À primeira vista, Marty Supreme pode até parecer apenas mais um filme esportivo improvável, centrado em um esporte inusitado e em um protagonista excêntrico. E, na verdade, é até bom ir para o cinema com essa expectativa, porque a chance de surpresa é muito maior!
Mas basta alguns minutos para ficar claro que Josh Safdie está interessado em algo muito maior do que partidas de ping-pong. O filme acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem obcecado por reconhecimento, disposto a fazer qualquer coisa para ser levado a sério em um mundo que insiste em ignorá-lo.
Fonte: Divulgação/A24
Inspirado livremente na história real de Marty Reisman, um lendário jogador de tênis de mesa conhecido tanto por seu talento quanto por seus esquemas pouco ortodoxos, o longa mistura fatos, exageros e muita ficção. E isso não é um problema — pelo contrário. Desde o início, o filme deixa claro que não busca fidelidade histórica, mas sim capturar o espírito de um personagem movido por ambição, ego e uma necessidade quase desesperada de ascensão social.
Josh Safdie, aqui em mais um projeto solo, reforça seu estilo energético, caótico e nada confortável. Mesmo cercado por polêmicas recentes fora das telas, nada disso diminui o impacto do trabalho apresentado em Marty Supreme. O diretor entrega um filme pulsante, inquieto e cheio de personalidade, que nunca pede desculpas por seus excessos.
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Escrito em parceria com Ronald Bronstein, o roteiro encontra um equilíbrio raro entre ação, drama e comédia. É um filme que sabe ser engraçado sem perder peso emocional, intenso sem se tornar cansativo e ousado sem perder o controle — uma combinação que sustenta quase duas horas e meia com surpreendente facilidade.
Marty Supreme vale a pena?
Marty Supreme é um filme eletrizante, divertido e provocador, que funciona tanto como espetáculo quanto como estudo de personagem. Mesmo quem não vê graça nenhuma em ping-pong encontra aqui uma história envolvente, cheia de reviravoltas, sustentada por uma atuação poderosa de Timothée Chalamet e por uma direção que transforma ambição em puro cinema.
Um jogo de ambição, ego e sobrevivência
O grande acerto de Marty Supreme está em fugir completamente da estrutura clássica do “filme de superação”. Marty Mauser não é um herói inspirador, disciplinado ou moralmente exemplar. Pelo contrário: ele é um trambiqueiro carismático, impulsivo e muitas vezes difícil de defender. E é justamente isso que torna o filme tão interessante.
O roteiro aposta em um tom cômico elevado, com situações absurdas, humor físico e diálogos afiados, que surgem muitas vezes em meio a momentos tensos ou até chocantes. As risadas não aliviam o drama — elas o intensificam. Cada escolha errada de Marty empurra a história para um lugar ainda mais imprevisível.
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Mesmo com uma duração longa, o filme se organiza muito bem em blocos narrativos, quase como capítulos. Isso faz com que o ritmo se mantenha sempre acelerado, ainda que alguns arcos paralelos possam parecer excessivos para parte do público. Safdie prefere arriscar e abraçar tudo, em vez de simplificar — uma decisão ousada, coerente com o próprio protagonista.
No centro de tudo está Timothée Chalamet, em uma de suas performances mais intensas. Ele encarna Marty com arrogância, charme, desespero e vulnerabilidade, deixando claro o vazio emocional por trás da busca incessante por reconhecimento. É uma atuação que arranca risadas, provoca desconforto e, em alguns momentos, chega a emocionar.
Um espetáculo visual tão caótico quanto seu protagonista
Josh Safdie imprime ao filme um ritmo frenético do início ao fim. A câmera raramente fica parada, circulando personagens e ambientes com uma energia constante, especialmente durante as partidas de ping-pong. Os enquadramentos fechados, os movimentos rápidos e a edição precisa fazem o espectador sentir a tensão de cada jogada.
A montagem é fundamental para manter o impacto do filme. Mesmo nas cenas mais calmas, há sempre uma sensação de urgência, como se tudo pudesse sair do controle a qualquer momento. Safdie sabe exatamente quando acelerar e quando deixar o silêncio falar.
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Além do trabalho impressionante de Timothée Chalamet, Marty Supreme conta com um elenco coadjuvante afiado e bem escalado, que ajuda a sustentar o ritmo intenso da narrativa. Gwyneth Paltrow e Kevin O’Leary surgem em papéis pontuais, mas marcantes, trazendo camadas adicionais de ironia e tensão à trajetória do protagonista. Tyler, The Creator também aparece de forma carismática, contribuindo para o tom excêntrico e imprevisível do universo criado por Josh Safdie.
O grande destaque fora de Chalamet, no entanto, fica por conta de Odessa A'zion, que interpreta Rachel. Sua personagem funciona como um contraponto emocional essencial para Marty, trazendo densidade dramática e humanidade a uma história repleta de excessos e impulsos egoístas. Odessa entrega uma atuação intensa, sensível e cheia de presença, sendo responsável por algumas das viradas mais impactantes do filme. É uma performance que certamente chama atenção e reforça seu nome como uma atriz a se acompanhar de perto.
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A trilha sonora também tem papel essencial nessa experiência. Além da trilha original de Daniel Lopatin, marcada por sintetizadores, repetições hipnóticas e um clima quase extraterrestre — que, por vezes, lembram grandes músicos como Vangelis —, o filme se aproveita de diversas músicas conhecidas que ajudam a criar familiaridade e impacto emocional, o que impulsiona bastante o ritmo caótico e anima a plateia.
Visualmente, Marty Supreme impressiona pela variedade de cenários e pela ambientação cuidadosa. A fotografia é especialmente exigida em cenas noturnas e nos jogos, com controle preciso de luz e sombra. É um filme tecnicamente refinado, que nunca parece repetitivo, mesmo sendo tão intenso.
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Marty Supreme é um filme vibrante, ousado e cheio de contradições — assim como seu protagonista. Josh Safdie transforma uma história improvável em uma experiência cinematográfica intensa, sustentada por uma atuação extraordinária de Timothée Chalamet e por uma direção que não teme o excesso. Pode não agradar a todos, mas certamente é daqueles filmes que não passam despercebidos e ficam na cabeça muito depois dos créditos finais.
Músicas do filme Marty Supreme
- Tears For Fears – ‘Change’
- Alphaville – ‘Forever Young’
- Peter Gabriel – ‘I Have The Touch’
- The Korgis – ‘Everybody’s Got To Learn Sometime’
- Les Paul – ‘How High The Moon’
- Perry Como – ‘Don’t Let The Stars Get In Your Eyes’
- Fats Domino – ‘The Fat Man’
- Public Image Ltd. – ‘The Order Of Death’
- New Order – ‘The Perfect Kiss’
- Alex North – ‘Belle Reve’
- Paul Sikivie – ‘Rile’s Wiles’
- Tears For Fears – ‘Everybody Wants To Rule The World’