Crítica do filme Rashomon | Obra-prima com história superestimada

Akira Kurosawa não é apenas uma das referências máximas do cinema japonês, mas é também um dos cineastas mais brilhantes de todos os tempos. Basta acessar o Rotten Tomatoes ou o IMDb para perceber como há um consenso sobre a genialidade dele.

Com obras como “Os Sete Samurais”, “Yojimbo, O Guarda-Costas” e “Rashomon” em seu currículo, Kurosawa conquistou o mundo com seu estilo próprio, o que se refletiu em diversas indicações em grandes premiações e até mesmo estatuetas, incluindo o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para “Rashomon”.

O detalhe é que vários desses filmes são quase impossíveis de encontrar em mídias físicas e são raros em serviços de streaming, sendo que nem mesmo as lojas mais famosas contam com estes títulos no catálogo. Assim, antes de falar sobre “Rashomon”, eu vou deixar a dica para você conferir o filme de uma forma legal.

Como assistir Rashomon online?

Filme antigos são raridades em mídia física, mas talvez sejam ainda mais difíceis de encontrar em serviços de streaming. Pelo menos agora há um jeito fácil e acessível de ver “Rashomon” e outros títulos clássicos, sejam obras-primas do cinema japonês ou de nacionalidades.

O serviço de streaming Belas Artes À LA CARTE tem um catálogo de filmes cults e raros, sendo uma ótima opção para quem ama obras clássicas dos mais famosos diretores e títulos raros de encontrar no circuito comercial. Por apenas R$ 9,90 por mês, você pode ver os filmes no celular, PC ou TV (Android TV, Apple TV, Roku ou Chromecast).

Neste mês de julho, o À LA CARTE apresenta filmes para os mais saudosistas, incluindo “Rashomon” e “A Flauta Mágica”, de Ingmar Bergman. Então, fica essa dica!

Quem conta um conto, aumenta um ponto

“Rashomon” tem enredo simples: uma história de assassinato e estupro é recontada a partir de múltiplas perspectivas, de supostas testemunhas e dos próprios envolvidos na história. Assim, o filme mostra os mesmos fatos diversas vezes, mas com algumas distorções nos diálogos e nas situações.

Com um elenco renomado, incluindo nomes como Minoru Chiaki, Takashi Shimura e Toshirô Mifune (trio que apareceu depois em “Os Sete Samurais”), bem como Masayuki Mori e Machiko Kyô, esta obra lá de 1950 esbanja talentos e se destaca pelas ótimas performances que são intercaladas no decorrer da trama.

É inegável que “Rashomon” é uma obra-prima do ponto de vista técnico. O filme tem uma direção incrível, com cenas incrivelmente complexas para a época de produção. As cenas de ação permeiam a trama em vários pontos e mostram não apenas o talento de Kurosawa, como ressaltam a importância de um bom operador de câmera.

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Obviamente, o resultado final é fruto do trabalho em equipe. A direção de fotografia é ousada, ainda mais com os cenários repletos de nuances e múltiplas fontes de luz, algo ainda mais difícil de equilibrar dada a composição em preto e branco. E há de se considerar o desafio na inserção dos personagens em meio a tais ambientes.

Akira Kurosawa não apenas apresenta uma direção precisa como garante um filme extremamente natural e pouco enfeitado. As lutas com espadas são prolongadas e até parecem contar com alguns improvisos, o que dá um toque especial de veracidade. Tais momentos são intercalados com as cenas dos diálogos, que ajudam na narrativa.

Não menos importante, temos componentes sonoros que fazem de “Rashomon” um filme bem orquestrado. A trilha sonora é muito expressiva e repleta de elementos que garantem o compasso da ação. No entanto, é no silêncio que o filme chama a atenção. Com as cenas de relatos e os diálogos em meio à chuva, a trama nos prende com seu tom de mistério.

Eu simplesmente não entendo...

Apesar de todos esses pontos a favor do filme e indo na contramão dos tantos fãs de Kurosawa, na minha opinião, “Rashomon” é um filme que sai do nada e vai a lugar nenhum. Eu não tenho o mínimo problema em argumentar contra um filme de Kurosawa, pois não se trata de uma crítica ao cineasta, mas ao enredo proposto neste título em particular.

É curioso que os personagens no início do filme soltam a frase: “Eu simplesmente não entendo”, numa situação em que eles estão meditando profundamente sobre o causo que será abordado ao longo da trama. O reforço no tom de confusão e de absoluto choque com a história do assassinato deixam o espectador ainda mais intrigado.

O problema é que esse grande suspense leva a um fato pouco surpreendente. No entanto, eis o xis da questão: não se trata de um filme para ter um entendimento. O propósito não é ser algo convencional, mas levar uma moral muito mais ampla sobre o egoísmo dos seres humanos e as diferentes verdades que cada um inventa.

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Talvez na época de lançamento ou a partir da perspectiva de pessoas com mentes brilhantes, “Rashomon” entregue de fato uma história de cair o queixo, mas a minha impressão é de que temos aqui uma genialidade superestimada. Não que seja forçado pelo filme, mas muitos críticos batem nessa tecla de forma exagerada.

Não se trata de um título simples, muito pelo contrário, há inventividade e uma moral válida, mas não espere uma conclusão surreal como a que os personagens sugerem no início da trama. No fim das contas, “Rashomon” é uma obra que vale a pena ver com atenção, porém, a meu ver, está longe de ser um dos melhores de Kurosawa.

Crítica do filme O Segredo de Brokeback Mountain | Solidão em meio à Tradição

Mais do que um drama, “O Segredo de Brokeback Mountain” (de 2005) é um filme sobre a solidão. Mais do que os preconceitos retratados na temática do filme e também na avaliação de muitos espectadores, um fato é verdade: Por que essa produção de Ang Lee, por um lado, incomoda tanto o público e, por outro lado, angariou da crítica notas altíssimas nas avaliações?

Brokeback Mountain é baseado no romance de Annie Proulx, escritora norte-americana de origem franco-canadense ganhadora do prêmio Pulitzer, de 1993, pelo romance “The Shipping News” (em português, “Chegadas e Partidas”, de 2001). De forma semelhante a esse filme, “Brokeback Mountain”, baseado nos contos de Proulx “Close Range: Wyoming stories” (de 2001), terá como signos temáticos a construção da Tradição.

Não aquela tradição vinculada à fundação de um povo, como “The Shipping News”, mas a uma cultura republicana e ao mesmo tempo ultraconservadora dos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1990. O cenário é Wyoming, local em que dois caubóis, Ennis Del Mar e Jack Twist, um rancheiro e um vaqueiro, se conhecem na montanha Brokeback e passam a se encontrar em segredo durante anos.

Del mar é interpretado por Heath Ledger (premiado pelo papel de Coringa no filme “Batman - O Cavaleiro das Trevas”), e Twist é interpretado por Jake Gyllenhaal, outro ator conhecido por interpretar personagens complexos, como em “Donnie Darko” (2001) e “O Homem Duplicado” (2013), este baseado no romance homônimo de José Saramago.

O patriarcado e as vidas de aparência

A par de suas vidas como pais de família (e esse signo já invoca o tema do patriarcado e das obrigações sexuais e sociais do homem que não pode demonstrar sentimentos), o medo que ambos os vaqueiros demonstram ao esconder sua sexualidade vai sendo dramatizado sem pressa e sendo ampliado, à medida que ambos não suportam mais a dor do segredo e da solidão.

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O conteúdo polêmico sobre homens que se amam não é novidade. O tema reforçado em “O Segredo de Brokeback Mountain” já foi dramatizado por outros atores famosos, como DiCaprio, em Total Eclipse (1995) e Michael C. Hall (da série Dexter, em Six Feet Under, da HBO), ambos também com maestria na atuação.

Portanto, a forma com que os espectadores reagem a determinadas figuras do discurso fílmico (o caubói machão, a religião cristã, o conservadorismo republicano do oeste norte-americano) depende da forma como encaram seus opostos: o homem sentimental e o jogo de valores dos Estados laicos das sociedades modernas, cada vez mais distantes de todo tipo de preconceito social.

Vida de cowboy de cinema com trilha impecável

Tecnicamente, o filme não somente nos mostra contrastes do conteúdo, mas também da expressão fílmica. As montanhas como cenário de fundo (aberto, livre) contrastam com o drama de ambientes fechados (nos bares, casas escuras, quartos e no fechamento social simbólico) e com a solidão sentimental extrema dos caubóis.

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À medida que suas vidas de aparência se desenvolvem, o drama nos faz torcer por eles, ao mesmo tempo em que a vida não ajuda nas tentativas de reencontro de ambos, cujo tempo somente os afasta. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla é outro show à parte, uma vez que Santaolalla também produziu a trilha do aclamado jogo “The Last of Us”, de 2013.

Enfim, “O Segredo de Brokeback Mountain” é um filme inesquecível, com o melhor da direção de Ang Lee!

Confira também o review de “Brokeback Mountain” em vídeo:

Crítica do filme Santa Maud | Terror religioso com pegada de "O Exorcista"

Apresento-lhes "Santa Maud", definitivamente um candidato a melhor filme de horror de 2021. Imagine um mundo onírico de terror que vai aonde a protagonista estiver. Adicione uma ambiguidade interpretativa esplêndida da atriz galesa Morfydd Clark, que vai dos signos da fé aos da psicose assombrosa em poucos segundos.

Agora, misture com muitos enquadramentos fechados e planos-detalhe do rosto da protagonista (uma espécie de “body horror”), ora possuída, ora em êxtase sexual. Obtenha um filme com a atmosfera das produções de Robert Eggers, com os efeitos de O Exorcista, mas com a classe da direção magnífica de Rose Glass.

Em "Santa Maud", acompanhamos uma jovem enfermeira reclusa, cuja personalidade facilmente impressionável a leva a seguir um caminho piedoso de devoção cristã após um trauma obscuro. Agora, trabalhando em uma unidade de cuidados paliativos, responsável por Amanda — uma dançarina aposentada devastada pelo câncer — a fé fervorosa de Maud inspira rapidamente uma convicção obsessiva de que ela deve salvar a alma da mulher da condenação eterna a qualquer custo.

Para além do simples jump scare, com laivos de folk horror

Desde “A Bruxa” (lá de 2015) que o público mais exigente a respeito de terror de atmosfera parte em busca de novas sensações no âmbito de um novo subgênero que fuja das convenções do jump scare, por exemplo: o “folk horror” (tradução literal para “terror rural”).

Nessa linha, temos outras produções, o clássico “O Homem de Palha” (1973, “The Wicker man”), “Midsommar - O Mal não Espera a Noite” (2019) e “Hereditário” (2018), ambos dirigidos por Ari Aster, “O Farol” (2020, de Robert Eggers), “O Ritual” (2017, dirigido por David Bruckner), entre outros.

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O que importa nessas produções é manter um clima de susto constante, por meio de uma atmosfera que aparentemente frustra o susto fácil, fato que garante um andamento rítmico diferente do horror convencional, de forma a manter a tensão do início ao fim.

Um terror psicológico, com sustos imprevisíveis que mantêm o suspense

Assim é Saint Maud. Para mim, um filme exemplar do subgênero horror de atmosfera e terror psicológico (com recursos do folk horror mencionado), mais enquadramentos sufocantes e angustiantes. Em suma, ao assisti-lo, ficamos pensando durante dias, sem saber que parte nos incomoda.

Toda atmosfera que envolve a sua narrativa retrata uma pessoa dividida, em que a fé delimita pouco claramente uma libertação e uma prisão, uma compreensão simples do destino divino, ao mesmo tempo em que a obriga ao confronto com os desejos da carne.

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A esses signos complexos, é acrescentado um terror psicológico e religioso que carrega uma imprevisibilidade absoluta da protagonista. Ora notamos seu controle pleno da situação, enquanto atua na função de enfermeira e cuidadora (uma espécie de máscara social), ora a vemos sair do controle, momento em que surge os confrontos da automutilação e dos desejos pelo sexo agressivo, sujo, intenso e assustador, acrescido de momentos de “body horror” e “face horror”, os quais nos fazem voltar à(a) cena para verificar se vimos aquilo ou não.

Em se tratando de terror, a diretora Rose Glass nos dá uma aula de tensão na montagem e na relação dos segmentos fílmicos, cuja antecipação lenta de um terror massivo esconde o local literal ou metafórico de onde o verdadeiro susto virá. Esperava bastante de "Santa Maud" e foi uma produção que não frustrou minhas expectativas.

Confira a crítica de Santa Maud também em vídeo:

Crítica do filme Festim Diabólico | Não basta ser bom, tem que se exibir!

Não há dúvidas que Alfred Hitchcock foi um dos cineastas mais talentosos de todos os tempos, algo que se prova a cada filme conceituado que vemos deste mestre do suspense. Entre suas dezenas de obras, o título “Festim Diabólico” ganhou projeção quando foi lançado lá na década de 1940, bem como foi uma película que só melhorou com o passar dos anos.

O longa-metragem que é talvez um dos filmes mais curtos de Hitchcock (com apenas 80 minutos de duração e já incluindo os créditos iniciais e finais) tem um enredo bastante simples. Todavia, não se deixe enganar, pois isso não significa absolutamente nada, dado que cada minuto da trama agrega muito ao desenrolar do mistério proposto.

Antes de considerações pontuais, vale uma pausa para falarmos sobre o nome deste projeto, que nada tem a ver com o título original da obra. Em inglês, o filme é apenas “Rope” (que significa “Corda”), mas as traduções aqui no Brasil sempre buscam ser um tanto sugestivas. Funciona bem se pensarmos no contexto e tem impacto maior do que apenas “Corda”, porém é um título ambíguo.

A tal festa pomposa, sugerida no título brasileiro, realmente existe no decorrer da história, porém o termo diabólico claramente tem uma conotação errônea aqui, uma vez que se trata de uma trama envolvendo um crime (obviamente, afinal estamos falando de Hitchcock). Agora, vem a questão: por que uma crítica do filme em pleno 2021?

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Bom, assim como comentei na crítica do filme Yojimbo, lançada recentemente aqui no site, há um serviço brasileiro que tem dado atenção especial aos cinéfilos que apreciam obras clássicas, seja do cinema japonês ou americano. Então, antes de falar do filme, confira a dica para você ver o filme de forma legal e acessível.

Como assistir Festim Diabólico Online?

Se você não é um cinéfilo dos mais viciados em Hitchcock, as chances são de que um ou outro filme dele tenha escapado de sua lista. É claro que “Festim Diabólico” não é a obra menos conhecida do autor, mas se você ainda não viu ou simplesmente quer revê-lo no conforto do sofá, vale conhecer o Belas Artes À LA CARTE.

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E, neste mês de junho, o À LA CARTE apresenta filmes para os mais saudosistas, incluindo “Festim Diabólico” e “Yojimbo, O Guarda-Costas”. Além disso, falando em obras mais recentes, a plataforma tem a estreia exclusiva de “Crime em Roubaix”, de Arnaud Desplechin. Então, fica essa dica!

Previsivelmente brilhante

A história de “Festim Diabólico” gira em torno do crime perfeito, mas não apenas um crime por ganância ou vingança, porém algo estrategicamente pensado pela simples demonstração de poder. Dois amigos — Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) — decidem matar um conhecido: David Kentley (Dick Hogan).

No entanto, eles estavam decididos a sentir a excitação do crime e de levar a emoção para um nível além ao organizar uma festa no local do ocorrido. Para piorar, eles chamaram o pai e a noiva da vítima. E para apimentar ainda mais a refeição requintada, eles também convidaram o professor de filosofia para o evento, alguém que é uma inspiração para eles.

O roteiro pode parecer mórbido e inusitado, mas mesmo sendo produzido lá em 1948, a trama teve inspiração em um crime real conhecido como “caso Leopold-Loeb”, que data lá de 1924, ocasião em que dois estudantes de Chicago comentaram o assassinato de um adolescente pelo simples desejo de cometer um crime perfeito.

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Um detalhe curioso é que, apesar de abordar um crime hediondo, “Festim Diabólico” não tem nada de extraordinário em sua trama. Partindo do ponto em que já sabemos qual é o crime, a vítima e os culpados, nos resta apenas entender como se dá essa ideia de poder que os protagonistas têm quanto ao tal do crime perfeito.

Assim, diferente de outros filmes de Hitchcock, aqui não temos algo a ser desvendado, mas há obviamente um fator surpresa e uma moral da história. No entanto, mesmo sendo um tanto previsível, o grande chamariz do filme é manter o espectador acompanhando os dois jovens tentando ocultar seu segredo frente aos convidados.

Um suspense com a corda toda!

Assim como em diversas obras de Alfred Hitchcock, temos um fator de simplicidade na execução do roteiro, não que o trabalho do cineasta tenha sido simples — longe disso —, porém toda a trama do filme se passa entre quatro cômodos de um apartamento: sala de estar, hall de entrada, sala de jantar e cozinha.

Justamente por esse cenário reduzido, toda a graça do filme está nos diálogos, que são extremamente polidos e cheios de nuances. Boa parte das frases tem um propósito, principalmente para subtramas traçadas ao longo da história. Contudo, temos um elemento inusitado aqui: um toque de humor.

Através de uma personagem inesperada, o filme consegue evitar um tom de mistério constante, o que dá um ar de maior tranquilidade para os protagonistas e para o público, que fica sem saber quando a “bomba vai explodir”. Eu não sei se isso é bom ou ruim, mas é algo diferente e que não atrapalha o desenvolvimento do roteiro.

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Por outro lado, temos um toque aguçado de investigação através do professor de filosofia Rupert Cadell, interpretado por James Stewart, que já é figurinha mais do que carimbada nos filmes de Hitchcock. Junto aos dois protagonistas, eles formam um trio bem peculiar que ficam num jogo oculto de dúvidas e suspeitas. Simplesmente perfeito para um filme desse tipo!

Por fim, temos um aspecto que faz toda a diferença: longas tomadas conectadas uma à outra que dão a intenção de estarmos vendo uma sequência perfeita do começo ao fim — pois é, bem antes de “1917” já existia “Festim Diabólico”. Cada tomada do filme durava cerca de 10 minutos, o que significa atuação impecável dos atores e um roteiro muito consistente.

Esse é o tipo de truque que somente alguém como Hitchcock ousava fazer e ele executa de uma forma muito orquestrada, com apenas duas ou três situações em que temos junções mais perceptíveis. É um filme que prende nossa atenção e que certamente figura entre os mais ousados do cineasta. Altamente recomendado!

Crítica do filme Yojimbo | O Melhor Faroeste de Samurai Pastelão

Há exatos cinquenta anos, portanto lá em 1961, o filme “Yojimbo, O Guarda-Costas” chegava às telonas dos cinemas do Japão. Levou quase dois anos para o filme chegar ao Brasil, mas seja do outro lado do mundo ou nas Américas, é inegável que este foi mais um sucesso do diretor Akira Kurosawa.

Para quem sequer havia nascido, ter conhecimento sobre esta obra-prima ou mesmo ter acesso ao filme pode ter levado muito mais tempo, ainda mais com a enorme dificuldade de encontrar filmes clássicos aqui no Brasil, isso tanto em mídia física ou quanto em serviços de streaming.

Digo isto com conhecimento de causa, pois eu gosto de obras desta temática e até agora eu não tinha visto este filme, já que toda vez que ele é regravado, as mídias custam caro e os estoques se esvaziam rapidamente. Além disso, é quase impossível achar este filme online. Assim, antes de falar do filme, vou dar a dica para você ver o filme de forma legal e acessível.

Como assistir Yojimbo online?

Quando falamos em streaming, há poucas distribuidoras que focam em títulos mais antigos e quase nenhuma consegue os direitos para transmissão online. A boa notícia é que agora há um jeito fácil e barato de ver “Yojimbo” e outros títulos clássicos e cults, seja do cinema japonês ou de outros países.

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Um Samurai malandrão

Em “Yojimbo”, acompanhamos a história de um ronin misterioso que chega a uma cidade dividida por duas gangues. Ali, ele percebe uma oportunidade de conseguir um bom trocado ao oferecer seus serviços como guarda-costas para os criminosos, mas por trás dessa astúcia pode haver segundas intenções.

Akira Kurosawa ficou muito conhecido por fugir do óbvio, sendo que sua história e direção de “Yojimbo, O Guarda-Costas” compravam que este era um princípio básico de sua visão visionária. No lugar do tradicional Samurai em um enredo linear, este mestre do cinema japonês preferia uma abordagem mais ampla, vendo os diferentes caminhos que um samurai podia seguir em sua jornada.

E o detalhe é que não se trata de apenas optar por falar de um samurai ou de um ronin (que é o samurai que não segue o bushido, o código samurai), mas de pegar um personagem desses e derivar em algo completamente diferente. Assim, o que temos não é um enredo superficial, mas um conto que leva a uma moral muito perspicaz.

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O simples fato de incluir um estrangeiro num conflito de gangues já dá muita margem para uma história excelente, porém o desenvolvimento do ronin com habilidades extraordinárias e ainda mais com um toque de malandragem garante uma conexão bem mais atenciosa com o personagem.

Cada vez que Sanjuro Kuwabatake (Toshirô Mifune) aparece em tela, temos a sensação de estar diante de um espadachim que sempre tem inúmeras intenções em cada frase de seu diálogo, algo que é comprovado no desenrolar do roteiro. Ainda que não seja imbatível em campo, ele é claramente superior aos inimigos por seu senso moral aguçado.

Aqui, vale pontuar como a atuação de Toshirô Mifune (de "Os Sete Samurais") é de suma importância para o sucesso da película, pois é o jeito ímpar do ator em incorporar esse ronin que deixa o filme ainda mais primoroso. Mifune vai do samurai pensativo ao habilidoso espadachim em segundos e, na sequência, já temos um ronin gargalhando das situações cômicas.

Flertando com outros gêneros

Eis aqui inclusive um ponto que faz de “Yojimbo, O Guarda-Costas” um filme único: a transição de gêneros. Apesar de ser uma obra sumariamente focada na ação, é visível como o filme atenua os dramas corriqueiros da época — não temos uma precisão da data, mas certamente já é algo depois de 1836, uma vez que temos um personagem com revólver.

E falando em armas, temos então um flerte inusitado: o faroeste. Kurosawa foi influenciado por títulos como "Matar ou Morrer" (1952) e "Os Brutos Também Amam" (1953). E aí, fica a questão: como pode um filme de Samurai também ter algo de faroeste? Bom, a verdade é que há muita coisa em comum quando pensamos nos duelos: intensos, pausados e sanguinolentos.

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No entanto, a abordagem de Akira Kurosawa vai bem além disso, justamente por ter a presença da arma de fogo. O casamento entre filme de samurai e cenas de pistoleiro não é algo apenas pontual aqui, pois Kurosawa faz um filme focado nos confrontos de campo aberto, o que garante longas cenas de diálogo até que a ação realmente exploda na tela.

Além dessa dualidade de gêneros na concepção do filme, fica claro que Kurosawa tenta inovar ao trazer um personagem mais cômico para sua obra. Apesar do teor violento, o samurai que observa seu jogo de intrigas dá boas risadas, de modo que algumas cenas têm um humor mais pastelão.

Importante notar como tudo isso é conduzido com maestria através de um elemento-chave: a trilha sonora de Masaru Sato, que abusa dos instrumentos de corda e dos tons mais pesados para as batalhas intensas, mas que usa de instrumentos mais agudos e alegres em boa parte das cenas engraçadas. O mais interessante é que o compositor fez todo esse trabalho de som em apenas uma semana!

Por fim, mas não menos relevante, temos o fato de que “Yojimbo, O Guarda-Costas” concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Figurino, o qual foi desenvolvido por Yoshirô Muraki. E é nessa colcha de retalhes e nas ideias geniais que esta obra ganhou extrema relevância. Trata-se de um filme que não envelheceu, pelo simples fato de que ele nasceu para ser um clássico. Altamente recomendado para fãs do cinema japonês ou para quem gosta de um filme clássico!

Crítica do filme Liga da Justiça de Zack Snyder | Vale a pena ver a nova versão?

Alguns universos marcaram o cinema ao longo da última década. É o caso dos títulos que compõem as franquias entrelaçadas de heróis da Marvel e das sagas um tanto desconexas da DC. Cada uma com seu estilo de abordagem e produção, ambas conquistaram seus respectivos fãs, mas é inegável que a Marvel obteve maior êxito (falando principalmente de retorno financeiro e de recepção do público) ao fazer uma linha costurada entre seus títulos.

Por se tratar de um segmento midiático que não tem regras, a DC seguiu um caminho muito diferente, que visava manter cada herói em sua respectiva bolha. Isso funcionou muito bem ao manter filmes do Batman separadamente (empreitada iniciada lá em 2005 com “Batman Begins”), os quais certamente ganharam prestígio antes mesmo de a Marvel começar a sua construção de um universo compartilhado com o primeiro filme do “Homem de Ferro”.

O ponto é que uma estratégia cinematográfica não dura para sempre, sendo que a DC levou um bom tempo para entender a importância de interligar os filmes e jogar o jogo da concorrente, que aos poucos foi conquistando o público e forçando os fãs a assistirem vários filmes para ter uma base do universo mais amplo. Tudo isso garantiu que a Marvel culminasse sua jornada nos Vingadores, enquanto a DC ainda patinava para entender que o público já não queria filmes solos dos personagens (ou se queria, não queria da forma como eles fizeram).

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Após muito insistir em filmes separados e em decisões muito controversas (alô “Batman vs Superman”), a DC finalmente entendeu que a bagunça deveria acabar e um filme da Liga da Justiça seria necessário para mostrar ao mundo que ela também tinha seu time de Vingadores para o cinema. O único problema: a DC não formou uma base sólida (e coerente) de filmes que pudessem dar uma base de enredo ou mesmo de personagens para chegar no filme da Liga. Todavia, eles lançaram o filme mesmo assim.

O pior: o projeto que originalmente era de Zack Snyder foi transferido para Joss Whedon (que anteriormente trabalhava para os estúdios Marvel). A mudança repentina foi porque Snyder se afastou do projeto quando sofreu uma perda em sua família, de modo que os estúdios Warner optaram pela substituição do diretor, que foi ninguém menos do que Whedon, certamente um cineasta competente, mas que decidiu modificar o filme para ficar com sua cara, sendo que ele até modificou o roteiro e optou por refazer várias cenas.

Moral da história: o filme Liga da Justiça que chegou originalmente em 2017 aos cinemas não era nem de longe a visão de Zack Snyder, mas sim uma colcha de retalhes meia-boca, que, graças a ideia brilhante do estúdio em apressar o projeto e contratar um diretor de uma empresa concorrente (até agora ninguém entendeu isso), desagradou críticos e fãs.

Após a repercussão negativa, em que o primeiro Liga da Justiça amargou 40% de aprovação da crítica especializada no site Rotten Tomatoes e nota 6,2 pela audiência no IMDb, todos pensavam que a Warner deixaria o projeto de lado e seguiria a vida. Vez ou outra, algum site soltava rumor de que Zack Snyder faria sua própria versão do filme, uma vez que havia muito material de reserva que não entrou no corte de Whedon. Boato vai e boato vem, finalmente saiu a informação de que o filme existia.

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Assim, chegamos no lançamento de “Liga da Justiça de Zack Snyder”, que como o nome sugere é a versão que traz a visão ampla do criador original do filme. A obra reeditada por Zack Snyder tem mais de 120 minutos de cenas novas (sendo que o filme de 2017 tinha apenas 120 minutos, logo temos aproximadamente 4 horas de duração nesta nova versão). Isso sem contar novos efeitos especiais, novos personagens, formato de tela diferente e nova trilha sonora, culminando assim em um projeto bem mais completo e até muito diferente (apesar de trazer uma história similar).

Vale a pena ver a Liga da Justiça de Zack Snyder?

A questão que fica: vale a pena assistir à Liga da Justiça de Zack Snyder? Os conteúdos novos e a reedição justificam investir quase 4 horas de vida em frente à televisão?

Como quase tudo na vida, ainda mais considerando gostos pessoais com relação a filmes, a resposta para essa pergunta é: depende!

Basicamente, se você gosta de filmes de ação, de obras baseadas em histórias em quadrinhos ou se você for um fã do universo DC, muito provavelmente a nova versão da Liga da Justiça vai te surpreender positivamente. Isso porque, além de quase 2 horas de filme adicionais, há um novo tratamento de cor que deixa o filme mais sombrio, como sempre foi o universo DC nos cinemas. Talvez a coisa mais esquisita é o formato da película mais quadrado, que quase parece um filme para Instagram.

No entanto, se você não gosta de filmes do gênero ou se você é fã exclusivamente de obras da Marvel, então este longa-metragem (e bota longa nisso) vai parecer mais do mesmo, porém com um tempo de projeção alongado. Neste caso, às vezes, é melhor poupar seu tempo.

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Sem dar spoilers, a verdade é que a nova versão da Liga continua tendo diversos problemas com relação ao roteiro, até porque é impossível reparar todos os erros sem refazer o projeto completamente e, considerando que a Warner não toparia refazer o filme inteiro, o que temos é um remendo que tenta melhorar a narração da história e fazer tudo ter um pouco mais de sentido.

Só que não tem como uma segunda edição (mesmo com cenas extras) fazer milagres, porque o principal fator que limita este filme é a falta de material de background, ou seja, sem filmes dedicados do Flash e do Ciborgue, por exemplo, cabe ao filme da Liga incorporar algumas cenas que nos ajudem a compreender quem são os personagens e como eles se encaixam no contexto do grupo. Zack Snyder pensou nesse detalhe, mas o que temos aqui são pequenos enxertos, que dão uma pincelada nos personagens.

Com poucos minutos dedicados a cada personagem, é inevitável que o filme não consiga concluir a missão de garantir que o público se apegue aos heróis, já que são tantas histórias e poucas linhas de diálogo para cada uma, às vezes fica difícil ter empatia por um por outro, como é o caso do Ciborgue que, a meu ver, mais cria um peso dramático sem grande emoção, deixando o filme cansativo. Por outro lado, o alívio cômico mais exagerado no arco do Flash e algumas surpresas bem relevantes fazem o filme ganhar forças e até se aproximar muito do que deveria ser um filme de quadrinhos mesmo, com cenas inusitadas e impactantes.

Apesar de muitos acertos e algumas adições bem importantes, vale pontuar que ainda tem coisas que ficam soltas no filme (ou são conectadas apenas de forma superficial), inclusive, como exemplo, temos a introdução de personagens que poderiam mudar completamente o rumo do roteiro. No entanto, novamente Snyder cai no problema: sem poder refazer a obra por inteira, algumas cenas não fazem tanto sentido, mas ao menos elas ajudam a expandir o conceito do que poderia ser a Liga da Justiça se fosse pensada com cautela desde o começo.

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E aqui a culpa é do estúdio, que sempre fez tudo na pressa e sem refletir como alguns filmes causariam impacto no futuro do universo DC. E, aliás, eles continuam fazendo, né? Temos aí vários exemplos de séries televisivas (como “Batwoman”) e também de filmes para o cinema (como o “Esquadrão Suicida”) que podem até dar retorno de audiência, mas não necessariamente de receptividade. Mas voltando ao tópico da Liga, ao menos nesse ponto a Warner/DC acertou em deixar Snyder fazer seu corte do filme.

E vale o recado para quem pensa que o filme é muito longo: a nova versão da Liga é dividida em várias partes, já que o projeto foi pensando para exibição em capítulos no serviço de streaming HBO MAX, ou seja, se você não quiser assistir tudo numa única sessão, pode fazer pausas sem perder o sentido da história. Além disso, com as novas cenas, nova edição e a trilha inédita, o filme ganhou um novo fôlego e passa rápido, pois a ação prende nossa atenção e faz a gente mergulhar muito na pancadaria.

Por fim, mas não menos importante, é muito legal o filme ter essa nova versão com um epílogo, que mesmo não sendo um gancho para uma continuação concreta, mostra que havia a intenção e boas ideias para ampliar o universo DC, criando uma versão cinematográfica do que antes a gente amava na animação televisiva da Liga da Justiça Sem limites.

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Mesmo sem contar uma nova história, a “Liga da Justiça de Zack Snyder” consegue entreter e superar facilmente seu antecessor (até porque não era difícil, né?), sendo então uma boa pedida para os fãs dos personagens DC. Resta saber se o que a Warner vai fazer após o sucesso do filme (que tem aprovação de 71% da crítica e 95% do público no Rotten Tomatoes), pois já sabemos que tem novos filmes do “Batman”, do “Adão Negro” e de outros personagens vindo aí, mas com a mudança de atores e sem a unificação, o estúdio continua no problema que vem patinando há anos.