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Critica do filme A Odisséia dos Tontos

Em União e Liberdade

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Sexta, 01 de Novembro de 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
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Este texto NÃO contém spoilers para que você possa ter a melhor experiência durante o filme.

Baseado no livro de Eduardo Sacheri, La Noche de la Usina, o diretor e roteirista Sebastian Borensztein apresenta em A Odisséia dos Tontos uma divertida história de um grupo de “perdedores” que luta por uma vitória contra o próprio sistema que os subjuga. Em tempos de crise política e econômica em toda a América Latina, a nova produção estrelada por Ricardo Darin — ator xodó do cinema hermano — aposta no poder terapêutico da história, ambientada na crise Argentina de 2001.

A trama simples e bem amarrada é elevada em todos os níveis pela direção inteligente de Borensztein. Explorando ao máximo o excelente elenco do filme, o diretor dá espaço suficiente para que Luis Brandoni, Daniel Aráoz, Carlos Belloso e até mesmo o filho de Darin, Chino — que também assina a produção da película junto com o pai — ditem o ritmo da película.

A Odisséia dos Tontos é mais uma ótima produção argentina e já desponta como pré-indicado ao Oscar 2020. Com um humor bem dosado e uma história incrivelmente atual e pertinente, o filme tem um carisma todo especial valendo cada minuto dos seus 116 minutos.

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Em uma cidadezinha nos cafundós da Argentina, um grupo de humildes moradores, liderados pelo casal Fermín Perlassi (Ricardo Darín) e Lidia (Verónica Llinás), decidem formar uma cooperativa para comprar e administrar um silo abandonado, reestabelecendo a economia local e gerando vários empregos na região. A utopia “anarquista” começa a se estruturar e um a um os moradores vão depositando a sua parte no negócio.

No entanto, mal sabem eles que o sonho está para se tornar em um grande pesadelo. Para facilitar a liberação do seu empréstimo, o grupo acaba depositando todo o dinheiro arrecadado no banco, mal sabiam eles que no dia seguinte o governo neoliberal de Fernando de la Rúa aplicaria o famoso “corralito”, congelando os depósitos dos poupadores e estabelecendo limites para a retirada de fundos — uma versão portenha do Plano Collor 1.

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Em tempo, o bando de perdedores acaba descobrindo que foram induzidos propositalmente a realizar esta operação financeira, para que outra pessoa, ciente do que estava por vir, pudesse tirar todo o dinheiro antes da medida econômica entrar em vigor. Furiosos com o esquema e desesperados para reaver suas economias, a cooperativa vai atrás do que lhes foi tirado, em uma vingança que traz justiça, não apenas para eles, mas para todos que já foram enganados pelo sistema.

É muito fácil se identificar com a trama do filme, não apenas pela proximidade geográfica dos eventos, mas pelo contexto histórico que teima em se repetir por toda a América Latina. Os tontos do filme são “pessoas reais”, aqueles tipos que encontramos em qualquer cidadezinha, ou melhor, qualquer bairro seja da Argentina ou do Brasil.

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Duas vezes Darin

Falar em cinema argentino contemporâneo é falar de Ricardo Darin, o “galancito” que chamou a atenção do mundo em Nove Rainhas, soma sucessos de crítica e público. Ano após ano o ator emplaca filmes sejam comédias, dramas ou policiais como O Segredo de Seus Olhos, Relatos Selvagens e Um Conto Chinês. Em A Odisséia dos Tontos não é diferente, o filme — mesmo em plena crise econômica (mais uma) — já é uma das maiores bilheterias portenhas do ano e pré-candidato argentino para o Oscar 2020. Além disso, o nome de Darin também aparece na produção e no sobrenome de outro coadjuvante da película, seu filho Chino com quem contracena pela primeira vez no cinema.

Mas o cinema argentino e A Odisséia dos Tontos não vive só de Darin, mesmo que sejam dois, o filme também traz um ótimo elenco de apoio com destaque para o trio formado pelo veterano Luis Brandoni na pele do borracheiro “anarquista” Antonio Fontana, o impagável Carlos Belloso e seu “Loco” Medina e Daniel Aráoz como Belaúnde, um peronista convicto.

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“Boludos”

De crise em crise a Argentina vem dançando seu tanto político há um bom tempo. O atual momento, de retorno peronista não poderia contextualizar melhor a obra de Borensztein, que diz muito sem falar alto, com um filme simples que explora o poder do grupo, da cooperativa, e brinca com o espírito Robin Hood do pequeno tirando do grande.

Como no brasão Argentino, em união e liberdade, o grupo de heróis sem grandes atributos se tornam maiores pela união de suas forças. O grupo de “idiotas” como eles próprios se intitulam, são capazes de forjar um plano que devolve a dignidade para todos que já se sentiram explorados pelo sistema.

A Odisséia dos Tontos cativa com seus heróis carismáticos e sua mensagem universal de vingança robin-hoodiana

Munido de uma ingenuidade quase que infantil, o filme de Borensztein equilibra comédia, drama e pitadas de crime no que é um ótimo “filme de assalto” (heist movie) à lá 11 Homens e um Segredo. Com uma história de pequenos contra gigantes, A Odisséia dos Tontos agrada todos os públicos e não ficaria surpreso se em breve Hollywood transportar a saga dos idiotas portenhos para o cenário estadunidense.

Fonte das imagens: Divulgação/Warner Bros. Pictures

A Odisseia dos Tontos

A revanche dos perdedores

Diretor: Sebastián Borensztein

Duração: 116 min

Estreia: 31 / Out / 2019

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