Crítica do filme Rosa e Momo | Um amor improvável

Uma das produções mais recentes da Netflix é uma combinação inusitada de reggaeton italiano com Laura Pausini em múltiplos idiomas, o retorno de Sophia Loren e a estreia surpreendente do talentoso Ibrahima Gueye.

"Rosa e Momo" é um filme italiano dirigido por Edoardo Ponti, com roteiro assinado em coautoria pelo próprio diretor, Ugo Chiti e Fabio Natale. Apesar de fazer todo sentido dentro do contexto da película, que se passa na Itália, o livro que deu origem ao filme se passa na França, no bairro Belleville, em Paris.

A obra "A Vida Pela Frente", de Romain Gary, trata de um assunto que é hoje uma questão urbana importante de direitos humanos, cultura e educação: a vida e a perspectiva das crianças filhas de imigrantes e refugiados na Europa.

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Por se tratar de uma situação que marca todo o continente é que a história encontra eco também na Itália, onde foi situada na cidade portuária de Bari, capital da região de Puglia, no sul italiano.

A geografia é importante na história, porque tanto a cidade quanto toda a região, que são costeiras, recebem uma grande quantidade de imigrantes de diferentes regiões africanas, asiáticas e do Oriente Médio. É de uma dessas áreas que vêm o protagonista Momo - apelido para Mohammed -, menino senegalês de origem muçulmana cuja mãe foi morta e que, por isso, está sob os cuidados do Estado.

O responsável por Momo é o Dr. Coen (Renato Carpentieri), que trabalha com assistência social, mas também é médico e acompanha a saúde de Madame Rosa, interpretada por Sophia Loren.

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É graças ao doutor que as histórias de "Rosa e Momo" se encontram, de maneira que o médico consegue convencer uma já idosa ex-prostituta a cuidar de Momo por algumas semanas, até que ele encontre um lar para o menino. Embora esteja resistente à ideia no começo e ache o menino uma causa perdida, ela aceita a tarefa, acreditando que o dinheiro que o médico pretende lhe pagar por isso será útil.

Complementares

Imagine ser um menino de apenas 12 anos e ter a oportunidade de contracenar com uma verdadeira lenda do cinema mundial. "Rosa e Momo" é apenas o primeiro longa-metragem de Ibrahima Gueye, o que é uma grande surpresa, uma vez que a atuação do ator mirim é de uma perfeição impressionante.

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O menino incorpora o personagem com um talento inquestionável, com tanta maestria que, em muitos momentos, rouba a cena e tira a atenção até mesmo da própria Sophia Loren. Por outro lado, a experiência da atriz, que estava há dez anos afastada das câmeras e, aos 86, retorna para esta joia de filme, não passa despercebida.

Embora o filme inteiro funcione muito bem e outros atores e personagens sejam interessantíssimos e muito bem construídos - como é o caso de Abril Zamora (Lola), Babak Karimi (Hamil) e Iosif Diego Pirvu (Iosif), é na dança entre "Rosa e Momo", na sintonia entre Sophia e Ibrahima, que a história acontece e envolve o espectador.

Simplicidade e sensibilidade

O roteiro de "Rosa e Momo" não tem nada de novo nem retrata uma situação muito surpreendente, já no trailer todo o plot fica bastante óbvio. É um daqueles títulos que nem os spoilers conseguem estragar a experiência, porque qualquer pessoa que leia a sinopse já sabe o que vai acontecer.

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Mas é justamente na simplicidade da história e na qualidade da narrativa em que se encontra o trunfo de um filme como esse. Ver pessoas tão diferentes encontrarem conforto e carinho no sofrimento de cada um, nas diferenças e nas dores compartilhadas é o que faz com que o público se sinta abraçado pela tela.

Embora a imigração seja o tema central da trama, "Rosa e Momo" consegue passar também por outros temas paralelos que dialogam com essa questão central, da marginalização e do tráfico de drogas à maternidade, ao preconceito, à religião e à velhice. Mas nada disso resume o filme. No centro de todo esse contexto, está a generosidade, que parece ser a essência de tudo.

Karatê Kid e Cobra Kai | Nostalgia never dies!

Terminei de assistir à terceira temporada de Cobra Kai. Confesso que me lembrou um pouco do insucesso do último Star Wars. No entanto, há muitos "no entantos". São direções diferentes: Star Wars quis agradar pouco os fãs da velha-guarda e muito os fãs recentes, que talvez nem chegaram a ver os episódios IV, V e VI da trilogia clássica. Assim, Star Wars se manteve sem decidir uma direção definitiva para a trama, sobretudo com soluções mirabolantes aos protagonistas no final, infelizmente.

Cobra Kai, por sua vez, arriscou também, mas na direção de agradar novos fãs, e o fez com moderação. Explico: na primeira e segunda temporadas, notei muitas micronarrativas do tema High School, que passaram da conta, com muito foco no staff juvenil. No entanto, o link com o seu antecessor fundamental, "Karatê Kid - A Hora da Verdade", necessitava dessa trama, pois muito dela foi criada no ambiente da escola.

Enfim, diferente de Star wars, o rumo que a série Cobra Kai foi tomando nas duas primeiras seasons foi me agradando à medida que se manteve fiel ao elenco e plot original de Karatê kid, de forma a incorporar também novos personagens e relacioná-los aos elenco original.

Cobra Kai Season 3: sucesso e relação profunda com Karatê Kid

Achei que a Season 3 de Cobra Kai, lançada pela Netflix na primeira semana de janeiro de 2021, iria focar mais naquele universo escolar, mas não, pois aprofundou os dramas do quarteto principal da série: Larusso (Daniel-san), Johnny Lawrence (o loirinho do Cobra Kai, ator principal da série, interpretado por William Zabka), Kreese (o brucutu Martin Kove) e Ali (com o suspense da volta da linda Elisabeth Shue).

Penso que a série correu riscos ao tentar agradar gregos e troianos e fez direito. O drama High School diminuiu (spoiler agora), o que deu espaço para Elisabeth Shue reaparecer. Nas cenas, a sua personagem, Ali, dá o seu recado, inclusive um recado social para aqueles que se reencontram e isso não precisar ser sempre sexualizado, como se todo encontro de amizades antigas (o termo inglês “reunion”) rendesse cenas “calientes”.

Como agradar gregos e troianos? Polemizando e aproveitando trechos do filme original? Correto!

Enfim, acho que os encaixes entre Lawrence, Larusso e Kreese, com respeito aos seus passados e trechos das antigas, inclusive com alguns atores das antigas, convidados a atuar de novo (das produções Karatê Kid 1 e Karatê Kid 2), agradaram-me bastante.

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Aos fãs das antigas, recomenda-se rever os dois primeiros filmes citados, pois há muitas situações inexplicadas resolvidas em Cobra Kai:

  • Seria o chute de água de Daniel-San válido naquela disputa do primeiro filme que lhe rendeu o título local?;
  • Johnny Lawrence é realmente o vilão do primeiro filme ou ele seria alvo de bullying do próprio Daniel-san, o coitadinho do primeiro filme?;
  • Alguns personagens de Karatê Kid 2 reaparecem na season 3 de Cobra Kai, assim, qual é a sua importância?

Enfim, são perguntas interessantes para os fãs nostálgicos, bem como uma abertura interessante para os novos fãs da série, que também são contemplados com atuações mirins muito boas, sobretudo nos dramas juvenis e nas cenas de ação. Karatê Kid e Cobra Kai: nostalgia never dies!!!

Crítica do filme Regras da Atração | Filme universitário sem sertanejo

Com a célebre frase “I am Peter, the freshman”, esse impostor (cujo nome verdadeiro é Sean Bateman) é interpretado por James Van deer Beek, que nos brinda com sua entrada no filme “Regras da Atração” (The Rules of Attraction - 2002). Há mais de vinte anos, vocês se lembram dele na série Dawson’s creek, de 1998? Lá, James Van deer Beek era Dawson, um adolescente inspirador, aspirante a diretor de cinema.

Já em “Regras da Atração”, o rapaz dócil da série adolescente transforma-se em Sean Bateman, ou como se autodenomina: um “emotional vampire”, um vampiro sociopata que vive das emoções alheias e, nas horas vagas, um traficante de drogas com tendências suicidas.

Na Candem College, ele conhece Lauren, interpretada por Shannyn Sossamon (estrela de “A Entidade 2”, lançado em setembro de 2015 no Brasil), uma jovem universitária que passava por uma separação complicada. No curso de suas vidas, eles se chocam com a história de Paul, interpretado por Ian Somerhalder (o Damon, de “The Vampire Diaries”).

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No filme, aparecem outros atores e atrizes “feios”, como Jessica Biel, Kip Pardue, Kate Bosworth, Colin Bain; e bota pessoal bonito no filme! Assim, o triângulo amoroso está composto: Paul gosta de Sean, que gosta de Lauren, que mantém uma queda pelo ex-namorado Victor, que não está nem aí para Lauren.

Sem clichês universitários e com humor ácido

O filme é baseado no livro homônimo (The Rules of Attraction) de Bret Easton Ellis, de 1987. Esse escritor também ficaria famoso pelo seu romance de 1991, “Psicopata Americano”, cuja adaptação fílmica (American Psycho, 2000) rendeu a interpretação mais inesquecível de Christian Bale.

O mais interessante é que “Regras da Atração” compartilha o mesmo universo das duas obras de Bret Easton Ellis, pois Sean Bateman, o suposto calouro vampiro de emoções, é o irmão mais novo de Patrick Bateman, o psicopata americano. Diferentemente de uma aventura clichê universitária da Sessão da tarde, “The Rules of Attraction” é ousado tanto na montagem (seu plano de expressão) quanto na temática abordada (seu plano de conteúdo).

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A expressão, na montagem, combina regras de flashback e de planos-sequência bem estruturados, que nos brindam com montagem contando histórias em paralelo, naquele esquema de “Cidade de Deus” (2002) e “Pulp Fiction” (1994), com a telinha dividida ao meio.

A respeito do plano de conteúdo, os percursos temáticos de cada personagem nos brindam com temas recorrentes nas narrativas de adolescentes universitários inconsequentes: tráfico de drogas, estupro, suicídio, bullying, sexualidade e voyeurismo. Inovador na narrativa nos parece a ironia presente na falta de atração dos personagens entre si e pelas outras pessoas, o que vai na contramão do título “Regras da Atração”, pois, há nessa autodestruição dos comportamentos a tematização da rejeição social e do “fit in” (encaixe social) de “American Psycho”.

Apesar da acidez, um verdadeiro drama universitário

Apesar de se encaixar no gênero drama, o filme caminha pela comédia, pelo humor negro e pelo sadismo de certas situações. Por exemplo, enquanto uma aluna bêbada é estuprada no campus, outro rapaz a filma. Ao final da cena, ela recebe um jato de vômito do estuprador e ela pouco se importa com o fato.

Em suma, as histórias frustradas de cada personagem mostram como funciona a mente adolescente universitária (tirando alguns excessos propositais aqui e acolá) e, sobretudo, como podem nascer certos distúrbios psicopáticos a partir de ilusões amorosas e das temáticas acima apresentadas (drogas, estupro, suicídio, bullying, sexualidade e voyeurismo).

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Regras da Atração” tem nota 6,7 no IMDB e foi ganhador de alguns prêmios, o que é mais raro observar em narrativas sobre a vida ilógica de universitários sedentos por comportamentos autodestrutivos. Já os números do site Rotten Tomatoes diferem muito: 43% de aprovação dos críticos contra uma nota alta do público que mostra 71% de notas positivas.

É um filme realista na temática, com montagem interessante para quem se interesse por fotografia, e elenco com uma boa química, cuja atuação de Van der Beek é interessante, sobretudo, para quem o viu em Dawson’s Creek, agora na pele de um vilão sugador de emoções alheias.

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Critica do filme 2020 Nunca Mais | O ano terrível

Nem mesmo o “apocalíptico e integrado” Charlie Brooker — aquele que nos deprime e atormenta a cada episódio de Black Mirror — foi capaz de conjurar uma história tão desastrosa quanto à totalidade do ano de 2020. Depois de tantas desgraças que assolaram o pálido ponto azul do sistema solar, finalmente chegamos ao final do ano... e o que você fez?

Em 2020 Nunca Mais, Brooker e uma seleta de estrelas entregam uma desnecessária retrospectiva do “ano terrível”. Mesmo com a costumeira sátira sagaz da proverbial “pós-modernidade contemporânea” e seus componentes transumanos, o comentarista britânico parece não se esforçar muito entregando apenas uma versão menos entediante de uma retrospectiva jornalística.

Com nomes de peso como Samuel L. Jackson, Tracey Ullman, Hugh Grant, Lisa Kudrow, Kumail Nanjiani e Leslie Jones, entre outros, pseudodocumentário se limita a relatar os eventos com um toque de humor absurdo (quase que imperceptível dada a natureza surreal do ano em si). Enfim, se você é um daqueles poucos que consegue rir da desgraça, ou que quer sublimar um pouco da dor por meio do riso, 2020 Nunca Mais ainda é melhor do que o um “Globo Reporter”.

Isso não é muito Black Mirror

Como um narrador onisciente, Laurence Fishburne relata os principais eventos deste ano — que gostaríamos de esquecer — começando com os incêndios florestais australianos e o julgamento de impeachment de Trump, seguindo então para o começo da pandemia, o assassinato de George Floyd, o Brexit, as (in)decisões da eleição presidencial estadunidense chegando até a chegada do lançamento das primeiras vacinas para a COVID-19. Uma sorte de “especialistas” entrevistados entregam opiniões sobre os acontecimentos conforme as divisas entre absurdo se tornam cada vez mais etéreas.

Dash Brakcet (Samuel L. Jackson) é um repórter sério; Tennyson Foss (Hugh Grant) é um historiador cuja senilidade predileção por negronis parece fazê-lo confundir os eventos da realidade com Game Of Thrones; Tracey Ullman encarna uma irritada Rainha Elizabeth II, que não gostou nem um pouco da saída de Harry e Meghan da família real.

Painel diverso analiza adversidades

Jeanetta Grace Susan (Lisa Kudrow) basicamente nega qualquer coisa parecida com a verdade. Kumail Nanjiani é Bark Multiverse, a epítome do CEO de tecnologia, um sociopata egoísta que construiu um abrigo em montanha para si mesmo prevendo a iminente dissolução da sociedade, e de quebra fica absurdamente mais rico durante a pandemia. Enquanto isso, o cientista Pyrex Flask (Samson Kayo) vê suas tentativas de entregar fatos serem reduzidas a breves comentários ilustrados por cenas ridículas de arquivo.

Por fim temos a Dra. Maggie Gravel (Leslie Jones) que chega a inevitável conclusão de que quase todo mundo que não seja ela é um imbecil. Teoria confirmada reintegradas vezes por pessoas como Duke Goolies (Joe Keery), um “produtor de conteúdo” que de alguma forma ganha rios de dinheiro fazendo vídeos no qual apenas reage às notícias. E para deixar claro que o mundo realmente está cada vez mais imbecil, temos Gemma Nerrick (Diane Morgan) — literalmente uma das cinco pessoas mais comuns do planeta — e Kathy Flowers (Cristin Milioti), a personificação da “Karen” estadunidense cuja fonte de dogmas é o feed do Facebook e as correntes de WhatsApp.

Melhor deixar 2020 no passado

O grande problema de 2020 Nunca Mais é justamente o fato de ser uma obra de Charlie Brooker. O que passaria despercebido como uma produção ligeiramente engraçada fica ainda mais insossa se pensarmos no potencial que o olhar de Brooker traz, lembrando estamos falando o homem por trás da perspicaz série de antologia Black Mirror.

Condensando estereótipos em “testemunhas” que narram os eventos caóticos do ano, o roteirista não força a critica o suficiente, entregando apenas um amontoado “piadinhas” datadas diretamente relacionadas aos amalgamas em questão, sem aquele misto de acidez e desespero existencial que marca outras obras do roteirista. Além disso, o elenco — mesmo que recheado de nomes fortes de Hollywood —, parece entediado e assume que a mera contextualização de seus personagens será suficiente para empurrar a atuação.

Retrospectiva 2020, sério? Pra que?

Uma pena, especialmente no caso de Tracey Ullman e Hugh Grant que assumem a pele da Rainha Eizabeth II e de um historiador alcoólatra de tendências ligeiramente racistas, respectivamente. Sem qualquer interesse a dupla parece caricaturas exageradas saídas diretamente de esquetes da Praça é Nossa, Zorra Total ou Saturday Night Live (não se iluda amiguinho, é tudo a mesma coisa com níveis de qualidade variáveis). Dito isso, é preciso celebrar as atuações de Cristin Milioti e Lisa Kudrow.

As duas atrizes extraem o máximo de seus personagens e sem dúvida são o ponto alto de 2020 Nunca Mais. Cristin Milioti encarna com muita propriedade uma “Karen” — a típica radical negacionista suburbana estadunidense — que, graças ao desenrolar absurdo de 2020, finalmente pode por para fora seus preconceitos com o aval da Casa Branca que reverbera o mesmo preconceito e radicalismo. Por coincidência, ou não, Lisa Kudrow assume o papel de uma não-represente não-oficial da Casa Branca, que tenta desesperadamente defender os desmandos e desordem do governo a cada nova imbecilidade oriunda do gabinete presidencial.

"Retrospectiva 2020! Por que vocês querem fazer isso? Sério. Por quê?”

No final das contas, 2020 Nunca Mais é um título mais do que apropriado para um ano horrível, e um filme nada marcante. Se você procura um evento catártico que realmente expurgue o ano da pandemia é melhor buscar em outro lugar. Todavia, se não queremos repetir os mesmos despautério no futuro, é melhor manter o passado vivo na memória, e se temos que relembrar a história de 2020, melhor que seja com um mínimo de humor.

Critica do filme O Mistério de Silver Lake | O mistério faz tudo valer a pena?

Depois do interessante, Corrente do Mal, David Robert Mitchell segue intrigando audiências com sua nova produção e mostra que tem tudo para se tornar um dos diretores “fetiche” daquele seu amigo “cinéfilo cult”. Com aspirações “Lynchnianas”, o diretor e roteirista cria um bom neo-noir em “O Mistério de Silver Lake”, que prende a atenção mesmo que deslizando em exageros surreais e a ausência de uma edição coerente.

Sem pedir desculpas pelo seu estilo, Mitchell pode até se perder dentro da própria teia conspiratória que guia a —  desnecessariamente longa — trama da película, mas ainda consegue entregar um filme envolvente que entrará no catálogo de “pérolas cult” da próxima geração de hipsters. Por sinal, a própria percepção desta afirmação como crítica ou elogio ao trabalho do diretor é justamente parte do seu apelo, e um ótimo indicador de seu estilo singular, que não pretende agradar a todos.

Enquanto Michell tenta coordenar a sua orgia metalinguística surreal, Andrew Garfield entrega uma das melhores atuações da carreira, em um movimento que desconstrói a sua imagem de gala, e se transforma em uma grande sátira a quintessencia hollywoodiana que o define, tanto como ator e personagem.

Em “O Mistério de Silver Lake”, David Robert Mitchell acerta mais do que erra, no entanto, seus defeitos prejudicam muito o desenvolvimento do filme, com um roteiro deliberadamente confuso, que mistura elegantemente elementos da cinematografia dos irmãos Coen e David Lynch, e uma edição pouco inspirada, além da longa duração, deixam o filme lento e pouco acessível, mas uma boa escolha para fãs do gênero e/ou de cinema autoral.

Qual é o mistério, velhinho?

Sam é o arquétipo hollywoodiano falido, um cara que aparentemente não trabalha, mas tenta manter a aparência com um carro estiloso, um apartamento repleto de memorabilia vintage, e um círculo de amizades povoado por pessoas com mais aporte financeiro que ele. Um dia, entre baseados, sexo casual e pequenas doses de voyeurismo, um breve flerte com a sua vizinha Sarah (Riley Keogh) acaba rendendo muito mais do que a ilusão de um romance cinematográfico. Antes mesmo que poder celebrar a conquista, Sam descobre que Sarah desapareceu durante a noite, sem qualquer indício de como ou porque.

Em meio a suas desilusões existenciais, ou como forma de reprimi-las, Sam embarca em uma missão de encontrar a “garota dos sonhos”, adentrando na proverbial toca do coelho que se esconde sob Silver Lake e a própria indústria cultural popular. Conspirações, cultos, figuras estranhas, mensagens escondidas e um assassino de animais de estimação aparecem como nós em um longo "Fio de Ariadne" que não leva até a saída do labirinto.

Sam é a epitome de uma juventude depressiva, incapaz de se identificar com qualquer coisa, que simplesmente se entrega ao destino na esperança de que o universo se alinha e que eles finalmente possam fazer parte de algo maior, mesmo que seja uma conspiração ou um culto. O Mistério de Silver Lake reúne pistas, detalhes, referências que indicam a reposta para o maior segredo do universo, ou não; como a própria vida do protagonista, nada realmente importa ou tem um significado maior.

Meus sentidos de aranha estão tilintando!

A arte do escapismo

Sem a mesma inspiração ou talento de obras como o delirante Barton Fink, o intoxicante Vício Inerente ou o onírico Cidade dos Sonhos, a viagem criativa de David Robert Mitchell celebra a liberdade narrativa apresentada pelos mestres que obviamente inspiram a sua criação, mesmo que não alcance — nem de longe — o mesmo patamar de competência. Ao juntar todas as “peças” do seu quebra-cabeças, Mitchell parece não ser capaz de encaixar elas adequadamente.

David Robert Mitchell mistura cinema de autor e de gênero em um filme inter interseccional

Somando mais acertos do que erros, “O Mistério de Silver Lake” é um filme incompleto. Mesmo que o diretor mostre bons elementos ao longo do seu desenvolvimento, ainda há muito que melhorar. Talvez pela ambição artística, ou pela simples falta de maturidade, Mitchell não demonstra a mesma habilidade que Lynch ou os irmãos Coen para lidar com um roteiro e uma história que necessariamente não leva a "lugar algum".

É fácil vislumbrar um futuro em que David Robert Mitchell e “O Mistério de Silver Lake” se transformem em itens "cult" altamente "fetichizados" por suas reflexões masturbatórias sobre o processo artístico, influencia cultural do entretenimento e o escapismo pelo extraordinário. Todavia, por enquanto, parece que as suas coisas ainda não estão maduras o suficiente.

Crítica do filme O Orfanato | Atmosfera de terror ou terror de atmosfera?

El Orfanato” (The Orphanage, 2007) é um dos poucos filmes que nos faz lembrar o momento plot twist do clássico “O Sexto Sentido”. Veja como a ótima parceria do diretor J. A. Bayona com a coprodução de Guillermo del Toro é capaz de concretizar em termos de suspense, quando se trata de terror de atmosfera, com pitadas Hithcockianas e captação de som envolvente.

Sabe aquele frio na espinha que temos ao assistir o clássico “O Sexto Sentido”? Pois é, com “O Orfanato” (título em português), acredito que temos um efeito tão ou mais surpreendente nos segmentos finais (sim, apesar de o andamento assustador nos prender, vocês podem criar expectativa para o final, pois, a mim, agradou muito quando me dei conta sobre a descoberta de Laura, a protagonista do filme).

Com produção executiva de Guillermo del Toro (que havia recentemente dirigido “O Labirinto do Fauno”, Pan’s labyrinth, 2006), e com direção de J. A. Bayona, a produção consegue misturar muito bem uma atmosfera de thriller (com muita tensão a todo momento, o que é difícil de se manter em filmes do gênero), trabalhar com jump scares bem pontuados, que acontecem em momentos certos e, para fechar, um som ambiente que nos faz pensar estarmos em um mundo de sonhos (pois tem uma reverberação estranha, em eco, imersiva).

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Em geral, o filme produz uma atmosfera que passa pelo crivo da protagonista e dessas mesmas impressões se vale para produzir um misto de signos complexos, como realidade e ilusão, loucura e paranormalidade, junto a traumas e a uma gratidão que a protagonista vai respeitar, mas a respeito da qual não saberemos se chegará a seus desígnios.

Loucura sob um viés ambíguo

A temática da gratidão, de cara, nos faz simpatizar com a protagonista. Laura foi criada em um orfanato para crianças deficientes. Ao crescer e se casar, ela e seu marido, o médico Carlos, resolvem adotar uma criança soropositiva, Simón. Para completar o desejo de Laura, compram uma mansão, que foi o mesmo casarão em que Laura fora educada.

Lá, fazem uma festa especial para Simón, convidam a vizinhança para que conheçam o lar de Laura, com vagas para crianças especiais (lembrem-se que o sonho de Laura envolvia a gratidão pelo local), e, a partir da festa, coisas estranhas acontecem, sobretudo o sumiço de Simón nos segmentos iniciais (não é spoiler, é bem no começo), que fará ligação com fatos passados acontecidos no orfanato.

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Com poucos personagens (além dos três citados, há mais três personagens paranormais e uma psicóloga - aliás, fato curioso: entre eles está Edgar Vivar, o Seu Barriga do Chaves), a trama alterna entre a localidade da casa e uma praia próxima, com foco em uma caverna sinistra, próxima à enseada, lugar que dá início ao mistério da trama.

A partir disso, o terror de “O Orfanato” será elaborado a começar pelo passado dessa casa, que se constrói de momentos os quais Laura lembra aos pedaços, em que aos poucos vai remendando um quebra-cabeça mental. A sua aparente confusão mental é revelada à medida que se revela a sua infância no local, pois ela sempre teve que tomar psicotrópicos (no filme, percebemos aos poucos que ela teve problemas mentais, e essa ambiguidade entre estar sã ou revivendo algo do passado reflete-se na maneira com que lida com o marido e com o sumiço do filho.

Um terror normal, paranormal ou além do normal?

Enfim, os dois locais onde se passa a maioria da história (na casa e nas cavernas à beira-mar) constroem também a temática da paranormalidade, tendo em vista que o thriller nos faz ficar divididos entre a realidade, a aparição de seres estranhos e a loucura, até os momentos finais.

Embora a paranormalidade seja parte da temática principal, a ambiguidade que separa a sanidade da loucura perpassa o plot desse filme, uma vez que não sabemos se vivemos a loucura de um personagem, se a insanidade apossou-se de todos ou se há uma maldição no local (em um dos momentos, até a ciência psicológica e a crença paranormal entram em conflito para averiguar o que se passa de fato naquela casa, um antigo orfanato misterioso para crianças especiais).

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O Rotten Tomatoes concede 87% em média tanto pela crítica quanto pelo público (concordo com o Rotten, pois eu concederia entre 8 e 8,5). O site IMDB, sempre mais exigente, concede 7,4, também uma ótima nota a esse tipo de filme, que mistura terror, atmosfera e um excelente drama sobre a compreensão da loucura e de si próprio.

O mérito desse filme está na construção da atmosfera de tensão, semelhante aos primeiros filmes de M. Night Shyamalan, sobretudo “O Sexto Sentido”, pois os sustos são dosados e a construção da tensão mantém-se em todos os segmentos. Que bela contribuição fez Guillermo del Toro na coprodução executiva desse filme, aliás, pouco visto a quem pergunto, por isso, sempre gosto de indicá-lo, pois é um filme além do normal, que faz bela contribuição ao cinema do subgênero terror de atmosfera.

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