossexual, ou seja, se sentir atraída por homens. Pode ainda, ser uma mulher trans lésbica – ou seja, nasceu homem, mas se identifica como mulher e se sente atraída sexualmente por outras mulheres.

Travesti

É a pessoa que tem um gênero, mas se veste ou se caracteriza como o outro. É mais comum encontrarmos homens que se travestem de mulheres, ou seja, travestis mulheres.

Entendeu? Não é tão complicado! É que a gente está tão acostumado com os padrões que tem dificuldade em compreender o que é diferente. Bora respeitar quem não é igual a gente? :)

Bem, mas voltando à Garota Dinamarquesa!

Coadjuvante comovente, protagonista nem tanto

Em boa parte do tempo, A Garota Dinamarquesa é, na verdade, um filme sobre Gerda, não sobre Lili. Se há algo que o longa faz magistralmente é retratar o drama vivido pela esposa de Einar, sua força e seu amor pelo marido, bem como o sofrimento com a ausência dele quando Lili passa a se impor.

O roteiro ajuda, mas é a atuação de Alicia Vikander que convence. Não é à toa que a talentosa atriz suíça tenha vencido o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante e tenha sido indicada ao Oscar na mesma categoria. A atuação de Vikander está impecável em cada momento do longa – nas cenas de choro, nas cenas de nudez, nas cenas de alegria.

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Talvez por conta disso, é a jornada de Gerda que emociona o público. É claro que este não é um critério objetivo e essa é uma das coisas mais lindas do cinema e da diversidade. O que emociona cada um de nós é diferente. É provável que uma pessoa transgênero tenha se sentido muito mais envolvida pela Lili e pela sua transformação do que eu, cis.

No entanto, a atuação do Eddie Redmayne não ajudou. Fui ao cinema com uma expectativa enorme, pois o ator esteve fenomenal no papel do Stephen Hawking em A Teoria de Tudo.  Mas a impressão que fica – e isso é muito particular, claro – é a de que ele talvez não tenha conseguido captar o espírito de Lili Elbe. 

Lili está saindo de seu casulo, onde já não aguenta mais ficar. É natural que haja timidez e medo – se a transgeneridade ainda é um assunto tabu hoje, imagina em 1920! Mas a Lili de Redmayne parecia não querer sair. O ator claramente se esforça e há muitos momentos em que Redmayne domina muito bem a cena – especialmente na primeira metade do filme. A partir daí, no entanto, parece que a história segue num ritmo de decréscimo. 

O que faltou?

A Garota Dinamarquesa é um filme lindo, com uma belíssima fotografia, cenários bonitos e bem-feitos, figurino caprichado, uma paleta de cores muito bem pensada. Um roteiro adaptado de uma história comovente e que permanece nova, ainda que um século tenha se passado desde que a verdadeira Lili Elbe andou pelas terras de Copenhague.

É um filme bonito, que tem atores ótimos em interpretações excelentes – palmas para Vikander –, ainda que o protagonista tenha deixado um pouco a desejar. No entanto, não saí da sessão sem fôlego, e essa sensação foi compartilhada por várias das pessoas que estavam comigo no cinema. 

A Garota Dinamarquesa

Não gostei da forma como as últimas cenas são conduzidas. O que pareceu começar como uma obra de arte terminou com algumas sequências clichês de romances hollywoodianos. Parece que a qualidade da interpretação degringolou e o que começou produzido com calma foi terminado com pressa e sem muito cuidado. 

Mas acho que o que mais incomodou foi que fui à sessão de A Garota Dinamarquesa para tentar entender como a Lili se sente, mas o que vi foi sua história sob os olhos de Gerda. Sim, a perspectiva de Lili aparece, mas não protagoniza. 

Outro ponto que pode ser observado é uma certa desconexão com o contexto. Embora algumas cenas retratem isso, é de se imaginar que uma mulher transexual tenha sofrido muito com o preconceito e com a não aceitação de quem ela é por parte da sociedade, das pessoas ao seu redor. Entendo que o objetivo era retratar os conflitos internos, mas faltou um pouco mais de contextualização neste sentido.

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De qualquer forma, "A Garota Dinamarquesa" é um longa que merece ser visto pelas duas categorias técnicas nas quais foi indicado ao Oscar – Design de Produção e Figurino –, além de Ator Principal para Redmayne e Atriz Coadjuvante, pelo belo trabalho de Alicia Vikander. Mas, também, pela sensibilidade.

Não importa se você é cisgênero ou transgênero, se você simpatiza com a causa LGBTT, ou se você não entende nada de identidade de gênero ou orientação sexual. É um filme que nos ajuda a entender um pouco este tema que ainda é tão delicado.

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

A Garota Dinamarquesa

O amor não tem forma nem gênero

Diretor: Tom Hooper

Duração: 120 min

Estreia: 11 / Fev / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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