Crítica O Telefone Preto 2 | Atende esse treco de volta se não o bicho pega!

Há quatro anos, Finn, então com 13 anos, matou seu sequestrador e escapou, tornando-se o único sobrevivente do vilão apresentado em O Telefone Preto — história que saiu do livro homônimo de Joe Hill, que, por sinal, é filho de Stephen King. Mas o verdadeiro mal transcende a morte… e o telefone voltou a tocar.

Enquanto Finn, agora com 17 anos, tenta lidar com a vida após o cativeiro, Gwen, de 15 anos e determinada, começa a receber ligações em seus sonhos através do telefone preto — e a ter visões perturbadoras de três garotos sendo perseguidos em um acampamento de inverno chamado Alpine Lake.

Decidida a resolver o mistério e acabar com o tormento que aflige a ela e seu irmão, Gwen convence Finn a visitar o acampamento durante uma tempestade de inverno. Lá, ela descobre uma ligação devastadora entre O Sequestrador (Ethan Hawke) e a própria história de sua família. Juntos, Gwen e Finn terão que enfrentar um assassino que se tornou ainda mais poderoso após a morte — e mais ligado a eles do que jamais poderiam imaginar.

otelefonepreto21 96a5aFonte: Divulgação/Universal Pictures

A sequência começa praticamente de onde o primeiro longa terminou, mas com uma perspectiva completamente nova. Se no original o terror vinha do confinamento e da presença física do vilão, em O Telefone Preto 2 o medo se manifesta no sobrenatural, expandindo o universo para além das paredes do cativeiro. Será que O Telefone Preto 2 é um terror sobrenatural à altura do original? Vale conferir a continuação no cinema?

O Telefone Preto 2 vale a pena?

O Telefone Preto 2 surpreende ao expandir o universo do original sem repetir sua fórmula. Scott Derrickson aposta em um terror mais sobrenatural, com visuais deslumbrantes e atuações intensas, especialmente de Madeleine McGraw. Apesar de pequenas conveniências no roteiro, é uma sequência sólida, madura e visualmente impressionante.

O telefone tocou novamente... Fui atender e era O Sequestrador

É muito raro uma continuação de um filme de sucesso — ainda mais no gênero terror — se manter no mesmo nível do original. Mas O Telefone Preto 2 consegue essa façanha, e o melhor: sem repetir a fórmula. A pegada é tão diferente que parece que estamos assistindo a um novo universo, ainda que conectado ao primeiro. A trama traz muitas novidades, expande conceitos e cria pontes inteligentes com o longa anterior, sem depender dele para funcionar. E uma boa notícia: caso você não tenha visto o primeiro, dá para ver o segundo sem grandes problemas (claro, é altamente recomendado ver o anterior pelo fato de que é um ótimo filme de terror)

Enquanto o primeiro filme explorava o terror humano, centrado em um assassino real e nas cicatrizes emocionais de suas vítimas, aqui o sobrenatural assume o controle. O mundo dos mortos invade o dos vivos, criando uma sensação constante de incerteza. A atmosfera fica mais sombria, e o vilão — agora uma força espectral — se torna ainda mais ameaçador. Existem algumas conveniências no roteiro, mas nada que atrapalhe o envolvimento. Derrickson e o co-roteirista C. Robert Cargill entregam uma história consistente, com ritmo firme e boas ideias originais, extrapolando o material do conto de Joe Hill.

otelefonepreto24 3a14bFonte: Divulgação/Universal Pictures

Scott Derrickson demonstra mais uma vez sua experiência com o gênero, depois de títulos como A Entidade e Livrai-nos do Mal. Seu olhar técnico e criativo é um dos pontos altos do filme. Se o primeiro Telefone Preto era sobre o medo palpável, aqui ele traduz o pavor invisível. A intersecção entre o real e o espiritual é construída com transições brilhantes e um uso magistral de câmera, que permite ver os dois mundos coexistindo.

O visual é um espetáculo à parte. O diretor faz uso de efeitos e truques de câmera que só funcionam em um cenário gélido: janelas cobertas de gelo com expressões aterrorizantes, nevascas intensas e perseguições sobre lagos congelados criam um ambiente ao mesmo tempo belo e ameaçador. Há excelentes jump scares, sempre bem dosados, e o uso da penumbra é de altíssimo nível. A decisão de diferenciar o “mundo do além” com um aspecto de filme envelhecido e granulado é um toque de pura criatividade.

Outro acerto está no elenco. Se no primeiro longa Mason Thames carregava o protagonismo, aqui cede — e, às vezes, divide — o espaço para Madeleine McGraw, que entrega uma performance excepcional. Sua personagem Gwen é o coração emocional da trama: determinada, vulnerável e poderosa ao mesmo tempo. A jovem atriz demonstra um domínio impressionante em cenas de desespero, medo e coragem. É dela o papel mais difícil, e ela o cumpre com brilho.

otelefonepreto23 11c3eFonte: Divulgação/Universal Pictures

Completando o elenco, Miguel Mora tem boa presença, ainda que em menor escala, e Demián Bichir adiciona peso à história, com uma atuação segura e contida. Já Ethan Hawke retorna de forma mais intensa, uma vez que seu personagem tem ainda mais poderes e sua presença continua sendo o elemento mais inquietante da franquia. Mesmo sem corpo físico em boa parte da trama, o ator impõe o mesmo desconforto e ameaça com aparições cada vez mais tenebrosas.

Som, luz e pesadelos: um espetáculo técnico do medo

A fotografia de Pär M. Ekberg é deslumbrante. O diretor de fotografia entende que o horror está tanto no que se vê quanto no que se insinua. O contraste entre luz e sombra, o uso inteligente de tons azulados e brancos para as cenas na neve e o visual um pouco apagado dos flashbacks criam uma estética sofisticada e coerente. A fronteira entre o real e o imaginário é constantemente embaralhada — e é isso que torna o filme visualmente hipnótico.

A trilha sonora, composta por Atticus Derrickson (filho do diretor), também merece destaque. Em sua estreia em longas-metragens, o jovem compositor aposta em sons distorcidos, ecos metálicos e ruídos que parecem vir do além. As faixas lentas e melancólicas ajudam a prolongar a sensação de pesadelo, transformando o silêncio em mais um elemento de terror. É um trabalho inventivo, que complementa o clima frio e espiritual do filme.

 otelefonepreto22 c2701Fonte: Divulgação/Universal Pictures

No fim das contas, O Telefone Preto 2 é uma sequência surpreendentemente sólida. É mais maduro, mais ambicioso e, de certa forma, mais triste. O foco no trauma e na conexão entre os irmãos dá profundidade emocional ao terror, elevando a história além dos sustos fáceis. Derrickson entrega um filme inventivo e assustador na medida certa, que prende o espectador do início ao fim sem repetir o que já funcionou antes — prefere expandir e arriscar, e é justamente aí que acerta. Uma excelente pedida para ver no cinema, de preferência com o volume alto e o coração preparado.

Crítica do filme Tron: Ares | A história rasa do ChatGPT que ganhou novos Ares com gráficos incríveis

Em 1982, Tron apresentou ao mundo uma ousada visão do ciberespaço, quando computadores ainda eram novidade. Quase trinta anos depois, Tron: O Legado (2010) trouxe a franquia de volta com visual arrojado e trilha marcante do Daft Punk. Agora, em 2025, "Tron: Ares" surge como o elo improvável dessa trilogia esparsa — uma mistura de nostalgia, experimentação digital e um esforço visível para manter o brilho de uma ideia que sempre foi mais fascinante visualmente do que emocionalmente.

A trama apresenta Ares, um programa avançado enviado do mundo digital ao real — o primeiro contato direto entre humanos e uma inteligência artificial materializada. O conceito é promissor, especialmente em tempos de ChatGPTs e robôs humanoides, mas o roteiro transforma essa premissa potente em uma narrativa rasa, repleta de momentos previsíveis e explicações que soam tão artificiais quanto o próprio protagonista.

A história, simples e diluída, dificilmente exigiria duas horas de projeção. Há uma sensação constante de que muitos diálogos ou cenas servem apenas para costurar o próximo espetáculo visual. O resultado é um filme que deslumbra os olhos, mas raramente mexe com o coração. Ainda assim, é impossível negar que a estética — limpa, reluzente e geométrica — continua sendo a alma da franquia.

tronares00 a819bFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Será que a saga Tron tem energia suficiente para conquistar uma nova geração? O fascínio atual pela inteligência artificial é capaz de reacender o interesse por uma franquia que nunca encontrou um público cativo?

Tron: Ares vale a pena?

O novo capítulo da franquia brilha pelo visual e pela imersão no mundo digital, com uma trilha sonora ousada, mas tropeça no roteiro e na emoção. É um bom espetáculo visual, mas sem o aprofundamento que um tema tão atual merecia. Se você quer um filme pipoca, vale o ingresso! Mas se busca mais conteúdo, talvez seja melhor aguardar outros lançamentos de ficção científica.

Só nos Computer como nunca antes

Do ponto de vista técnico, "Tron: Ares" é impecável. A produção é um verdadeiro upgrade de firmware cinematográfico: luzes, texturas e movimentos em CGI atingem um nível de refinamento impressionante. Cada cena parece uma pintura digital em movimento, com design sonoro que mergulha o espectador em um mundo pulsante, metálico e imersivo.

A trilha sonora do Nine Inch Nails é, sem exagero, um dos pontos mais altos do filme (inclusive, está abaixo, só dar o play para curtir enquanto lê o restante do texto). Trent Reznor e Atticus Ross abandonam o estilo eletrônico dançante do Daft Punk e criam algo mais sombrio e experimental. São faixas que misturam distorções metálicas, pulsos industriais e atmosferas densas — sons que se encaixam com precisão cirúrgica nas imagens de circuitos, cabos e entidades digitais. O filme pode até tropeçar na história, mas acerta em cheio no som.

O problema é que, fora do espetáculo sensorial, pouco sobra. Os personagens são tão rasos quanto os diálogos que os movem. Ares e companhia transitam entre dilemas simplistas sobre “propósito” e “liberdade”, em falas que parecem saídas de um episódio de Pinky e o Cérebro. O roteiro não se arrisca em questões filosóficas nem constrói vínculos emocionais; prefere ficar na superfície luminosa de sua própria estética.

A construção de vilões caricatos, focados apenas em suas ambições de dominar o mundo a qualquer custo, torna tudo ainda mais cansativo — um tipo de antagonismo de manual que já não empolga, especialmente em um contexto de ficção científica que poderia explorar dilemas éticos e existenciais mais ricos.

tronares05 2b076Fonte: Divulgação/Walt Disney Studios

A franquia, que sempre brincou com a fronteira entre homem e máquina, agora aposta na inversão: não são mais os humanos que entram na Rede, mas os programas que ganham corpo no mundo real. É uma ideia interessante, mas que o filme nunca explica de forma convincente. E está tudo bem — nem tudo precisa de uma lógica científica exaustiva. Explicar em detalhes o processo de “materialização” digital só tornaria o filme mais arrastado, e talvez até pedante.

Ainda assim, não deixa de ser curioso pensar como algumas obras conseguem equilibrar conceitos complexos e emoção — Interestelar, por exemplo, traduziu teorias físicas engenhosas de forma acessível e envolvente, provando que é possível unir ciência e sentimento sem perder o público.

Lá vem Jared Leto no grau dando seu show!

A sequência de perseguição com as motos de luz é, sem dúvida, o ponto alto do filme. É o tipo de cena que faz valer o ingresso: rápida, vibrante e impecavelmente coreografada. Além disso, em outras cenas que mostram mais do mundo virtual e seus softwares em versões humanoides, a dualidade visual — com azuis frios e vermelhos incandescentes — reforça a eterna luta entre o bem e o mal no universo Tron. Nesse momento, Ares atinge o que sempre prometeu: uma experiência visual eletrizante.

Jared Leto, no papel do programa titular, é um caso curioso. O ator parece preso em uma maré de auto sabotagem artística: depois de um Coringa desastroso e performances erráticas, ele assume aqui um papel que exige pouca emoção e muita presença digital. Seu Ares é um amontoado de pixels carismáticos que tenta, sem sucesso, despertar empatia — um robô que, como o Homem de Lata de Oz, sonha em ter um coração.

tronares03 bc59eFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Greta Lee, por outro lado, oferece uma das atuações mais humanas do filme. Ela funciona como elo de ligação entre os universos, transitando com naturalidade entre o drama e a ficção científica. Sua personagem carrega o peso da única linha emocional genuína da história, equilibrando vulnerabilidade e racionalidade. Greta faz um verdadeiro malabarismo: ora perseguida, ora solucionadora dos problemas — uma figura que tenta dar coerência emocional onde o roteiro falha.

Gillian Anderson, a eterna Dana Scully, merece menção especial. Não apenas pela performance sólida, mas pela deliciosa ironia de vê-la novamente envolvida em tramas sobre mundos digitais e conspirações tecnológicas. Se existe alguém com “formação” para lidar com inteligências artificiais rebeldes, é ela, afinal, Arquivo X já explorava ameaças de servidores autoconscientes antes mesmo do termo “IA generativa” existir.

tronares02 bb6e1Fonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Evan Peters, por sua vez, tem o azar de interpretar o vilão mais genérico do pacote: o jovem gênio da tecnologia, claramente inspirado em figuras como Mark Zuckerberg, cuja ambição o torna quase uma caricatura. O problema não é o ator — que faz o possível —, mas o personagem, que soa mais como um arquétipo de vilão do Vale do Silício do que alguém com camadas ou motivações reais.

Jeff Bridges surge como uma aparição simbólica, quase divina, para conectar Ares às origens da franquia. Seu Kevin Flynn é a ponte entre o clássico e o moderno — uma homenagem elegante que não precisava acontecer, mas que funciona como uma saudosa piscadela aos fãs. Ver Leto e Bridges lado a lado é testemunhar, em um só quadro, o contraste entre duas gerações de Tron: o criador e a criação, o humano e o código, o passado analógico e o futuro renderizado em 8K.

Apesar de tudo, há algo cativante no contexto em que "Tron: Ares" chega. Em plena era da inteligência artificial, o filme desperta reflexões involuntárias sobre o poder e os limites da tecnologia. Mesmo sem aprofundar o tema, é curioso como a ficção continua insistindo na ideia de que a IA um dia se voltará contra seus criadores — talvez mais um espelho das nossas próprias inseguranças do que uma previsão realista.

tronares04 713efFonte: Divulgação/Walt Disney Studios

Infelizmente, a ambição filosófica não se sustenta. Tron: Ares encerra tentando abrir espaço para uma continuação, mas o descompasso entre visual e narrativa sugere que dificilmente veremos outro capítulo tão cedo. A bilheteria não está das melhores e o histórico da franquia indica que o próximo reboot, se vier, pode demorar mais vinte anos.

No fim, "Tron: Ares" é um espetáculo sensorial irresistível: um delírio digital que impressiona pelos efeitos, encanta pelos sons, mas não resiste quando se tenta buscar substância. É o típico caso em que o hardware é de última geração, mas o software ainda precisa de uma boa atualização.

Crítica do filme O Último Rodeio | Quando o tédio monta no drama

Há produções que dialogam com públicos muito específicos e, claro, quando falamos de filmes norte-americanos, muitos têm como foco o público dos próprios Estados Unidos. Este é justamente o caso de "O Último Rodeio", que se ancora em valores, símbolos e tradições que fazem sentido dentro da cultura em que foi produzido, mas que dificilmente encontram o mesmo eco fora de lá.

Rodeios, montadores lendários e dramas de fé no interior do país formam um universo bastante particular, distante da realidade da maioria do público internacional. Mesmo no Brasil, onde os rodeios ainda têm seu público, trata-se de um recorte pequeno diante de um país diverso e majoritariamente urbano, o que inevitavelmente pode tornar a história um tanto restrita.

Em "O Último Rodeio", o veterano montador Joe Wainwright (Neal McDonough), uma antiga lenda das arenas, decide arriscar tudo para salvar o neto diagnosticado com um tumor cerebral agressivo. Sem recursos e com um seguro de saúde que se recusa a cobrir a cirurgia, ele vê no rodeio — o mesmo que quase o matou anos atrás — sua única chance de levantar o dinheiro necessário. De volta aos treinos e aos circuitos, Joe se vê obrigado a encarar não apenas os desafios físicos, mas também as feridas de um passado conturbado, incluindo a relação complexa com a filha.

oultimorodeio01 1faa2Fonte: Divulgação/Paris Filmes

Embora o ponto de partida prometa um drama emocional sobre sacrifício e redenção, "O Último Rodeio" rapidamente se revela um filme previsível e arrastado. A trama tenta equilibrar emoção familiar e espiritualidade, mas escorrega em clichês e sentimentalismo fácil. Não é um faroeste nem um épico sobre cowboys. É, antes, um melodrama ambientado em arenas e fazendas, que finge ser sobre coragem quando, na verdade, fala mais sobre teimosia.

O Último Rodeio vale a pena?

“O Último Rodeio” tenta emocionar ao retratar o sacrifício de um avô que volta às arenas para salvar o neto enfermo, mas o drama se perde em clichês e sentimentalismo fácil. Apesar da bela fotografia e de uma premissa com potencial, falta ritmo, profundidade e autenticidade para envolver o espectador de verdade.

Muitos tropeços e pouca estabilidade

Mesmo quem gosta de filmes inspiradores vai sentir que O Último Rodeio não tem muito a oferecer além de boas intenções. É o típico filme que caberia perfeitamente na grade da Hallmark: previsível, açucarado e sem grandes riscos. A história do avô que tenta salvar o neto doente ao entrar novamente em uma competição perigosa até poderia emocionar, mas o roteiro parece não confiar no público e insiste em explicar demais, repetindo emoções que nunca chegam a se concretizar.

O filme também sofre com um desequilíbrio entre fé e drama familiar. Há inclusive momentos em que a espiritualidade é empurrada goela abaixo — um personagem chega a recitar versículos bíblicos em situações aleatórias, deixando a narrativa forçada e artificial, como se a mensagem tivesse sido colocada à força apenas para agradar um público específico. Essa indecisão entre ser um drama humano ou uma mini pregação travestida de roteiro faz com que a história perca foco e autenticidade.

oultimorodeio02 1d2b8Fonte: Divulgação/Paris Filmes

Além disso, há o incômodo pano de fundo do próprio esporte retratado. As competições de montaria em touros são mostradas com glamour e heroísmo, mas o filme ignora completamente o debate sobre a crueldade animal. Talvez funcione para quem gosta de rodeios, mas é difícil não sentir um certo desconforto.

Por outro lado, "O Último Rodeio" acerta, ainda que involuntariamente, ao escancarar o problema da ganância do sistema de saúde americano. Eis aqui o verdadeiro vilão da trama! Essa questão não é tratada com a indignação que deveria, não há qualquer combate aos excessos dos convênios de saúde ou à falta de assistência por parte do governo. No entanto, é inevitável que, para determinados públicos, como o brasileiro, a gente acabe percebendo que a trama não teria muito sentido por aqui: o menino teria acesso gratuito ao tratamento pelo SUS e o avô não precisaria se arriscar até quase morrer.

Um drama que nunca sai do lugar

A direção de Jon Avnet é morna e incapaz de dar ritmo ou intensidade às cenas mais dramáticas. Mesmo nas sequências de rodeio, a câmera lenta e os closes excessivos parecem um esforço desesperado para criar emoção onde ela simplesmente não existe. Apesar da fotografia bem elaborada, com cenários bonitos e uma luz ensolarada que empolga nos primeiros minutos, rapidamente percebemos que o brilho termina por aí. A trilha sonora, que poderia amarrar os sentimentos, também passa despercebida e raramente reforça o que está em tela.

Os atores são competentes, mas estão presos a personagens sem profundidade. As emoções são contidas demais — falta desespero, vulnerabilidade e verdade. É como se o elenco inteiro tivesse sido instruído a “não exagerar”, e o resultado é uma sucessão de cenas mornas, que nunca chegam a tocar o espectador. Há talento ali, mas nada que consiga se sobressair diante de um roteiro que não oferece espaço para nuances ou crescimento emocional.

oultimorodeio03 ae75fFonte: Divulgação/Paris Filmes

No final, o filme até tenta entregar uma conclusão emocionalmente satisfatória — e, de fato, o desfecho é melhor que o restante da trama —, mas o caminho até lá é cansativo. Duas horas para contar uma história tão simples é pedir demais da paciência de qualquer espectador.

Mesmo com seus belos cenários e uma fotografia cuidada, "O Último Rodeio" não consegue se sustentar. É uma obra que parece feita para preencher horário de TV, não para ocupar uma sala de cinema. Um drama vazio, previsível e emocionalmente raso, que tenta ser inspirador, mas termina sendo apenas esquecível.

Crítica Conselhos de um Serial Killer Aposentado | A terapia mais perigosa de Nova York

Um escritor em crise criativa faz amizade com um serial killer aposentado, que vira terapeuta conjugal e consultor para um novo livro. Mas a esposa começa a desconfiar que pode ser um alvo. Essa pequena descrição é a sinopse oficial de Conselhos de um Serial Killer Aposentado, longa-metragem que promete ser “uma comédia ácida e irreverente”. Ao menos, é assim que o filme se vende.

Encabeçando o projeto está Tolga Karaçelik, diretor turco que provavelmente você nunca ouviu falar, mas que vem se destacando — tanto que agora realiza um projeto com atores americanos ambientado em Nova York. Aqui, ele propõe uma comédia sombria que brinca com temas como casamento, bloqueio criativo e homicídio — não necessariamente nessa ordem — embalada por uma energia caoticamente nova-iorquina que parece saída de um pesadelo de Woody Allen com tarja preta.

Parece uma grande doideira? Pois é mesmo! Logo de cara, fica o aviso: este não é um filme para todos. É uma comédia tão fora do eixo que às vezes parece sabotar a própria estrutura. Karaçelik mistura sátira conjugal, humor ácido, crise existencial e até meditação sobre o ato de escrever — tudo de uma vez. O resultado é tão curioso quanto desigual. Alguns temas ficam pendurados no ar, mas talvez essa indecisão seja justamente o ponto: a bagunça faz parte da graça.

Conselhos de um Serial Killer Aposentado vale a pena?

Uma comédia sombria, caótica e talvez um tanto absurda, Conselhos de um Serial Killer Aposentado transforma crise criativa e colapso conjugal em sátira ácida sobre amor, ego e insanidade — um filme estranho e imperfeito, mas, de certa forma, um pouco divertido.

Entre o caos e a catarse

O humor aqui nasce do desconforto. Karaçelik não quer que ríamos com os personagens, mas deles. E, em muitos momentos, é impossível não reconhecer um pedaço de humanidade nesse trio disfuncional — especialmente quando o amor e o homicídio parecem parte da mesma rotina doméstica. A graça está justamente em sua total falta de noção situacional. É um filme que parece sempre à beira do colapso narrativo e, por algum milagre cômico, nunca desaba. Karaçelik faz da confusão uma ferramenta estética: tudo é exagerado, fora de lugar e deliciosamente absurdo.

Há um prazer quase sádico em ver o roteirista brincar com a metáfora central — casamento e assassinato como experiências igualmente intensas e potencialmente letais. O filme entende que a convivência é um jogo de poder e manipulação, e o faz com o mesmo brilho de uma faca recém-afiada. A cada cena, a linha entre “amar” e “eliminar” fica mais tênue, e o espectador é convidado a rir disso com uma certa culpa.

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Há momentos em que o roteiro se perde em devaneios ou piadas que se estendem além do ponto ideal, mas ainda há uma coerência emocional que sustenta o caos. Os personagens, apesar da caricatura, funcionam como espelhos de uma sociedade que trata a terapia como espetáculo e o fracasso como combustível para autopiedade. É, de certa forma, uma crítica disfarçada de piada — e uma piada que às vezes acerta dolorosamente.

O ritmo, por outro lado, nem sempre colabora. Em alguns trechos, o filme se arrasta como uma sessão de casal que já perdeu o propósito, apenas para explodir de repente em situações ridículas. Essa alternância entre o cômico e o patético talvez explique por que o filme conquista apenas parte do público. Karaçelik parece se divertir em desmontar as expectativas do espectador — uma escolha que pode ser uma faca de dois gumes.

Casamento, crime e outras formas de convivência

O que mantém o filme de pé é o elenco, especialmente Buscemi, que transforma cada pausa em potencial piada ou ameaça. Seu personagem flutua entre mentor e maníaco, e o faz com um equilíbrio digno de um equilibrista bêbado. Já John Magaro interpreta Keane, o escritor em crise que, em teoria, deveria ser o protagonista. Mas sua passividade é tão crônica que ele acaba relegado ao papel de coadjuvante — tanto no casamento quanto no próprio filme. É difícil não sentir uma pontada de irritação diante de alguém tão incapaz de reagir à própria vida.

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E é justamente por conta desse marido mais sonso que água de salsicha deixada na panela que temos as reações explosivas de Suzie, interpretada por Britt Lower. Há nela um prazer anárquico que faz o filme girar quando o roteiro ameaça desandar. No caso da personagem de Lower, as reações parecem frutos de uma frustração de quem já se divorciou mentalmente há anos, mas ainda não teve tempo de avisar o marido.

Conselhos de um Serial Killer Aposentado é, no fundo, uma comédia (bem fora da curva) sobre pessoas que perderam completamente a noção de seus papéis — como escritores, parceiros ou seres humanos civilizados. Todos estão tentando “entender” a si mesmos, mas o filme parece sugerir que a sanidade talvez seja apenas uma questão de edição: corte o suficiente e qualquer um pode parecer normal.

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A direção de Karaçelik é ousada, ainda que não refinada. Ele prefere o improviso à simetria, e isso dá ao filme um ar espontâneo, quase acidental. No fim das contas, Conselhos de um Serial Killer Aposentado não é um filme sobre assassinatos, mas sobre sobrevivência — a dois, consigo mesmo ou com o próprio ego. É sobre a fina linha entre amor e loucura, sobre o prazer do erro e o alívio de saber que, às vezes, rir é a única forma de não gritar.

Não é perfeito, nem quer ser. É um filme que se contorce, tropeça, se contradiz — mas nunca perde o charme. E, convenhamos, não é tão comum ver uma comédia transformar um colapso conjugal em uma aula prática de psicopatia aplicada. Se o humor ácido tem um novo endereço, ele fica em Nova York — e tem um consultório improvisado, onde as sessões terminam em gargalhadas e, ocasionalmente, em cadáveres metafóricos.

A Longa Marcha | Vale a pena ler o livro de Stephen King antes de ver o filme? O que mudou? Novo final?

Stephen King escreveu “A Longa Marcha” ainda na juventude, lá por meados de 1966 e 1967, até mesmo antes de se tornar o mestre do terror que o mundo conhece. E já fica aqui uma curiosidade: esta foi a primeira história que ele escreveu, porém a publicação ocorreu só em 1979, alguns anos após a publicação dos primeiros livros de sucesso do autor, como Carrie (1974), Salem (1975) e O Iluminado (1977).

Assinando como Richard Bachman — justamente para testar como obras um pouco diferentes iriam impactar o público sem o peso de sua fama —, ele criou uma distopia perturbadora, sobre um evento anual chamado "A Longa Marcha", o qual reúne uma centena de jovens, que se inscrevem voluntariamente, e que são obrigados a caminhar sem parar até restar apenas um vivo.

Décadas depois, Francis Lawrence transporta essa premissa para o cinema em “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” — e o resultado é uma conversa fascinante entre duas obras separadas pelo tempo, mas unidas pela mesma angústia existencial. Eu já publiquei minha opinião sobre o filme (e você pode clicar aqui para ler a Crítica do filme A Longa Marcha), abordando os acertos e poucos deslizes da adaptação, mas hoje quero focar na diferença entre as abordagens do texto e da obra audiovisual.

Do papel à tela: escolhas que transformam a história

O primeiro ponto de destaque é a fidelidade temática. Tanto o livro quanto o filme exploram o mesmo conceito central: a caminhada como metáfora da vida. No papel, King mergulha profundamente nos pensamentos de seu protagonista, criando uma narrativa quase claustrofóbica, de ritmo lento e opressivo. Já no cinema, Lawrence traduz essa imersão em movimento e imagem, substituindo a introspecção literária por uma tensão constante.

A ambientação dos anos 1970 é um elo essencial entre as duas versões. O diretor poderia ter atualizado a trama, mas manteve a época original — uma escolha inteligente. As tecnologias modernas eliminariam o isolamento e a dependência emocional entre os personagens. A ausência de celulares, câmeras pessoais e conexões instantâneas faz com que tudo pareça mais humano, mais cru, mais desesperador.

alongamarchalivro01 bbb12Créditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Uma das principais diferenças está no número de participantes. Enquanto o livro conta com 100 jovens, o filme reduz o grupo para 50. A decisão é prática e narrativa: manter o mesmo volume de personagens tornaria o longa interminável. Essa mudança, porém, não prejudica a história — ao contrário, torna-a mais focada e emocionalmente acessível.

Além das alterações já citadas, o filme também fez mudanças importantes nos personagens e no tom da narrativa. Por exemplo, Raymond Garraty não tem namorada, o que altera algumas memórias, mas ajuda a manter o foco no essencial da trama. O destino de seu pai é apresentado de forma mais marcante, funcionando como motivação clara para que Garraty participe da Longa Marcha — sem revelar demais, isso dá densidade ao personagem e aproxima o público da sua jornada.

Outros ajustes incluem o tom mais contido do filme em relação a palavrões e piadas de cunho sexual, pequenas alterações nas regras da marcha (como a velocidade da caminhada) e ajustes na forma como as advertências funcionam. Para leitores que prezam pela fidelidade, esses detalhes podem chamar a atenção, mas eles são necessários para que a narrativa cinematográfica seja direta, intensa e envolvente.

alongamarchalivro02 1b51aCréditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Outro contraste está na forma como a violência é tratada. No livro, a eliminação dos participantes ocorre de forma seca, quase burocrática. King raramente descreve em detalhes — o horror está na espera, na expectativa. Já no filme, as execuções são explícitas e brutais. A intenção é chocar, sim, mas também deixar clara a monstruosidade do sistema. Ainda assim, há quem prefira a sutileza do texto original.

Mantendo a tensão: diferenças que funcionam

O ritmo é outro ponto interessante. O livro é exaustivo por natureza — propositalmente. King faz o leitor sentir o cansaço, o peso da caminhada, o tédio e a dor. É uma experiência que exige paciência. O filme, por sua vez, é mais direto. A narrativa é enxuta, os diálogos são pontuais, e a montagem mantém a tensão viva até o fim. Cada formato funciona à sua maneira.

E falando em final: aqui está a grande diferença. O desfecho do livro é ambíguo, filosófico e, para muitos, frustrante. King deixa a interpretação aberta, como se a caminhada nunca terminasse. Já o filme entrega uma conclusão muito mais clara e impactante — um fechamento que honra o percurso e oferece uma catarse emocional poderosa. É raro dizer isso, mas neste caso o final do filme supera o do livro.

Mesmo com todas as alterações, o espírito da obra original é preservado. A camaradagem entre os personagens, o sentimento de solidariedade em meio à competição e o medo de desaparecer sem propósito continuam intactos. A versão cinematográfica não trai o texto — apenas o traduz em outra linguagem, igualmente eficaz.

alongamarchalivro03 4222eCréditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Além disso, há méritos únicos em cada um. O livro é mais psicológico, mais filosófico, um estudo sobre o sofrimento e a resistência humana. O filme, por sua vez, é uma experiência sensorial e visualmente devastadora, que fala diretamente ao corpo e à emoção. Juntos, eles se complementam: um faz o outro ganhar ainda mais significado.

Por fim, tanto no papel quanto na tela, “A Longa Marcha” segue sendo uma história sobre a humanidade diante do absurdo. É um lembrete de que seguimos caminhando, mesmo sem saber por quê — e talvez seja essa a beleza (ou o horror) da vida. Ler o livro e assistir ao filme é percorrer dois caminhos diferentes para o mesmo destino.

Crítica do filme A Longa Marcha | A jornada é longa e cheia de horrores

O jovem Raymond (Cooper Hoffman) está prestes a participar de uma famosa prova anual de resistência. Ele é apenas um entre dezenas de adolescentes dispostos a encarar “A Longa Marcha”, uma competição em que os participantes devem manter uma velocidade mínima de caminhada — ou levam um tiro. O evento atrai multidões e termina apenas quando restar um sobrevivente. Até onde Raymond está disposto a ir?

Acima está a sinopse oficial de “A Longa Marcha”, mais um longa-metragem baseado em uma obra de Stephen King. Pelo breve resumo, fica o questionamento: um filme em que os personagens simplesmente caminham sem parar pode realmente prender a nossa atenção? Como criar tensão em uma história que depende quase inteiramente de diálogos e longos silêncios?

alongamarcha00 8466aFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Sem dúvidas, esta era uma missão quase impossível. Não por acaso, o próprio Mike Flanagan — diretor do excelente filme “A Vida de Chuck” (outra adaptação recente de Stephen King) —, mencionou que estava muito interessado em ver fariam essa adaptação de The Long Walk, sugerindo que era muito complexa essa tarefa. E, de fato, parecia um trabalho fadado ao fracasso — até agora.

Antes de continuar com meus argumentos, deixo abaixo a playlist da trilha sonora oficial do filme (que depois comentarei sobre) para você sentir a emoção da Longa Marcha enquanto lê esta crítica. Aperte o play e aproveite a jornada!

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” é aquele tipo de filme que não apenas te prende pela tensão, mas te consome lentamente — assim como a jornada de seus personagens. Baseado na obra homônima de Stephen King, escrita sob o pseudônimo Richard Bachman, o longa dirigido por Francis Lawrence (que você provavelmente conhece de “Eu Sou a Lenda”, “Jogos Vorazes” e “Constantine”) surpreende por conseguir transformar uma narrativa essencialmente introspectiva em uma experiência cinematográfica angustiante, intensa e emocionalmente devastadora.

E ainda antes de entrar em detalhes, se você já leu o livro (ou pretende ler) e está se perguntando se tem muitas diferenças entre o obra literária e o filme, a resposta é sim! No entanto, eu considero que todas as mudanças foram muito justificáveis para a dinâmica do longa funcionar melhor e nada do que foi alterado altera significativamente o andar da carruagem. Todavia, para entender melhor essas adaptações, recomendo que você clique aqui para ler meu texto comparando o livro A Longa Marcha e o longa-metragem.

A Longa Marcha vale a pena?

A Longa Marcha é uma adaptação ousada de Stephen King que impressiona com direção precisa, atuações marcantes de Cooper Hoffman e David Jonsson, tensão constante e final surpreendente, transformando a caminhada mortal em uma experiência cinematográfica intensa.

Da página à tela: o impossível virou cinema

Logo de início, o filme estabelece um tom sombrio e realista. A ambientação dos anos 1970 é impecável — uma decisão acertada que preserva a essência da história original. Trazer essa trama para os tempos atuais seria uma tarefa quase impossível, não só pelas diferenças tecnológicas, mas porque o conceito da “Longa Marcha” depende muito dessa atmosfera de isolamento, vigilância militar e ausência de questionamento popular — sem dúvidas que uma história similar ambientada em tempos recentes seria extremamente complexa de produzir.

alongamarcha01 3ca23Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

O roteiro é eficiente em apresentar os personagens sem precisar recorrer à exposição excessiva ou muitas cenas paralelas (os flashbacks são bem raros aqui). Em poucos diálogos, entendemos suas motivações, seus medos e suas esperanças. Esse dinamismo faz com que o público se conecte rapidamente, o que torna cada perda ainda mais dolorosa. A camaradagem que se forma entre os participantes é o que dá alma ao filme — uma amizade improvável em meio à certeza da morte.

Visualmente, “A Longa Marcha” é austero e belíssimo. As paisagens vazias, a fotografia fria e os contrastes de luz e sombra criam um cenário que reflete o esgotamento físico e psicológico dos personagens. Cada passo dado pelos jovens carrega peso — e cada rosto abatido parece gritar por redenção.

alongamarcha02 4eac1Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Aliás, falando em esgotamento, eu acho que é quase inevitável ver este filme (ou mesmo ler a obra original) e não ficar se questionando: mas será mesmo que é possível caminhar centenas de quilômetros sem parar? Alguém já fez isso no mundo real? Bom, eu fui pesquisar e, segundo o site Live Science, tudo depende da definição de "caminhar sem parar".

No conteúdo publicado em fevereiro de 2025, o site informa que Dean Karnazes detém o recorde não oficial da corrida mais longa sem dormir, com 563 km (350 milhas), que ele correu em três dias e meio em 2005. Já em 2023, o ultramaratonista Harvey Lewis estabeleceu um novo recorde em um tipo de corrida de longa distância chamada Backyard ultra. Nesse tipo de competição, os corredores completam um circuito de 6,7 km (4,17 milhas) a cada hora, até que reste apenas um corredor em pé. Lewis correu 108 desses circuitos no equivalente a 4,5 dias, totalizando 724 km (450 milhas), com apenas alguns minutos ao final de cada hora para descansar antes de recomeçar.

Voltando às considerações sobre o filme, mas ainda mantendo nesse tópico, vale ressaltar como a direção de Francis Lawrence é precisa e corajosa. O ritmo é constante e exaustivo, até porque realmente precisa ser, já que os participantes devem continuar andando — sem sequer uma pausa para amarrar os cadarços — em uma velocidade superior a 5 km/h.

alongamarcha03 99b3fFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

A tensão dos enquadramentos é palpável, e cada pausa ou silêncio é tão importante quanto os momentos de violência. O cineasta equilibra a brutalidade do conceito com uma sensibilidade inesperada. Mesmo nas cenas mais duras, há espaço para empatia — e é aí que o filme mais se destaca: ao lembrar que, antes de competidores, aqueles jovens são pessoas.

O horror de continuar vivo

Para obter êxito em sua realização, o filme conta com um elenco diversificado — como exige a história original — e repleto de talentos inesperados. Cooper Hoffman (filho do lendário Philip Seymour Hoffman) entrega uma atuação impressionante como Raymond, o jovem que decide participar da prova mortal e que serve como fio condutor da narrativa.

Ainda assim, quem muitas vezes se apropria das atenções, de forma quase natural ao seu personagem, é David Jonsson, em uma performance carregada de nuances. Ele é o coração emocional do filme, com uma presença magnética, vulnerável e intensa.

alongamarcha04 8c24bFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Somando-se aos dois, Ben Wang e Tut Nyuot completam o núcleo principal da história — e é o dinamismo entre eles que sustenta essa longa jornada. Os diálogos, que começam de forma curiosa, ganham peso e cumplicidade ao longo do caminho, criando momentos de emoção genuína que tornam a caminhada mais humana do que competitiva.

Já Charlie Plummer adiciona um toque de insanidade que vem em boa hora: seu personagem quebra o ritmo da caminhada com momentos de desconforto e tensão, dando ao longa uma energia imprevisível. E, para completar o elenco, Mark Hamill surge em um papel secundário, quase caricatural, mas eficaz — o veterano cria uma figura repulsiva que simboliza o sistema desumano por trás da competição. Ponto para o Jedi.

alongamarcha05 0e710Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Vale dizer que o filme é violento — e não pouco. Algumas execuções são gráficas e viscerais, o que certamente vai dividir opiniões. Pessoalmente, achei que em alguns momentos o excesso poderia ser substituído pela sugestão. O medo do que não se vê é, muitas vezes, mais eficaz. Ainda assim, é inegável que a violência faz parte do impacto que a história quer causar. Afinal, estamos diante de uma distopia cruel, em que a própria vida é o prêmio final.

A trilha sonora de Jeremiah Fraites,  que mencionei no começo do texto, é outro acerto notável. Minimalista, inquietante e melancólica, ela pontua a narrativa com delicadeza e cria uma atmosfera de urgência e desespero. As notas, às vezes cadenciadas e, em outras situações, longas e tensas funcionam como uma espécie de batimento cardíaco coletivo — uma lembrança constante de que o tempo (e a distância) estão sempre correndo.

O final, sem dúvidas, é um dos grandes trunfos da adaptação. Ao contrário do livro, que opta por um encerramento mais ambíguo e filosófico, o filme entrega algo mais ousado e emocionalmente satisfatório. Há coragem e justiça em sua conclusão, um fechamento que dá sentido à longa caminhada — tanto literal quanto simbólica.

No fim das contas, “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” é mais do que um filme de terror ou suspense. É uma reflexão amarga sobre propósito, sacrifício e a busca insaciável por reconhecimento. Francis Lawrence e o roteirista JT Mollner conseguiram o que Mike Flanagan — e boa parte dos fãs — achavam impossível: adaptar “A Longa Marcha” sem perder sua alma. O resultado é uma das melhores e mais intensas experiências cinematográficas do ano.