Crítica do filme Pânico 7 | A facada 🔪 final na franquia? A máscara caiu e a criatividade também!

Quando um novo assassino Ghostface surge na pacata cidade onde Sidney Prescott (Neve Campbell) construiu uma nova vida, seus piores medos se concretizam quando sua filha, Tatum (Isabel May), se torna o próximo alvo. Determinada a proteger sua família, Sidney precisa enfrentar os horrores do seu passado para pôr um fim ao derramamento de sangue de uma vez por todas.

A sinopse de Pânico 7 evidencia: temos aqui mais do mesmo, mas, para falar a verdade, a franquia Pânico sempre viveu de ciclos. Reinvenção, desgaste, meta-linguagem, revitalização. Depois de um hiato após Pânico 4, a saga surpreendeu ao encontrar novo fôlego em Pânico 5 e Pânico 6, que, de certa forma, atualizaram a fórmula sem abandonar a essência criada por Kevin Williamson lá atrás.

Mas toda franquia de terror chega a um ponto crítico: continuar expandindo o universo ou saber a hora de parar? A ausência de Sidney em Pânico 6 parecia abrir espaço para um novo começo, mas Williamson não quis desistir de sua personagem principal que completa 30 anos nas telonas! O retorno definitivo de Sidney Prescott parecia uma oportunidade de ouro para encerrar o ciclo com ousadia — ou iniciar uma nova geração de protagonistas com coragem narrativa.

A grande pergunta que paira sobre Pânico 7 é inevitável: estamos diante de um capítulo audacioso… ou apenas mais uma repetição confortável daquilo que já vimos por três décadas?

🔪 Pânico 7 vale a pena?

Como entretenimento pipoca, funciona. Tem tensão, boas cenas de perseguição e alguns momentos dignos de Ghostface. Mas, como peça de franquia e evolução narrativa, é decepcionante. Falta coragem, sobra conveniência e o final compromete toda a trajetória construída até ali. Claramente é um terror Slasher que perdeu o fio da lâmina!

Um roteiro que tropeça na própria máscara

O filme começa com uma ideia curiosa e até plausível no mundo real: a exploração comercial do fascínio por serial killers, transformando espaços ligados a crimes em experiências “premium”. É um conceito interessante, contemporâneo e com potencial metalinguístico — não vou entrar em spoilers aqui, mas fato é que o começo empolga.

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Ao longo da narrativa, percebemos que Guy Busick (que já fez outros roteiros da franquia) e Kevin Williamson (que foi o roteirista do primeiro filme e de outros da saga) tiveram algumas sacada inteligentes e que se conectam com o público mais jovem, principalmente no que tange às questões do uso de tecnologia.

As atualizações envolvendo tecnologia e inteligência artificial trazem um verniz moderno à narrativa. São ideias interessantes, mas tratadas de forma superficial, quase como adereços. Nada realmente impactante ou transformador. Mesmo que algumas dessas sacadas sejam pontos-chave para o enredo fraco, o resultado do filme soa inseguro, como se não soubesse qual legado quer preservar ou destruir: quer realmente brincar com novidades ou seguir o velho estilo?

O problema é que essa boa premissa não evolui. A narrativa rapidamente escorrega para conveniências exageradas e decisões absurdas que desafiam qualquer lógica interna. Alguns personagens ultrapassam limites físicos e psicológicos de forma quase caricata, minando a tensão que deveria sustentar o suspense.

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As tradicionais correrias e “patetadas” do Ghostface continuam — e isso faz parte da identidade da franquia. O exagero sempre esteve ali e não era de se esperar que isso tivesse alterações. Mas aqui ele deixa de ser charme e vira muleta. Em vez de usar o absurdo como crítica ao gênero, o filme apenas repete fórmulas.

Entre facadas e fadiga, Pânico 7 prova que a franquia está esgotada e não sabe como se reinventar...

O maior pecado, porém, está no desfecho. O terceiro ato não apenas falha em surpreender — ele invalida boa parte do que veio antes. Não há ousadia, não há subversão real, não há encerramento digno. Fica confuso, sem um embasamento real e simplesmente alonga uma narrativa fraca que deixa o público cansado com mais do mesmo. Para um capítulo que poderia redefinir o futuro da saga, a sensação é de roteiro perdido.

Tecnicamente eficiente, criativamente acomodado

Em termos de direção, o trabalho de Kevin Williamson é competente. As cenas de ataque são bem construídas, há tensão visual em momentos específicos e o Ghostface continua sendo uma presença ameaçadora em tela. A brutalidade tem criatividade pontual.

A fotografia e os cenários funcionam bem, com algumas boas escolhas de ambientação que ajudam a criar atmosfera (a cena do teatro, por exemplo, tem sua criatividade). Contudo, a balança pende para os dois lados, com algumas cenas da cidade que parecem saídas de um filme da Hallmark (sabe aquelas cidades felizes com todo mundo perfeito?). Enfim, o filme não é mal executado — ele apenas é previsível demais.

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As atuações são razoáveis. Neve Campbell e Courteney Cox entregam o que se espera de duas atrizes que já marcaram presença por décadas na franquia, mas suas personagens já não apresentam novas camadas - muito pelo contrário: já deu a hora da aposentadoria faz tempo! A filha de Sidney e os novos nomes do elenco não conseguem sustentar o peso de uma possível nova geração. Falta carisma, falta risco, falta energia.

Enfim, Pânico 7 não é um desastre completo — mas também está longe de justificar sua própria existência. Diverte, entrega sangue, sustos e nostalgia. Porém, falha onde mais importava: renovar ou encerrar com impacto. Talvez seja a hora de a franquia decidir se quer realmente dar a facada final… ou continuar sobrevivendo no piloto automático.

Crítica do filme Marty Supreme | Muito mais que um filme de ping-pong: um espetáculo sobre ambição e caos!

À primeira vista, Marty Supreme pode até parecer apenas mais um filme esportivo improvável, centrado em um esporte inusitado e em um protagonista excêntrico. E, na verdade, é até bom ir para o cinema com essa expectativa, porque a chance de surpresa é muito maior!

Mas basta alguns minutos para ficar claro que Josh Safdie está interessado em algo muito maior do que partidas de ping-pong. O filme acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem obcecado por reconhecimento, disposto a fazer qualquer coisa para ser levado a sério em um mundo que insiste em ignorá-lo.

martysupreme08 597c0Fonte: Divulgação/A24

Inspirado livremente na história real de Marty Reisman, um lendário jogador de tênis de mesa conhecido tanto por seu talento quanto por seus esquemas pouco ortodoxos, o longa mistura fatos, exageros e muita ficção. E isso não é um problema — pelo contrário. Desde o início, o filme deixa claro que não busca fidelidade histórica, mas sim capturar o espírito de um personagem movido por ambição, ego e uma necessidade quase desesperada de ascensão social.

Josh Safdie, aqui em mais um projeto solo, reforça seu estilo energético, caótico e nada confortável. Mesmo cercado por polêmicas recentes fora das telas, nada disso diminui o impacto do trabalho apresentado em Marty Supreme. O diretor entrega um filme pulsante, inquieto e cheio de personalidade, que nunca pede desculpas por seus excessos.

martysupreme01 fa181Fonte: Divulgação/A24

Escrito em parceria com Ronald Bronstein, o roteiro encontra um equilíbrio raro entre ação, drama e comédia. É um filme que sabe ser engraçado sem perder peso emocional, intenso sem se tornar cansativo e ousado sem perder o controle — uma combinação que sustenta quase duas horas e meia com surpreendente facilidade.

Marty Supreme vale a pena?

Marty Supreme é um filme eletrizante, divertido e provocador, que funciona tanto como espetáculo quanto como estudo de personagem. Mesmo quem não vê graça nenhuma em ping-pong encontra aqui uma história envolvente, cheia de reviravoltas, sustentada por uma atuação poderosa de Timothée Chalamet e por uma direção que transforma ambição em puro cinema.

Um jogo de ambição, ego e sobrevivência

O grande acerto de Marty Supreme está em fugir completamente da estrutura clássica do “filme de superação”. Marty Mauser não é um herói inspirador, disciplinado ou moralmente exemplar. Pelo contrário: ele é um trambiqueiro carismático, impulsivo e muitas vezes difícil de defender. E é justamente isso que torna o filme tão interessante.

O roteiro aposta em um tom cômico elevado, com situações absurdas, humor físico e diálogos afiados, que surgem muitas vezes em meio a momentos tensos ou até chocantes. As risadas não aliviam o drama — elas o intensificam. Cada escolha errada de Marty empurra a história para um lugar ainda mais imprevisível.

martysupreme04 ed39dFonte: Divulgação/A24

Mesmo com uma duração longa, o filme se organiza muito bem em blocos narrativos, quase como capítulos. Isso faz com que o ritmo se mantenha sempre acelerado, ainda que alguns arcos paralelos possam parecer excessivos para parte do público. Safdie prefere arriscar e abraçar tudo, em vez de simplificar — uma decisão ousada, coerente com o próprio protagonista.

No centro de tudo está Timothée Chalamet, em uma de suas performances mais intensas. Ele encarna Marty com arrogância, charme, desespero e vulnerabilidade, deixando claro o vazio emocional por trás da busca incessante por reconhecimento. É uma atuação que arranca risadas, provoca desconforto e, em alguns momentos, chega a emocionar.

Um espetáculo visual tão caótico quanto seu protagonista

Josh Safdie imprime ao filme um ritmo frenético do início ao fim. A câmera raramente fica parada, circulando personagens e ambientes com uma energia constante, especialmente durante as partidas de ping-pong. Os enquadramentos fechados, os movimentos rápidos e a edição precisa fazem o espectador sentir a tensão de cada jogada.

A montagem é fundamental para manter o impacto do filme. Mesmo nas cenas mais calmas, há sempre uma sensação de urgência, como se tudo pudesse sair do controle a qualquer momento. Safdie sabe exatamente quando acelerar e quando deixar o silêncio falar.

martysupreme06 a8c78Fonte: Divulgação/A24

Além do trabalho impressionante de Timothée Chalamet, Marty Supreme conta com um elenco coadjuvante afiado e bem escalado, que ajuda a sustentar o ritmo intenso da narrativa. Gwyneth Paltrow e Kevin O’Leary surgem em papéis pontuais, mas marcantes, trazendo camadas adicionais de ironia e tensão à trajetória do protagonista. Tyler, The Creator também aparece de forma carismática, contribuindo para o tom excêntrico e imprevisível do universo criado por Josh Safdie.

O grande destaque fora de Chalamet, no entanto, fica por conta de Odessa A'zion, que interpreta Rachel. Sua personagem funciona como um contraponto emocional essencial para Marty, trazendo densidade dramática e humanidade a uma história repleta de excessos e impulsos egoístas. Odessa entrega uma atuação intensa, sensível e cheia de presença, sendo responsável por algumas das viradas mais impactantes do filme. É uma performance que certamente chama atenção e reforça seu nome como uma atriz a se acompanhar de perto.

martysupreme10 4a1a1Fonte: Divulgação/A24

A trilha sonora também tem papel essencial nessa experiência. Além da trilha original de Daniel Lopatin, marcada por sintetizadores, repetições hipnóticas e um clima quase extraterrestre — que, por vezes, lembram grandes músicos como Vangelis —, o filme se aproveita de diversas músicas conhecidas que ajudam a criar familiaridade e impacto emocional, o que impulsiona bastante o ritmo caótico e anima a plateia.

Visualmente, Marty Supreme impressiona pela variedade de cenários e pela ambientação cuidadosa. A fotografia é especialmente exigida em cenas noturnas e nos jogos, com controle preciso de luz e sombra. É um filme tecnicamente refinado, que nunca parece repetitivo, mesmo sendo tão intenso.

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Marty Supreme é um filme vibrante, ousado e cheio de contradições — assim como seu protagonista. Josh Safdie transforma uma história improvável em uma experiência cinematográfica intensa, sustentada por uma atuação extraordinária de Timothée Chalamet e por uma direção que não teme o excesso. Pode não agradar a todos, mas certamente é daqueles filmes que não passam despercebidos e ficam na cabeça muito depois dos créditos finais.

Músicas do filme Marty Supreme

  • Tears For Fears – ‘Change’
  • Alphaville – ‘Forever Young’
  • Peter Gabriel – ‘I Have The Touch’
  • The Korgis – ‘Everybody’s Got To Learn Sometime’
  • Les Paul – ‘How High The Moon’
  • Perry Como – ‘Don’t Let The Stars Get In Your Eyes’
  • Fats Domino – ‘The Fat Man’
  • Public Image Ltd. – ‘The Order Of Death’
  • New Order – ‘The Perfect Kiss’
  • Alex North – ‘Belle Reve’
  • Paul Sikivie – ‘Rile’s Wiles’
  • Tears For Fears – ‘Everybody Wants To Rule The World’

Crítica do filme Família de Aluguel | Um abraço cinematográfico sobre conexões humanas em tempos de isolamento

Em Família de Aluguel (Rental Family), acompanhamos Phillip Vanderploeg (Brendan Fraser), um ator americano vivendo em Tóquio, o qual atravessa uma fase de vazio existencial e dificuldades profissionais. Sua vida muda quando ele aceita trabalhar para uma curiosa agência japonesa que “aluga” familiares e amigos para preencher lacunas emocionais em eventos como casamentos, funerais, encontros escolares ou simples momentos de convivência. O que começa como uma atuação passageira logo se transforma em algo muito mais profundo.

Este é o segundo longa-metragem da diretora Hikari, que já demonstra aqui uma sensibilidade rara ao observar a solidão contemporânea sem julgamentos. Seu olhar delicado transforma situações potencialmente absurdas em retratos humanos cheios de empatia, explorando com cuidado as fronteiras entre afeto genuíno e relações transacionais.

O roteiro, assinado por Hikari em parceria com Stephen Blahut, equilibra com inteligência o choque cultural entre Oriente e Ocidente. A narrativa usa o estranhamento do protagonista como ferramenta dramática, permitindo que o público observe, junto com ele, as nuances da cultura japonesa e suas formas muito particulares de lidar com ausência, luto, expectativas sociais e pertencimento.

familiadealuguel01 732f5Fonte: Divulgação/Searchlight Pictures

Sem pressa, o filme constrói um mosaico de pequenas histórias que orbitam Phillip, revelando como a necessidade de conexão humana é universal. Mesmo ancorado em especificidades culturais do Japão, Família de Aluguel dialoga com um sentimento global: a dificuldade crescente de lidar com relações reais em um mundo cada vez mais solitário.

Família de Aluguel vale a pena?

Sim, Família de Aluguel vale muito a pena. Trata-se de uma comédia dramática sensível, acolhedora e emocionalmente honesta, que não tenta reinventar o cinema, mas encontra sua força justamente na simplicidade. É um filme que abraça o espectador, provoca reflexões profundas sobre empatia e conexão humana e entrega uma das performances mais calorosas da carreira de Brendan Fraser.

Entre a encenação e o afeto

A premissa do filme é brilhante ao propor um serviço que substitui relações humanas reais por vínculos artificiais. Em vez de enfrentar dores mal resolvidas ou buscar ajuda terapêutica, os personagens optam por criar fantasias emocionalmente confortáveis. Essa escolha funciona como uma poderosa metáfora para problemas contemporâneos: a dificuldade de lidar com frustrações, perdas e afetos genuínos.

O choque cultural entre americanos e japoneses é essencial para o funcionamento da narrativa. As diferenças de comportamento, comunicação e expectativas tornam muitas situações ainda mais desconcertantes — e, por vezes, engraçadas. O filme se apoia nesse contraste para ampliar o estranhamento do protagonista e, ao mesmo tempo, enriquecer o olhar do público.

familiadealuguel02 1c301Fonte: Divulgação/Searchlight Pictures

Apesar da premissa incomum, Família de Aluguel é um filme simples em sua estrutura. Ele não busca grandes reviravoltas constantes nem discursos grandiosos. Situações cotidianas como funerais, casamentos, entrevistas escolares e passeios ganham peso emocional justamente pelo cuidado com os detalhes e pelo absurdo silencioso de algumas encenações.

O equilíbrio entre drama e humor é um dos grandes trunfos do filme. Histórias potencialmente pesadas — como uma criança sem pai, um idoso perdendo a memória ou uma mulher lidando com a infidelidade — são tratadas com delicadeza, permitindo momentos de riso que surgem naturalmente do constrangimento e da estranheza das situações.

Beleza, precisão e humanidade a serviço da emoção

Visualmente, Família de Aluguel é um filme belíssimo. A fotografia valoriza o Japão em suas múltiplas camadas: a natureza que resiste em meio à selva de concreto, os pequenos ambientes cuidadosamente organizados e uma paleta de cores que transmite calma e acolhimento. Cada cenário contribui para o estado emocional da narrativa.

A direção de Hikari é intimista e precisa. Muitas cenas passam a sensação de que o espectador está presente nos diálogos, como um observador silencioso. Os enquadramentos são pensados para destacar gestos, olhares e silêncios, reforçando a proximidade emocional entre personagens e público.

familiadealuguel03 67ccdFonte: Divulgação/Searchlight Pictures

A trilha sonora merece destaque especial. Com um ritmo calmo e instrumentos suaves, ela não apenas acompanha as cenas, mas atua como parte fundamental do storytelling. A música amplia emoções, reforça a atmosfera acolhedora e lembra constantemente que, apesar das dores, a vida ainda guarda beleza.

No centro de tudo está Brendan Fraser, em uma atuação magistral. Após o impacto de A Baleia, o ator entrega aqui um personagem mais contido, vulnerável e profundamente humano. Seus olhares, silêncios e gestos carregam uma ternura rara. Fraser funciona como uma verdadeira bússola emocional do filme, conectando todas as histórias ao redor de Phillip.

Uma premissa simples para discutir dores profundas do mundo contemporâneo

Família de Aluguel é uma comédia dramática delicada, sensível e profundamente humana. Sem apelar para o melodrama excessivo, o filme propõe reflexões importantes sobre responsabilidade afetiva, pertencimento e a necessidade de conexão em um mundo cada vez mais isolado. É uma experiência acolhedora, que emociona de forma sincera e deixa o público com vontade de se reconectar — consigo mesmo e com os outros.

Crítica Terror em Shelby Oaks | Um filme de terror independente irregular, mas intenso e assustador

Terror em Shelby Oaks” nasceu de um jeito que já chama atenção: uma campanha no Kickstarter que mobilizou mais de 14 mil apoiadores. É aquele tipo de caso que faz a gente perceber como o terror independente está mais vivo do que nunca e, às vezes, mais corajoso do que muito blockbuster.

Na história, acompanhamos Mia, que não consegue superar o desaparecimento da irmã, Riley, uma youtuber especializada em investigar o paranormal. Quando uma fita misteriosa surge com indícios de que Riley pode estar viva, Mia mergulha de cabeça em uma busca desesperada que mistura dor, paranoia e aquela sensação de que algo na escuridão está observando.

O filme marca a estreia de Chris Stuckmann como diretor e roteirista de longas. Apesar de ser novato, adianto que ele mostrou sua capacidade já no primeiro projeto. Parte do bom resultado pode ser também por conta da ajuda de Mike Flanagan (diretor de séries como A Maldição da Residência Hill, A Maldição da Mansão Bly, A Queda da Casa de Usher, bem como do filme Doutor Sono e outros de terror). Flanagan assume aqui como produtor executivo e deu toques importantes no caminho, ajudando a intensificar cenas e refinar decisões de edição.

terroremshelbyoaks03 b07feFonte: Divulgação/Diamond Films

E aí surge a pergunta que paira sobre o público desde o anúncio do filme: será que esta é a reinvenção do terror found footage? Ou será que estamos diante de mais um daqueles projetos repletos de câmeras tremidas, com pouca ousadia e que terminam com criaturas jogadas na tela? Vamos falar sobre isso!

Terror em Shelby Oaks vale a pena?

Sim, talvez com algumas ressalvas, mas vale. “Terror em Shelby Oaks” começa irregular e até cansativo, mas quando engrena, entrega um terror atmosférico, tenso e surpreendentemente ousado. Não reinventa o gênero, não acerta sempre, mas tem identidade, tem coragem e tem momentos realmente marcantes. É aquele tipo de filme que cresce com o tempo e recompensa quem fica até o final.

Entre fitas perdidas e segredos enterrados

O filme se estrutura em fases — e não, ele não escolhe um formato para chamar de seu. Primeiro, temos o found footage clássico, depois um falso documentário, até finalmente cair no estilo tradicional de terror. Parece bagunçado? Um pouco. Mas funciona melhor do que deveria. Achei chato que, nas duas primeiras fases, o roteiro insiste um pouco demais no “Paranoid Paranormals” (nome do grupo de YouTubers que desapareceu), repetido isso como se fosse palavra do dia.

A introdução é o trecho mais fraco: longa, repetitiva, com ritmo quebrado. Mas depois que a trama engrena, o projeto ganha força na maneira como constrói tensão. Não há chuva de jump scares baratos; em vez disso, o terror é sólido, baseado em atmosfera, violência brusca ocasional e algumas cenas bem ousadas. O clímax, especialmente, é quando “Terror em Shelby Oaks” realmente mostra do que é capaz.

terroremshelbyoaks01 50180Fonte: Divulgação/Diamond Films

Camille Sullivan interpreta Mia, que é o coração emocional do filme e também praticamente a estrutura do projeto, já que é a única protagonista e há poucos coadjuvantes. Sua busca é turbulenta, cheia de escolhas impulsivas e algumas incoerências típicas do gênero, mas é justamente isso que mantém a história viva e imprevisível.

Realmente, um trabalho fantástico de atuação de Sullivan ao fazer um equilíbrio de pratos, já que ela é responsável por praticamente todas as emoções do filme. Ótima atuação, convincente, impactante e, por vezes, até perturbadora. Os demais nomes do elenco fazem um bom trabalho, mas por fazerem pequenos trechos, acabam não brilhando muito.

Da câmera tremida ao horror cinematográfico

A variação entre câmeras tremidas, câmeras fixas e fotografia cinematográfica tradicional poderia ser um problema, mas aqui se encaixa melhor do que o esperado. Primeiro, é bom pontuar que ainda que não seja meu estilo favorito, é inegável que dá muito trabalho construir uma narrativa com "found footage", tanto na captação quando para o time de edição. O trabalho é bem feito nesse quesito, mas por preferência própria, eu acabo preferindo o estilo mais tradicional de terror.

terroremshelbyoaks02 8e6d4Fonte: Divulgação/Diamond Films

De qualquer forma, há coerência suficiente para evitar o caos visual, sendo que após engrenar no estilo mais comum de filme, o longa-metragem prende nossa tensão facilmente e graças ao bom trabalho de fotografia e direção de arte. Graças a esse bom trabalho, a cidade abandonada, as investigações, os mitos e o universo ficcional se tornam super interessantes e têm potencial de expansão — mesmo que não saibamos se haverá espaço para isso.

Tecnicamente, “Terror em Shelby Oaks” impressiona. Um dos elementos fundamentais para um filme assim funcionar é justamente criar ambientes perfeitos para o terror se esconder nas penumbras. Aqui, temos luzes pontuais que criam um clima inquietante e cenários que parecem respirar junto da protagonista. Algumas escolhas visuais realmente chamam atenção, especialmente nas sequências mais tensas.

A trilha sonora segue uma linha segura: nada muito inovador, mas extremamente funcional. O filme não tenta nos forçar sustos com sons estridentes, o que já é um alívio. É tudo bem equilibrado, reforçando a atmosfera sem brigar por protagonismo. Importante ressaltar que nem sempre musicalidade é a melhor proposta. Nas cenas de extremo silêncio, por exemplo, temos a melhor trilha sonora: a tensão evidente na respiração da protagonista, que demonstra o pavor do desconhecido.

terroremshelbyoaks04 80f0aFonte: Divulgação/Diamond Films

A direção de arte também merece aplausos. Os cenários abandonados, as sombras projetadas, o uso de pequenos elementos em meio à escuridão para induzir ao medo do oculto e até a criatividade na condução do roteiro por meio de ambientes pouco comuns mostram que o projeto teve excelente êxito em sua concepção e execução. É aquele tipo de terror que não tem medo de mostrar e, quando mostra, faz direito.

Enfim, “Terror em Shelby Oaks” é um filme de terror que está longe de ser perfeito por não ter uma constância em seu estilo, mas que, mesmo em meio aos tropeços, consegue encontrar um espaço para inovar e nos deixar apreensivos na cadeira do cinema — resta torcer para que não haja gente sem noção conversando e usando o celular durante a projeção. Minha recomendação: veja e descubra o mistério por si próprio, a probabilidade de se surpreender é muito maior do que de se arrepender.

Crítica Memórias de um Verão | Quando o tempo desacelera e o coração lembra quem somos

Baseado no clássico “O Livro do Verão”, de Tove Jansson, Memórias de um Verão traz para o cinema uma história contemplativa, que transforma pequenos momentos em grandes gestos de humanidade. O longa parte de uma premissa simples: a convivência entre uma avó e sua neta em uma ilha isolada. Porém, essa simplicidade funciona como porta de entrada para reflexões profundas — sobre o tempo, a infância, a velhice e o que fica guardado na memória de cada um.

Acompanhamos Sophia (Emily Matthews), uma menina de nove anos, e sua avó (Glenn Close) durante um verão marcado por descobertas silenciosas. Elas exploram a natureza, conversam sobre o mundo, desviam do tema da perda recente da mãe de Sophia e, aos poucos, deixam que a paisagem cure aquilo que elas ainda não conseguem dizer. É um enredo discreto, minimalista, mas que se apoia na força emocional dos detalhes: um olhar, um gesto, uma respiração longa diante do mar.

memoriasdeumverao02 7ce6aFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

E é justamente por ser tão discreto que o filme levanta a pergunta inevitável: esse tipo de narrativa ainda funciona, num mundo acelerado? A resposta depende do olhar de cada espectador — mas, para quem se permitir entrar no ritmo da ilha, Memórias de um Verão entrega uma experiência sensorial rara, que mistura silêncio, contemplação e sentimentos intensos. É um filme que pede calma; em troca, devolve introspecção e beleza.

Memórias de um Verão vale a pena?

Sim, vale — desde que você esteja disposto a desacelerar. Memórias de um Verão é um filme sobre pequenas coisas que revelam grandes verdades; sobre uma avó no fim de sua jornada e uma neta que mal começou a dela. A narrativa pode parecer parada, quase imóvel, mas funciona como uma meditação cinematográfica. A direção convida o espectador a sentir o vento, o mar, o silêncio — e a perceber que ali existe um mundo inteiro acontecendo. É um drama sensível, às vezes triste, outras vezes imensamente terno, reforçado por atuações impecáveis e uma fotografia de tirar o fôlego.

A Trama da Quietude: Vida, Tempo e Memória

O enredo de Memórias de um Verão é propositalmente simples — quase vazio à primeira vista. Pouca coisa acontece durante os 90 minutos: são conversas quebradas, passeios pela ilha, pequenas brincadeiras e silêncios prolongados. Mas essa “falta de ação” é justamente o que dá sentido ao filme. A narrativa funciona como um lembrete sobre o que realmente importa: observar, sentir, estar presente. É na calmaria que surgem as reflexões mais profundas.

memoriasdeumverao03 593bbFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A relação entre Sophia e sua avó é construída em gestos miúdos: a avó ensinando a criança a montar uma barraca, recordando histórias da juventude enquanto tenta lembrar fatos que já começam a escapar da memória, ou simplesmente caminhando lado a lado na praia. São momentos que poderiam passar despercebidos, mas que ganham enorme peso emocional quando vistos como fragmentos de uma vida inteira prestes a se despedir.

O filme também trabalha um contraponto poderoso: a infância e o fim da vida, lado a lado. A menina cheia de perguntas, irritada, teimosa, curiosa; a avó paciente, cansada, muitas vezes perdida entre lembranças e lapsos de memória. Através desse contraste, o longa sugere que compreender a existência talvez esteja justamente no meio-termo entre esses dois extremos — não no que sabemos, mas no que sentimos.

memoriasdeumverao04 669b0Destaque para o gatinho fofo no filme! - Fonte: Divulgação / Helsinki Filmi

Outro elemento forte é a forma como a natureza influencia a narrativa. A ilha é quase um personagem: o sol, o mar, as flores, o vento. A câmera se aproxima de detalhes minúsculos — gotas de orvalho, pedras à beira da água, folhas tremendo — como se cada pequeno elemento fosse parte de uma conversa maior. Essa estética transforma o simples em poético e reforça a ideia de que a vida acontece nas entrelinhas.

A Beleza do Silêncio

Glenn Close está magnífica. Sua atuação é contida, sutil, cheia de nuances — uma avó que mistura sabedoria, humor seco, fragilidade e um leve temor diante da passagem do tempo. É daquelas performances que não precisam de grandes discursos para emocionar; basta um olhar demorado ou uma respiração hesitante. Já Emily Matthews, em sua estreia no cinema, surpreende com naturalidade e sensibilidade, equilibrando inocência e intensidade sem nunca soar artificial.

memoriasdeumverao05 fe7c9Fonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A direção de Charlie McDowell abraça totalmente o espírito contemplativo do romance original. Em vez de explicar tudo, ele deixa que as situações falem por si — e quando fala demais, justamente aí o filme dá seus tropeços. Algumas cenas são mais verborrágicas do que deveriam, um contraste com a linguagem silenciosa que domina a maior parte da obra. Ainda assim, o equilíbrio final funciona e o tom geral permanece coerente.

A fotografia é, sem exagero, deslumbrante. Os planos da ilha parecem pinturas, com luz suave, cores quentes e composições que valorizam tanto a grandiosidade quanto os detalhes minúsculos. Há momentos que mais parecem haicais visuais: a avó observando o nascer do sol, Sophia correndo entre as rochas, o mar refletindo o céu como um espelho infinito. A câmera convida o espectador a respirar junto com a natureza.

memoriasdeumverao01 a978aFonte: Divulgação / Helsinki Filmi

A trilha sonora — ou a ausência dela — é outro trunfo. Muitos trechos são guiados apenas por piano leve, pelo som do vento, pela batida do coração, pela água tocando as pedras. O resultado é quase terapêutico, como se o filme pedisse: escute a vida. Essa combinação entre imagem e som cria uma atmosfera de serenidade e introspecção que permanece muito depois dos créditos.

Crítica O Agente Secreto | Um grande filme com múltiplas personalidades e final questionável

Será que “O Agente Secreto” tem o cacife para entrar na corrida do Oscar? Por que todo mundo está falando tanto sobre esse filme?

Essas são perguntas inevitáveis quando se fala da nova obra de Kleber Mendonça Filho — uma coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha que chegou com status de grande evento. E não é por menos: o diretor de Bacurau entrega aqui um projeto ousado, denso e repleto de camadas.

A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia que busca refúgio em Recife, em plena ditadura militar, na tentativa de escapar de um passado conturbado. Só que o que parecia um recomeço rapidamente se torna uma armadilha: a cidade o observa, os vizinhos o vigiam, e o que era refúgio vira paranoia. Um retrato de um Brasil sufocado, onde ninguém é completamente livre — nem mesmo quem tenta fugir.

oagentesecreto01 33027Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Com cerca de 2h40 de duração, “O Agente Secreto” pode parecer uma maratona, mas o tempo passa rápido. A narrativa é envolvente, a montagem dinâmica, e o filme tem aquele raro poder de nos fazer perder a noção do relógio. É entretenimento com alma e densidade, e mesmo quando erra, erra com estilo.

“O Agente Secreto” expõe a paranoia e o controle durante a ditadura sem recorrer a discursos tão diretos. Em cada vizinho, um espião em potencial; em cada janela, um olhar vigilante. Kleber Mendonça Filho constrói, com sutileza e precisão, um retrato de insegurança, ausências forçadas e temores silenciosos.

O Agente Secreto vale a pena?

Vale, e muito! Kleber Mendonça Filho entrega uma experiência rara no cinema brasileiro recente: ousada, provocante e com uma força autoral admirável. É um filme que mistura gêneros, desafia convenções e nos faz refletir, mesmo que, no fim, tropece em seu próprio excesso. A ambientação é fantástica, as atuações são de altíssimo nível e o conjunto técnico é impressionante. Ainda assim, O Agente Secreto sofre de uma “crise de identidade”, oscilando entre o thriller político, o drama, a comédia e outros gêneros. Essa mistura dá sabor, mas também confunde.

Um filme com mil rostos e uma só essência

É curioso: apesar do título, não existe exatamente um “agente secreto” no sentido literal. Marcelo é um homem comum, um fugitivo tentando sobreviver. A meu ver, me parece que “secreto” aqui é mais simbólico — refere-se às identidades inventadas, às máscaras que usamos para existir em meio ao medo.

oagentesecreto03 2ab86Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

O roteiro, contado de forma não linear, brinca com o tempo e com as percepções do espectador. A cada novo núcleo, o filme muda de tom — em um momento há humor, no outro violência gráfica; em seguida, drama político ou até pitadas de romance. A sensação é de estar vendo várias obras dentro de uma só, uma colcha de retalhos costurada com firmeza, mas nem sempre com precisão.

Mendonça Filho parece fascinado por essa mistura — e repete aqui o gosto pela violência estilizada que já vimos em Bacurau. Há cenas fortes, explícitas, que dividem opiniões. Algumas são marcantes; outras, completamente gratuitas. O infame arco “da perna”, por exemplo, soa mais como delírio do que como parte orgânica do enredo.

Ainda assim, o filme brilha em seu elenco. Wagner Moura está fenomenal. Sua entrega é visceral, cheia de nuances — o medo, a culpa, o cansaço, o humor sutil. Não à toa, levou o prêmio de Melhor Ator em Cannes 2025.

oagentesecreto02 cb770Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Tânia Maria rouba a cena como Sebastiana, a vizinha espirituosa que traz leveza sem forçar o humor. Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Robério Diógenes, Gabriel Leone e Roney Villela completam o elenco com performances consistentes, dando corpo a um mosaico de personagens intensos e inesquecíveis.

A força técnica por trás da confusão narrativa

Se há algo inquestionável em O Agente Secreto, é sua excelência técnica. A recriação do Recife de 1977 é impressionante — dos figurinos à frota de carros, das construções antigas aos pequenos detalhes dos cenários. É uma viagem no tempo feita com minúcia e paixão. Kleber Mendonça, nascido na capital pernambucana, conhece cada viela e esquina, e esse olhar pessoal dá vida ao cenário.

A fotografia é primorosa. Há um cuidado meticuloso com as cores, com a luz e com o contraste entre o calor do Recife e o frio psicológico da paranoia. Cada plano parece pensado para intensificar o desconforto, a sensação de que algo sempre espreita nas sombras. Claro, há um reforço cinematográfico graças à gravação em 35 mm com lentes Panavision de formato anamórfico.

oagentesecreto04 c5776Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

A trilha sonora é outro triunfo. O filme utiliza canções da época de forma diegética, ou seja, inseridas no próprio universo da narrativa. Somos apresentados aos sons quando os personagens ligam o rádio do carro, colocam um vinil no toca-discos ou apenas ouvem o ambiente ao redor. A música, aqui, não é apenas trilha: é personagem. E cada escolha tem peso narrativo.

Se você viu o trailer de O Agente Secreto, provavelmente percebeu que a música já roubava a atenção naquela prévia. A faixa usada é “Guerra E Pace, Pollo E Brace”, de Ennio Morricone — composta originalmente para o filme Obrigado, Tia (Grazie Zia, 1968) — e, no longa, ela cria um clima de tensão hipnótica.

Particularmente, gostei muito da cena embalada por “Retiro: Tema de Amor Número 3”, do Conjunto Concerto Viola. Aqui, a letra parece também funcionar como elemento narrativo, sendo mais uma camada inteligente do filme, que convida o espectador a reparar em cada detalhe. A canção acrescenta um lirismo melancólico e oferece à narrativa um sopro de humanidade.

No subtexto, “O Agente Secreto” fala sobre ausências, abuso de poder e os abusos da ditadura. O diretor nunca entrega discursos diretos, mas sugere com símbolos, gestos e silêncios, o trauma coletivo de uma nação — que, na narrativa, teme o presente, enquanto que a plateia certamente sabe que esse passado sombrio muitas vezes se insinua em situações do tempo presente. É uma obra que nos lembra, com sutileza e brutalidade, que esquecer é permitir que os mesmos erros retornem.

Infelizmente, essa escalada de tensão desagua num final que decepciona.

Depois de mais de duas horas de construção de personagem e drama, o desfecho é abrupto, superficial e inconclusivo. O clímax se esvazia antes de acontecer. Não é que falte explicação, mas falta coragem narrativa para encerrar o que o filme começou com tanta força. O resultado é um fim que deixa um vazio. Não o bom vazio reflexivo, mas o de frustração.

Um candidato brasileiro de peso no Oscar

Depois do sucesso de Ainda Estou Aqui (que rendeu o primeiro Oscar ao Brasil), “O Agente Secreto” chega com expectativas altíssimas. Foi escolhido para representar o país na disputa pelo Oscar 2026, e não é difícil entender por quê: é uma obra tecnicamente impecável, com alma autoral e um protagonista premiado.

oagentesecreto05 47698Fonte da imagem: Divulgacão/Vitrine Filmes

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho já saíram de Cannes com prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor, respectivamente — um feito histórico. Ainda assim, o Oscar é um território imprevisível: filmes estrangeiros raramente conquistam múltiplas indicações. Mesmo assim, há boas chances de o nome de Wagner aparecer entre os indicados a Melhor Ator, assim como Kleber pode surpreender na categoria de Direção. Vamos ver o que vem por aí, não dá pra saber ainda.

Conflituoso, mas intenso e audaz

O Agente Secreto” é um espetáculo de cinema! Ambicioso, elegante e envolvente.

É também uma obra que se perde em suas próprias ideias, que tenta dizer muito e, às vezes, acaba mostrando demais. Ainda assim, é um filme que merece ser visto, debatido e celebrado. Um retrato inquietante de um país dividido, feito com arte e coragem.

No fim das contas, Kleber Mendonça Filho continua sendo o mesmo cineasta inquieto de sempre: aquele que provoca, mesmo quando deixa sem respostas.