Crítica Terror em Shelby Oaks | Um filme de terror independente irregular, mas intenso e assustador

Terror em Shelby Oaks” nasceu de um jeito que já chama atenção: uma campanha no Kickstarter que mobilizou mais de 14 mil apoiadores. É aquele tipo de caso que faz a gente perceber como o terror independente está mais vivo do que nunca e, às vezes, mais corajoso do que muito blockbuster.

Na história, acompanhamos Mia, que não consegue superar o desaparecimento da irmã, Riley, uma youtuber especializada em investigar o paranormal. Quando uma fita misteriosa surge com indícios de que Riley pode estar viva, Mia mergulha de cabeça em uma busca desesperada que mistura dor, paranoia e aquela sensação de que algo na escuridão está observando.

O filme marca a estreia de Chris Stuckmann como diretor e roteirista de longas. Apesar de ser novato, adianto que ele mostrou sua capacidade já no primeiro projeto. Parte do bom resultado pode ser também por conta da ajuda de Mike Flanagan (diretor de séries como A Maldição da Residência Hill, A Maldição da Mansão Bly, A Queda da Casa de Usher, bem como do filme Doutor Sono e outros de terror). Flanagan assume aqui como produtor executivo e deu toques importantes no caminho, ajudando a intensificar cenas e refinar decisões de edição.

terroremshelbyoaks03 b07feFonte: Divulgação/Diamond Films

E aí surge a pergunta que paira sobre o público desde o anúncio do filme: será que esta é a reinvenção do terror found footage? Ou será que estamos diante de mais um daqueles projetos repletos de câmeras tremidas, com pouca ousadia e que terminam com criaturas jogadas na tela? Vamos falar sobre isso!

Terror em Shelby Oaks vale a pena?

Sim, talvez com algumas ressalvas, mas vale. “Terror em Shelby Oaks” começa irregular e até cansativo, mas quando engrena, entrega um terror atmosférico, tenso e surpreendentemente ousado. Não reinventa o gênero, não acerta sempre, mas tem identidade, tem coragem e tem momentos realmente marcantes. É aquele tipo de filme que cresce com o tempo e recompensa quem fica até o final.

Entre fitas perdidas e segredos enterrados

O filme se estrutura em fases — e não, ele não escolhe um formato para chamar de seu. Primeiro, temos o found footage clássico, depois um falso documentário, até finalmente cair no estilo tradicional de terror. Parece bagunçado? Um pouco. Mas funciona melhor do que deveria. Achei chato que, nas duas primeiras fases, o roteiro insiste um pouco demais no “Paranoid Paranormals” (nome do grupo de YouTubers que desapareceu), repetido isso como se fosse palavra do dia.

A introdução é o trecho mais fraco: longa, repetitiva, com ritmo quebrado. Mas depois que a trama engrena, o projeto ganha força na maneira como constrói tensão. Não há chuva de jump scares baratos; em vez disso, o terror é sólido, baseado em atmosfera, violência brusca ocasional e algumas cenas bem ousadas. O clímax, especialmente, é quando “Terror em Shelby Oaks” realmente mostra do que é capaz.

terroremshelbyoaks01 50180Fonte: Divulgação/Diamond Films

Camille Sullivan interpreta Mia, que é o coração emocional do filme e também praticamente a estrutura do projeto, já que é a única protagonista e há poucos coadjuvantes. Sua busca é turbulenta, cheia de escolhas impulsivas e algumas incoerências típicas do gênero, mas é justamente isso que mantém a história viva e imprevisível.

Realmente, um trabalho fantástico de atuação de Sullivan ao fazer um equilíbrio de pratos, já que ela é responsável por praticamente todas as emoções do filme. Ótima atuação, convincente, impactante e, por vezes, até perturbadora. Os demais nomes do elenco fazem um bom trabalho, mas por fazerem pequenos trechos, acabam não brilhando muito.

Da câmera tremida ao horror cinematográfico

A variação entre câmeras tremidas, câmeras fixas e fotografia cinematográfica tradicional poderia ser um problema, mas aqui se encaixa melhor do que o esperado. Primeiro, é bom pontuar que ainda que não seja meu estilo favorito, é inegável que dá muito trabalho construir uma narrativa com "found footage", tanto na captação quando para o time de edição. O trabalho é bem feito nesse quesito, mas por preferência própria, eu acabo preferindo o estilo mais tradicional de terror.

terroremshelbyoaks02 8e6d4Fonte: Divulgação/Diamond Films

De qualquer forma, há coerência suficiente para evitar o caos visual, sendo que após engrenar no estilo mais comum de filme, o longa-metragem prende nossa tensão facilmente e graças ao bom trabalho de fotografia e direção de arte. Graças a esse bom trabalho, a cidade abandonada, as investigações, os mitos e o universo ficcional se tornam super interessantes e têm potencial de expansão — mesmo que não saibamos se haverá espaço para isso.

Tecnicamente, “Terror em Shelby Oaks” impressiona. Um dos elementos fundamentais para um filme assim funcionar é justamente criar ambientes perfeitos para o terror se esconder nas penumbras. Aqui, temos luzes pontuais que criam um clima inquietante e cenários que parecem respirar junto da protagonista. Algumas escolhas visuais realmente chamam atenção, especialmente nas sequências mais tensas.

A trilha sonora segue uma linha segura: nada muito inovador, mas extremamente funcional. O filme não tenta nos forçar sustos com sons estridentes, o que já é um alívio. É tudo bem equilibrado, reforçando a atmosfera sem brigar por protagonismo. Importante ressaltar que nem sempre musicalidade é a melhor proposta. Nas cenas de extremo silêncio, por exemplo, temos a melhor trilha sonora: a tensão evidente na respiração da protagonista, que demonstra o pavor do desconhecido.

terroremshelbyoaks04 80f0aFonte: Divulgação/Diamond Films

A direção de arte também merece aplausos. Os cenários abandonados, as sombras projetadas, o uso de pequenos elementos em meio à escuridão para induzir ao medo do oculto e até a criatividade na condução do roteiro por meio de ambientes pouco comuns mostram que o projeto teve excelente êxito em sua concepção e execução. É aquele tipo de terror que não tem medo de mostrar e, quando mostra, faz direito.

Enfim, “Terror em Shelby Oaks” é um filme de terror que está longe de ser perfeito por não ter uma constância em seu estilo, mas que, mesmo em meio aos tropeços, consegue encontrar um espaço para inovar e nos deixar apreensivos na cadeira do cinema — resta torcer para que não haja gente sem noção conversando e usando o celular durante a projeção. Minha recomendação: veja e descubra o mistério por si próprio, a probabilidade de se surpreender é muito maior do que de se arrepender.

Crítica Memórias de um Verão | Quando o tempo desacelera e o coração lembra quem somos

Baseado no clássico “O Livro do Verão”, de Tove Jansson, Memórias de um Verão traz para o cinema uma história contemplativa, que transforma pequenos momentos em grandes gestos de humanidade. O longa parte de uma premissa simples: a convivência entre uma avó e sua neta em uma ilha isolada. Porém, essa simplicidade funciona como porta de entrada para reflexões profundas — sobre o tempo, a infância, a velhice e o que fica guardado na memória de cada um.

Acompanhamos Sophia (Emily Matthews), uma menina de nove anos, e sua avó (Glenn Close) durante um verão marcado por descobertas silenciosas. Elas exploram a natureza, conversam sobre o mundo, desviam do tema da perda recente da mãe de Sophia e, aos poucos, deixam que a paisagem cure aquilo que elas ainda não conseguem dizer. É um enredo discreto, minimalista, mas que se apoia na força emocional dos detalhes: um olhar, um gesto, uma respiração longa diante do mar.

memoriasdeumverao02 7ce6aFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

E é justamente por ser tão discreto que o filme levanta a pergunta inevitável: esse tipo de narrativa ainda funciona, num mundo acelerado? A resposta depende do olhar de cada espectador — mas, para quem se permitir entrar no ritmo da ilha, Memórias de um Verão entrega uma experiência sensorial rara, que mistura silêncio, contemplação e sentimentos intensos. É um filme que pede calma; em troca, devolve introspecção e beleza.

Memórias de um Verão vale a pena?

Sim, vale — desde que você esteja disposto a desacelerar. Memórias de um Verão é um filme sobre pequenas coisas que revelam grandes verdades; sobre uma avó no fim de sua jornada e uma neta que mal começou a dela. A narrativa pode parecer parada, quase imóvel, mas funciona como uma meditação cinematográfica. A direção convida o espectador a sentir o vento, o mar, o silêncio — e a perceber que ali existe um mundo inteiro acontecendo. É um drama sensível, às vezes triste, outras vezes imensamente terno, reforçado por atuações impecáveis e uma fotografia de tirar o fôlego.

A Trama da Quietude: Vida, Tempo e Memória

O enredo de Memórias de um Verão é propositalmente simples — quase vazio à primeira vista. Pouca coisa acontece durante os 90 minutos: são conversas quebradas, passeios pela ilha, pequenas brincadeiras e silêncios prolongados. Mas essa “falta de ação” é justamente o que dá sentido ao filme. A narrativa funciona como um lembrete sobre o que realmente importa: observar, sentir, estar presente. É na calmaria que surgem as reflexões mais profundas.

memoriasdeumverao03 593bbFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A relação entre Sophia e sua avó é construída em gestos miúdos: a avó ensinando a criança a montar uma barraca, recordando histórias da juventude enquanto tenta lembrar fatos que já começam a escapar da memória, ou simplesmente caminhando lado a lado na praia. São momentos que poderiam passar despercebidos, mas que ganham enorme peso emocional quando vistos como fragmentos de uma vida inteira prestes a se despedir.

O filme também trabalha um contraponto poderoso: a infância e o fim da vida, lado a lado. A menina cheia de perguntas, irritada, teimosa, curiosa; a avó paciente, cansada, muitas vezes perdida entre lembranças e lapsos de memória. Através desse contraste, o longa sugere que compreender a existência talvez esteja justamente no meio-termo entre esses dois extremos — não no que sabemos, mas no que sentimos.

memoriasdeumverao04 669b0Destaque para o gatinho fofo no filme! - Fonte: Divulgação / Helsinki Filmi

Outro elemento forte é a forma como a natureza influencia a narrativa. A ilha é quase um personagem: o sol, o mar, as flores, o vento. A câmera se aproxima de detalhes minúsculos — gotas de orvalho, pedras à beira da água, folhas tremendo — como se cada pequeno elemento fosse parte de uma conversa maior. Essa estética transforma o simples em poético e reforça a ideia de que a vida acontece nas entrelinhas.

A Beleza do Silêncio

Glenn Close está magnífica. Sua atuação é contida, sutil, cheia de nuances — uma avó que mistura sabedoria, humor seco, fragilidade e um leve temor diante da passagem do tempo. É daquelas performances que não precisam de grandes discursos para emocionar; basta um olhar demorado ou uma respiração hesitante. Já Emily Matthews, em sua estreia no cinema, surpreende com naturalidade e sensibilidade, equilibrando inocência e intensidade sem nunca soar artificial.

memoriasdeumverao05 fe7c9Fonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A direção de Charlie McDowell abraça totalmente o espírito contemplativo do romance original. Em vez de explicar tudo, ele deixa que as situações falem por si — e quando fala demais, justamente aí o filme dá seus tropeços. Algumas cenas são mais verborrágicas do que deveriam, um contraste com a linguagem silenciosa que domina a maior parte da obra. Ainda assim, o equilíbrio final funciona e o tom geral permanece coerente.

A fotografia é, sem exagero, deslumbrante. Os planos da ilha parecem pinturas, com luz suave, cores quentes e composições que valorizam tanto a grandiosidade quanto os detalhes minúsculos. Há momentos que mais parecem haicais visuais: a avó observando o nascer do sol, Sophia correndo entre as rochas, o mar refletindo o céu como um espelho infinito. A câmera convida o espectador a respirar junto com a natureza.

memoriasdeumverao01 a978aFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A trilha sonora — ou a ausência dela — é outro trunfo. Muitos trechos são guiados apenas por piano leve, pelo som do vento, pela batida do coração, pela água tocando as pedras. O resultado é quase terapêutico, como se o filme pedisse: escute a vida. Essa combinação entre imagem e som cria uma atmosfera de serenidade e introspecção que permanece muito depois dos créditos.

Crítica O Agente Secreto | Um grande filme com múltiplas personalidades e final questionável

Será que “O Agente Secreto” tem o cacife para entrar na corrida do Oscar? Por que todo mundo está falando tanto sobre esse filme?

Essas são perguntas inevitáveis quando se fala da nova obra de Kleber Mendonça Filho — uma coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha que chegou com status de grande evento. E não é por menos: o diretor de Bacurau entrega aqui um projeto ousado, denso e repleto de camadas.

A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia que busca refúgio em Recife, em plena ditadura militar, na tentativa de escapar de um passado conturbado. Só que o que parecia um recomeço rapidamente se torna uma armadilha: a cidade o observa, os vizinhos o vigiam, e o que era refúgio vira paranoia. Um retrato de um Brasil sufocado, onde ninguém é completamente livre — nem mesmo quem tenta fugir.

oagentesecreto01 33027Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Com cerca de 2h40 de duração, “O Agente Secreto” pode parecer uma maratona, mas o tempo passa rápido. A narrativa é envolvente, a montagem dinâmica, e o filme tem aquele raro poder de nos fazer perder a noção do relógio. É entretenimento com alma e densidade, e mesmo quando erra, erra com estilo.

“O Agente Secreto” expõe a paranoia e o controle durante a ditadura sem recorrer a discursos tão diretos. Em cada vizinho, um espião em potencial; em cada janela, um olhar vigilante. Kleber Mendonça Filho constrói, com sutileza e precisão, um retrato de insegurança, ausências forçadas e temores silenciosos.

O Agente Secreto vale a pena?

Vale, e muito! Kleber Mendonça Filho entrega uma experiência rara no cinema brasileiro recente: ousada, provocante e com uma força autoral admirável. É um filme que mistura gêneros, desafia convenções e nos faz refletir, mesmo que, no fim, tropece em seu próprio excesso. A ambientação é fantástica, as atuações são de altíssimo nível e o conjunto técnico é impressionante. Ainda assim, O Agente Secreto sofre de uma “crise de identidade”, oscilando entre o thriller político, o drama, a comédia e outros gêneros. Essa mistura dá sabor, mas também confunde.

Um filme com mil rostos e uma só essência

É curioso: apesar do título, não existe exatamente um “agente secreto” no sentido literal. Marcelo é um homem comum, um fugitivo tentando sobreviver. A meu ver, me parece que “secreto” aqui é mais simbólico — refere-se às identidades inventadas, às máscaras que usamos para existir em meio ao medo.

oagentesecreto03 2ab86Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

O roteiro, contado de forma não linear, brinca com o tempo e com as percepções do espectador. A cada novo núcleo, o filme muda de tom — em um momento há humor, no outro violência gráfica; em seguida, drama político ou até pitadas de romance. A sensação é de estar vendo várias obras dentro de uma só, uma colcha de retalhos costurada com firmeza, mas nem sempre com precisão.

Mendonça Filho parece fascinado por essa mistura — e repete aqui o gosto pela violência estilizada que já vimos em Bacurau. Há cenas fortes, explícitas, que dividem opiniões. Algumas são marcantes; outras, completamente gratuitas. O infame arco “da perna”, por exemplo, soa mais como delírio do que como parte orgânica do enredo.

Ainda assim, o filme brilha em seu elenco. Wagner Moura está fenomenal. Sua entrega é visceral, cheia de nuances — o medo, a culpa, o cansaço, o humor sutil. Não à toa, levou o prêmio de Melhor Ator em Cannes 2025.

oagentesecreto02 cb770Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Tânia Maria rouba a cena como Sebastiana, a vizinha espirituosa que traz leveza sem forçar o humor. Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Robério Diógenes, Gabriel Leone e Roney Villela completam o elenco com performances consistentes, dando corpo a um mosaico de personagens intensos e inesquecíveis.

A força técnica por trás da confusão narrativa

Se há algo inquestionável em O Agente Secreto, é sua excelência técnica. A recriação do Recife de 1977 é impressionante — dos figurinos à frota de carros, das construções antigas aos pequenos detalhes dos cenários. É uma viagem no tempo feita com minúcia e paixão. Kleber Mendonça, nascido na capital pernambucana, conhece cada viela e esquina, e esse olhar pessoal dá vida ao cenário.

A fotografia é primorosa. Há um cuidado meticuloso com as cores, com a luz e com o contraste entre o calor do Recife e o frio psicológico da paranoia. Cada plano parece pensado para intensificar o desconforto, a sensação de que algo sempre espreita nas sombras. Claro, há um reforço cinematográfico graças à gravação em 35 mm com lentes Panavision de formato anamórfico.

oagentesecreto04 c5776Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

A trilha sonora é outro triunfo. O filme utiliza canções da época de forma diegética, ou seja, inseridas no próprio universo da narrativa. Somos apresentados aos sons quando os personagens ligam o rádio do carro, colocam um vinil no toca-discos ou apenas ouvem o ambiente ao redor. A música, aqui, não é apenas trilha: é personagem. E cada escolha tem peso narrativo.

Se você viu o trailer de O Agente Secreto, provavelmente percebeu que a música já roubava a atenção naquela prévia. A faixa usada é “Guerra E Pace, Pollo E Brace”, de Ennio Morricone — composta originalmente para o filme Obrigado, Tia (Grazie Zia, 1968) — e, no longa, ela cria um clima de tensão hipnótica.

Particularmente, gostei muito da cena embalada por “Retiro: Tema de Amor Número 3”, do Conjunto Concerto Viola. Aqui, a letra parece também funcionar como elemento narrativo, sendo mais uma camada inteligente do filme, que convida o espectador a reparar em cada detalhe. A canção acrescenta um lirismo melancólico e oferece à narrativa um sopro de humanidade.

No subtexto, “O Agente Secreto” fala sobre ausências, abuso de poder e os abusos da ditadura. O diretor nunca entrega discursos diretos, mas sugere com símbolos, gestos e silêncios, o trauma coletivo de uma nação — que, na narrativa, teme o presente, enquanto que a plateia certamente sabe que esse passado sombrio muitas vezes se insinua em situações do tempo presente. É uma obra que nos lembra, com sutileza e brutalidade, que esquecer é permitir que os mesmos erros retornem.

Infelizmente, essa escalada de tensão desagua num final que decepciona.

Depois de mais de duas horas de construção de personagem e drama, o desfecho é abrupto, superficial e inconclusivo. O clímax se esvazia antes de acontecer. Não é que falte explicação, mas falta coragem narrativa para encerrar o que o filme começou com tanta força. O resultado é um fim que deixa um vazio. Não o bom vazio reflexivo, mas o de frustração.

Um candidato brasileiro de peso no Oscar

Depois do sucesso de Ainda Estou Aqui (que rendeu o primeiro Oscar ao Brasil), “O Agente Secreto” chega com expectativas altíssimas. Foi escolhido para representar o país na disputa pelo Oscar 2026, e não é difícil entender por quê: é uma obra tecnicamente impecável, com alma autoral e um protagonista premiado.

oagentesecreto05 47698Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho já saíram de Cannes com prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor, respectivamente — um feito histórico. Ainda assim, o Oscar é um território imprevisível: filmes estrangeiros raramente conquistam múltiplas indicações. Mesmo assim, há boas chances de o nome de Wagner aparecer entre os indicados a Melhor Ator, assim como Kleber pode surpreender na categoria de Direção. Vamos ver o que vem por aí, não dá pra saber ainda.

Conflituoso, mas intenso e audaz

O Agente Secreto” é um espetáculo de cinema! Ambicioso, elegante e envolvente.

É também uma obra que se perde em suas próprias ideias, que tenta dizer muito e, às vezes, acaba mostrando demais. Ainda assim, é um filme que merece ser visto, debatido e celebrado. Um retrato inquietante de um país dividido, feito com arte e coragem.

No fim das contas, Kleber Mendonça Filho continua sendo o mesmo cineasta inquieto de sempre: aquele que provoca, mesmo quando deixa sem respostas.

Crítica A Própria Carne | Tema o desconhecido! Um filme de terror brasileiro que arrepia pela atmosfera sinistra!

Em pleno desfecho da Guerra do Paraguai, três soldados desertores encontram refúgio improvável em uma casa perdida no meio da mata. Exaustos, desesperados e necessitando de ajuda médica, eles acreditam ter escapado da violência do front. Contudo, a aparente tranquilidade logo se desfaz quando percebem que os moradores dali — um fazendeiro enigmático e uma jovem silenciosa — ocultam segredos tão sombrios quanto a própria guerra. O que começa como busca por abrigo rapidamente se transforma em um mergulho sinistro nas profundezas do medo e da loucura.

A Própria Carne chega aos cinemas como um projeto independente idealizado por Deive Pazos e Alexandre Ottoni, os nomes por trás do Jovem Nerd, em parceria com Ian SBF, que divide o roteiro e assume a direção, consolidando a transição de diretor de alguns projetos do Porta dos Fundos para uma obra de terror cinematográfica ambiciosa.

Desde o início, o projeto nasceu sob a bandeira da coragem e da confiança na própria comunidade. Muito além do investimento dos criadores, o filme ganhou vida graças a uma campanha de financiamento coletivo que reuniu centenas de fãs dispostos a colocar dinheiro próprio na realização de um terror nacional ousado. O resultado representa não apenas um marco de produção independente, mas também a transição de nomes que já conquistaram o público na internet para uma narrativa madura, sombria e ambiciosa nas telonas.

Logo de início, destaca-se Luiz Carlos Persy, cuja presença em cena domina a atmosfera com magnetismo absoluto. Muitos talvez não reconheçam seu rosto, mas dificilmente esquecerão sua voz. Persy emprestou seu talento a personagens icônicos da dublagem brasileira, como Lord Voldemort em Harry Potter, Gandalf em O Senhor dos Anéis e Joel em The Last of Us. Sua capacidade vocal já era temida e reverenciada; agora, sua presença física encontra um papel à altura, compondo um antagonista que flutua entre o real e o inexplicável.

apropriacarne1 612ddFonte da imagem: Divulgação/Nonsense Creation

É inevitável abordar um ponto sensível: o preconceito histórico do público brasileiro com o cinema nacional, sobretudo o terror. A falta de verba já rendeu obras honestas, porém limitadas em efeitos ou maquiagem, alimentando uma injusta desconfiança sobre nosso potencial no gênero.

Contudo, o Brasil sempre abrigou um folclore rico, uma história sangrenta e um imaginário cultural único. Faltava apenas um filme disposto a reivindicar essas raízes com ambição. A Própria Carne surge justamente como esse divisor de águas. Será que vale a pena ver A Própria Carne? Estaríamos diante de uma virada para o terror brasileiro? A resposta, felizmente, é promissora.

A Própria Carne vale a pena?

A Própria Carne surpreende ao unir terror histórico, atmosfera claustrofóbica e uma construção narrativa gradual, inquietante e madura. Com destaque para Luiz Carlos Persy, direção segura de Ian SBF e um capricho técnico que ajuda na construção do clima de horror, o filme entrega tensão constante, ambientação impecável e um final impactante. Um terror brasileiro que merece ser visto no cinema.

Terror ancestral em solo brasileiro

A premissa bebe de fontes históricas, situando o espectador em um Brasil antigo, violento e real — o que dá ao filme um ar quase documental no início. A casa isolada e o estranho senhor que a habita remetem ao arquétipo clássico do “horror rural”, porém o longa nunca se acomoda em clichês. O isolamento, a fragilidade dos soldados e o silêncio opressivo constroem um ambiente onde o desconhecido sempre parece observar — ainda que escondido na escuridão.

apropriacarne6 30ecdFonte da imagem: Divulgação/Nonsense Creation

A ambientação pré-eletricidade é decisiva: a luz de velas, os cômodos estreitos, as sombras que engolem metade do quadro e os sons abafados da floresta criam sufocamento contínuo. Cada canto da residência parece esconder algo vivo e perigoso, enquanto o lado externo oferece pouco alívio com sua mata fechada, cheia de ruídos, galhos estalando e sombras que parecem querer engolir o espectador. Muito terror aqui nasce da sugestão — e o filme entende que, muitas vezes, o que não vemos é mais aterrorizante do que o que é mostrado.

A narrativa alternada entre os desertores mantém o suspense em alta, revelando pedaços do mistério com parcimônia. Nada aqui se entrega de imediato. Os diálogos fluem com naturalidade, e mesmo quando o vilão flerta com um tom quase ritualístico — algo entre conto folclórico e delírio místico — isso sustenta o clima de fábula sombria, ecoando tradições do horror literário.

Há momentos que remetem às histórias de H. P. Lovecraft, não pela explicação explícita do desconhecido, mas pelo cuidado na construção do ambiente e pelo uso de pequenos detalhes que alimentam o desconforto. Cada ruído abafado, cada olhar desconfiado e cada elemento do cenário opera para insinuar que a ameaça é maior do que o espectador consegue compreender de imediato, reforçando uma atmosfera sufocante e meticulosamente arquitetada.

apropriacarne2 a05f2Fonte da imagem: Divulgação/Nonsense Creation

O elenco entrega com força, e apesar de nomes menos conhecidos do grande público, cada personagem parece carregado de história, trauma e medo real. Luiz Carlos Persy, por sua vez, domina o filme. Sua postura, seu olhar e sua cadência ao falar imprimem autoridade e terror sem esforço. Ele é a engrenagem que move o mistério e sustenta o horror até o último segundo.

Terror visceral, estética precisa e sonorização sufocante

A construção técnica de A Própria Carne impressiona. Figurino, direção de arte e maquiagem trabalham com rigor para inserir o espectador naquele período. As roupas gastas, a sujeira, o sangue seco, os tecidos ásperos, tudo contribui para a imersão total. A fotografia aposta em profundidade, contraste e escuridão — e a escuridão aqui é personagem. O jogo entre o que se vê e o que se insinua mantém a mente inquieta. A brutalidade, quando surge, é crua e visceral, sem exageros gratuitos. Não é um gore carnavalesco, mas o suficiente para deixar a pele arrepiada e o estômago tenso.

A sonoplastia merece elogios particulares. Cada ruído da mata, cada respiração, cada rangido constrói tensão. A trilha de Bruno Gouveia amplifica o desconforto com cordas distorcidas, notas longas e ruídos que parecem ecoar de um pesadelo distante. Som e silêncio trabalham juntos, preparando o terreno emocional para o espectador ser surpreendido.

apropriacarne3 84b48Fonte da imagem: Divulgação/Nonsense Creation

No desfecho, o filme entrega sua carta final com coragem. O clímax não só recompensa a construção lenta, como expande o escopo do terror para algo maior, mais ancestral, mais perturbador. Há um toque inevitável de horror cósmico, aquele medo do indescritível que arrasta o público para o abismo junto com os personagens.

A Própria Carne não é apenas um excelente filme nacional; é um manifesto de que o terror brasileiro tem carne, sangue, ossos e alma. Revela talentos, honra nossa história, bebe de fontes literárias profundas e executa com precisão. É um sopro poderoso para o gênero no país, e muito provavelmente um marco que será lembrado no futuro. Uma obra que merece ser vista na tela grande, com o coração preparado e os ouvidos atentos.

apropriacarne4 8eac2Fonte da imagem: Divulgação/Nonsense Creation

Se o Brasil sempre teve potencial no terror, talvez este seja o momento em que a cortina se abriu de vez.

Atenda ao chamado. Há algo vivo na escuridão. E tem fome.

Crítica O Telefone Preto 2 | Atende esse treco de volta se não o bicho pega!

Há quatro anos, Finn, então com 13 anos, matou seu sequestrador e escapou, tornando-se o único sobrevivente do vilão apresentado em O Telefone Preto — história que saiu do livro homônimo de Joe Hill, que, por sinal, é filho de Stephen King. Mas o verdadeiro mal transcende a morte… e o telefone voltou a tocar.

Enquanto Finn, agora com 17 anos, tenta lidar com a vida após o cativeiro, Gwen, de 15 anos e determinada, começa a receber ligações em seus sonhos através do telefone preto — e a ter visões perturbadoras de três garotos sendo perseguidos em um acampamento de inverno chamado Alpine Lake.

Decidida a resolver o mistério e acabar com o tormento que aflige a ela e seu irmão, Gwen convence Finn a visitar o acampamento durante uma tempestade de inverno. Lá, ela descobre uma ligação devastadora entre O Sequestrador (Ethan Hawke) e a própria história de sua família. Juntos, Gwen e Finn terão que enfrentar um assassino que se tornou ainda mais poderoso após a morte — e mais ligado a eles do que jamais poderiam imaginar.

otelefonepreto21 96a5aFonte: Divulgação/Universal Pictures

A sequência começa praticamente de onde o primeiro longa terminou, mas com uma perspectiva completamente nova. Se no original o terror vinha do confinamento e da presença física do vilão, em O Telefone Preto 2 o medo se manifesta no sobrenatural, expandindo o universo para além das paredes do cativeiro. Será que O Telefone Preto 2 é um terror sobrenatural à altura do original? Vale conferir a continuação no cinema?

O Telefone Preto 2 vale a pena?

O Telefone Preto 2 surpreende ao expandir o universo do original sem repetir sua fórmula. Scott Derrickson aposta em um terror mais sobrenatural, com visuais deslumbrantes e atuações intensas, especialmente de Madeleine McGraw. Apesar de pequenas conveniências no roteiro, é uma sequência sólida, madura e visualmente impressionante.

O telefone tocou novamente... Fui atender e era O Sequestrador

É muito raro uma continuação de um filme de sucesso — ainda mais no gênero terror — se manter no mesmo nível do original. Mas O Telefone Preto 2 consegue essa façanha, e o melhor: sem repetir a fórmula. A pegada é tão diferente que parece que estamos assistindo a um novo universo, ainda que conectado ao primeiro. A trama traz muitas novidades, expande conceitos e cria pontes inteligentes com o longa anterior, sem depender dele para funcionar. E uma boa notícia: caso você não tenha visto o primeiro, dá para ver o segundo sem grandes problemas (claro, é altamente recomendado ver o anterior pelo fato de que é um ótimo filme de terror)

Enquanto o primeiro filme explorava o terror humano, centrado em um assassino real e nas cicatrizes emocionais de suas vítimas, aqui o sobrenatural assume o controle. O mundo dos mortos invade o dos vivos, criando uma sensação constante de incerteza. A atmosfera fica mais sombria, e o vilão — agora uma força espectral — se torna ainda mais ameaçador. Existem algumas conveniências no roteiro, mas nada que atrapalhe o envolvimento. Derrickson e o co-roteirista C. Robert Cargill entregam uma história consistente, com ritmo firme e boas ideias originais, extrapolando o material do conto de Joe Hill.

otelefonepreto24 3a14bFonte: Divulgação/Universal Pictures

Scott Derrickson demonstra mais uma vez sua experiência com o gênero, depois de títulos como A Entidade e Livrai-nos do Mal. Seu olhar técnico e criativo é um dos pontos altos do filme. Se o primeiro Telefone Preto era sobre o medo palpável, aqui ele traduz o pavor invisível. A intersecção entre o real e o espiritual é construída com transições brilhantes e um uso magistral de câmera, que permite ver os dois mundos coexistindo.

O visual é um espetáculo à parte. O diretor faz uso de efeitos e truques de câmera que só funcionam em um cenário gélido: janelas cobertas de gelo com expressões aterrorizantes, nevascas intensas e perseguições sobre lagos congelados criam um ambiente ao mesmo tempo belo e ameaçador. Há excelentes jump scares, sempre bem dosados, e o uso da penumbra é de altíssimo nível. A decisão de diferenciar o “mundo do além” com um aspecto de filme envelhecido e granulado é um toque de pura criatividade.

Outro acerto está no elenco. Se no primeiro longa Mason Thames carregava o protagonismo, aqui cede — e, às vezes, divide — o espaço para Madeleine McGraw, que entrega uma performance excepcional. Sua personagem Gwen é o coração emocional da trama: determinada, vulnerável e poderosa ao mesmo tempo. A jovem atriz demonstra um domínio impressionante em cenas de desespero, medo e coragem. É dela o papel mais difícil, e ela o cumpre com brilho.

otelefonepreto23 11c3eFonte: Divulgação/Universal Pictures

Completando o elenco, Miguel Mora tem boa presença, ainda que em menor escala, e Demián Bichir adiciona peso à história, com uma atuação segura e contida. Já Ethan Hawke retorna de forma mais intensa, uma vez que seu personagem tem ainda mais poderes e sua presença continua sendo o elemento mais inquietante da franquia. Mesmo sem corpo físico em boa parte da trama, o ator impõe o mesmo desconforto e ameaça com aparições cada vez mais tenebrosas.

Som, luz e pesadelos: um espetáculo técnico do medo

A fotografia de Pär M. Ekberg é deslumbrante. O diretor de fotografia entende que o horror está tanto no que se vê quanto no que se insinua. O contraste entre luz e sombra, o uso inteligente de tons azulados e brancos para as cenas na neve e o visual um pouco apagado dos flashbacks criam uma estética sofisticada e coerente. A fronteira entre o real e o imaginário é constantemente embaralhada — e é isso que torna o filme visualmente hipnótico.

A trilha sonora, composta por Atticus Derrickson (filho do diretor), também merece destaque. Em sua estreia em longas-metragens, o jovem compositor aposta em sons distorcidos, ecos metálicos e ruídos que parecem vir do além. As faixas lentas e melancólicas ajudam a prolongar a sensação de pesadelo, transformando o silêncio em mais um elemento de terror. É um trabalho inventivo, que complementa o clima frio e espiritual do filme.

 otelefonepreto22 c2701Fonte: Divulgação/Universal Pictures

No fim das contas, O Telefone Preto 2 é uma sequência surpreendentemente sólida. É mais maduro, mais ambicioso e, de certa forma, mais triste. O foco no trauma e na conexão entre os irmãos dá profundidade emocional ao terror, elevando a história além dos sustos fáceis. Derrickson entrega um filme inventivo e assustador na medida certa, que prende o espectador do início ao fim sem repetir o que já funcionou antes — prefere expandir e arriscar, e é justamente aí que acerta. Uma excelente pedida para ver no cinema, de preferência com o volume alto e o coração preparado.

Crítica do filme Tron: Ares | A história rasa do ChatGPT que ganhou novos Ares com gráficos incríveis

Em 1982, Tron apresentou ao mundo uma ousada visão do ciberespaço, quando computadores ainda eram novidade. Quase trinta anos depois, Tron: O Legado (2010) trouxe a franquia de volta com visual arrojado e trilha marcante do Daft Punk. Agora, em 2025, "Tron: Ares" surge como o elo improvável dessa trilogia esparsa — uma mistura de nostalgia, experimentação digital e um esforço visível para manter o brilho de uma ideia que sempre foi mais fascinante visualmente do que emocionalmente.

A trama apresenta Ares, um programa avançado enviado do mundo digital ao real — o primeiro contato direto entre humanos e uma inteligência artificial materializada. O conceito é promissor, especialmente em tempos de ChatGPTs e robôs humanoides, mas o roteiro transforma essa premissa potente em uma narrativa rasa, repleta de momentos previsíveis e explicações que soam tão artificiais quanto o próprio protagonista.

A história, simples e diluída, dificilmente exigiria duas horas de projeção. Há uma sensação constante de que muitos diálogos ou cenas servem apenas para costurar o próximo espetáculo visual. O resultado é um filme que deslumbra os olhos, mas raramente mexe com o coração. Ainda assim, é impossível negar que a estética — limpa, reluzente e geométrica — continua sendo a alma da franquia.

tronares00 a819bFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Será que a saga Tron tem energia suficiente para conquistar uma nova geração? O fascínio atual pela inteligência artificial é capaz de reacender o interesse por uma franquia que nunca encontrou um público cativo?

Tron: Ares vale a pena?

O novo capítulo da franquia brilha pelo visual e pela imersão no mundo digital, com uma trilha sonora ousada, mas tropeça no roteiro e na emoção. É um bom espetáculo visual, mas sem o aprofundamento que um tema tão atual merecia. Se você quer um filme pipoca, vale o ingresso! Mas se busca mais conteúdo, talvez seja melhor aguardar outros lançamentos de ficção científica.

Só nos Computer como nunca antes

Do ponto de vista técnico, "Tron: Ares" é impecável. A produção é um verdadeiro upgrade de firmware cinematográfico: luzes, texturas e movimentos em CGI atingem um nível de refinamento impressionante. Cada cena parece uma pintura digital em movimento, com design sonoro que mergulha o espectador em um mundo pulsante, metálico e imersivo.

A trilha sonora do Nine Inch Nails é, sem exagero, um dos pontos mais altos do filme (inclusive, está abaixo, só dar o play para curtir enquanto lê o restante do texto). Trent Reznor e Atticus Ross abandonam o estilo eletrônico dançante do Daft Punk e criam algo mais sombrio e experimental. São faixas que misturam distorções metálicas, pulsos industriais e atmosferas densas — sons que se encaixam com precisão cirúrgica nas imagens de circuitos, cabos e entidades digitais. O filme pode até tropeçar na história, mas acerta em cheio no som.

O problema é que, fora do espetáculo sensorial, pouco sobra. Os personagens são tão rasos quanto os diálogos que os movem. Ares e companhia transitam entre dilemas simplistas sobre “propósito” e “liberdade”, em falas que parecem saídas de um episódio de Pinky e o Cérebro. O roteiro não se arrisca em questões filosóficas nem constrói vínculos emocionais; prefere ficar na superfície luminosa de sua própria estética.

A construção de vilões caricatos, focados apenas em suas ambições de dominar o mundo a qualquer custo, torna tudo ainda mais cansativo — um tipo de antagonismo de manual que já não empolga, especialmente em um contexto de ficção científica que poderia explorar dilemas éticos e existenciais mais ricos.

tronares05 2b076Fonte: Divulgação/Walt Disney Studios

A franquia, que sempre brincou com a fronteira entre homem e máquina, agora aposta na inversão: não são mais os humanos que entram na Rede, mas os programas que ganham corpo no mundo real. É uma ideia interessante, mas que o filme nunca explica de forma convincente. E está tudo bem — nem tudo precisa de uma lógica científica exaustiva. Explicar em detalhes o processo de “materialização” digital só tornaria o filme mais arrastado, e talvez até pedante.

Ainda assim, não deixa de ser curioso pensar como algumas obras conseguem equilibrar conceitos complexos e emoção — Interestelar, por exemplo, traduziu teorias físicas engenhosas de forma acessível e envolvente, provando que é possível unir ciência e sentimento sem perder o público.

Lá vem Jared Leto no grau dando seu show!

A sequência de perseguição com as motos de luz é, sem dúvida, o ponto alto do filme. É o tipo de cena que faz valer o ingresso: rápida, vibrante e impecavelmente coreografada. Além disso, em outras cenas que mostram mais do mundo virtual e seus softwares em versões humanoides, a dualidade visual — com azuis frios e vermelhos incandescentes — reforça a eterna luta entre o bem e o mal no universo Tron. Nesse momento, Ares atinge o que sempre prometeu: uma experiência visual eletrizante.

Jared Leto, no papel do programa titular, é um caso curioso. O ator parece preso em uma maré de auto sabotagem artística: depois de um Coringa desastroso e performances erráticas, ele assume aqui um papel que exige pouca emoção e muita presença digital. Seu Ares é um amontoado de pixels carismáticos que tenta, sem sucesso, despertar empatia — um robô que, como o Homem de Lata de Oz, sonha em ter um coração.

tronares03 bc59eFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Greta Lee, por outro lado, oferece uma das atuações mais humanas do filme. Ela funciona como elo de ligação entre os universos, transitando com naturalidade entre o drama e a ficção científica. Sua personagem carrega o peso da única linha emocional genuína da história, equilibrando vulnerabilidade e racionalidade. Greta faz um verdadeiro malabarismo: ora perseguida, ora solucionadora dos problemas — uma figura que tenta dar coerência emocional onde o roteiro falha.

Gillian Anderson, a eterna Dana Scully, merece menção especial. Não apenas pela performance sólida, mas pela deliciosa ironia de vê-la novamente envolvida em tramas sobre mundos digitais e conspirações tecnológicas. Se existe alguém com “formação” para lidar com inteligências artificiais rebeldes, é ela, afinal, Arquivo X já explorava ameaças de servidores autoconscientes antes mesmo do termo “IA generativa” existir.

tronares02 bb6e1Fonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Evan Peters, por sua vez, tem o azar de interpretar o vilão mais genérico do pacote: o jovem gênio da tecnologia, claramente inspirado em figuras como Mark Zuckerberg, cuja ambição o torna quase uma caricatura. O problema não é o ator — que faz o possível —, mas o personagem, que soa mais como um arquétipo de vilão do Vale do Silício do que alguém com camadas ou motivações reais.

Jeff Bridges surge como uma aparição simbólica, quase divina, para conectar Ares às origens da franquia. Seu Kevin Flynn é a ponte entre o clássico e o moderno — uma homenagem elegante que não precisava acontecer, mas que funciona como uma saudosa piscadela aos fãs. Ver Leto e Bridges lado a lado é testemunhar, em um só quadro, o contraste entre duas gerações de Tron: o criador e a criação, o humano e o código, o passado analógico e o futuro renderizado em 8K.

Apesar de tudo, há algo cativante no contexto em que "Tron: Ares" chega. Em plena era da inteligência artificial, o filme desperta reflexões involuntárias sobre o poder e os limites da tecnologia. Mesmo sem aprofundar o tema, é curioso como a ficção continua insistindo na ideia de que a IA um dia se voltará contra seus criadores — talvez mais um espelho das nossas próprias inseguranças do que uma previsão realista.

tronares04 713efFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Infelizmente, a ambição filosófica não se sustenta. Tron: Ares encerra tentando abrir espaço para uma continuação, mas o descompasso entre visual e narrativa sugere que dificilmente veremos outro capítulo tão cedo. A bilheteria não está das melhores e o histórico da franquia indica que o próximo reboot, se vier, pode demorar mais vinte anos.

No fim, "Tron: Ares" é um espetáculo sensorial irresistível: um delírio digital que impressiona pelos efeitos, encanta pelos sons, mas não resiste quando se tenta buscar substância. É o típico caso em que o hardware é de última geração, mas o software ainda precisa de uma boa atualização.