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Crítica do filme A Teoria de Tudo

Buracos Negros (ou a Falta de Humanidade)

Gustavo Loeff Zardo

por
Gustavo Loeff Zardo

Terça, 20 Janeiro 2015
Fonte da imagem: Divulgação/
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Na definição de gênio, quando consultado um oráculo ou um google, podemos encontrar respostas das mais variadas qualidades. Porém, é curioso, e unânime (façam a pesquisa) que a criatividade é uma característica que faz a base de qualquer pensamento que seja designado a um gênio. E o que nos mantém criativos, falaram por aí, está relacionado a uma completa ignorância e falta de habilidade de se adequar ao que está posto.

Aristóteles, aquele filósofo que dispensa parágrafos de apresentação, foi condenado a tomar veneno por conta que seus pensamentos eram considerados aliciadores da juventude. Ao saber de sua pena, o filósofo retornou a sua cela, pegou um papel e uma pena e começou, incansavelmente a tentar encontrar uma formula para calcular a área de Constantinopla (Cujo formato era de um polígono).

Um de seus discípulos foi ao encontro do mestre para dar o último adeus, porém ao chegar próximo da cela e ver o empenho de Aristóteles para tentar aprender aquele área, o discípulo questiona enfurecido: “Porque mestre você desperdiça seus últimos momentos tentando aprender área?” O mestre, como é comum aos mestres, responde calmamente: “Estou tentando aprender essa área porque é meu desejo aprender uma área.”

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Entenderam crianças? O que me fez lembrar dessa passagem, foi a cena em que o gênio dos buracos negros e tema central do filme, Stephen Hawking, é surpreendido com a notícia de sua doença degenerativa, esclerose lateral amiotrófica, e que devido a isso ele terá apenas dois anos de vida.

Nesse momento ele se reclusa em seu quarto e fica por lá por algum tempo, até que sua namorada na época, Jane Wilde (e autora do livro que deu origem ao filme), resolve entrar no quarto a qualquer custo e saber porque Hawking estava desaparecido. Ao entrar no quarto, o físico estava estudando um livro para aprender estratégias de xadrez, nesse momento Jane pergunta: “Porque você está fazendo isso?”, Hawking responde: “Tenho somente dois anos de vida.”

O filme é uma adaptação do livro da ex-esposa de Stephen Hawking, Jane Wild, intitulado “Viajando para o infinito: Minha vida com Stephen”, com roteiro de Anthony McCarten, um cara ainda não muito famoso aqui no Brasil, e conta a biografia de Hawking pelo ângulo de visão de Jane e da relação dos dois juntos. Portanto, o filme não é de fato uma biografia, mas o relato de um período, talvez o mais importante, da vida de Stephen.

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Eu não li o livro que inspirou o filme, mas o roteiro adaptado é surpreendente. Todos os acontecimentos são muito bem descritos e aprofundados de uma maneira silenciosa e imperceptível, de modo que você é levado para o fundo de um abismo (ou para um buraco negro) sem que perceba que já está extremamente imerso na narrativa. Como o filme se passa por um período relativamente longo na contagem cronológica, muitos pulos temporais são feitos, porém nada é perdido. Sem dúvida que muita coisa é deixada de lado, mas tudo que é apresentado durante a história é aproveitado pelo espectador, sem deixar lacunas entre os acontecimentos.

Eis outro ponto que gostaria de falar. O roteiro não foca quase nada nas teorias de Hawking ou em seu desenvolvimento intelectual e até mesmo no seu caminho ao estrelato. Quem quer saber sobre essas coisas leia seus livros, ou revistas de fofoca. O filme se volta a descrever um Stephen Hawking humano, que precisa lidar com um mundo a sua volta para conseguir viver e para atrapalhar ele desenvolve uma doença degenerativa e mortal. Um roteiro pronto. A vida imitando o vídeo.

Incrívelmente belo. É assim que eu descrevo as cenas do filme. O diretor, James Marsh (Agente C – Dupla identidade), o diretor de fotografia, Benoît Delhomme (O Menino do Pijama Listrado) e a diretora de elenco, Nina Gold (Os Miseráveis), fizeram um trabalho primoroso na construção de cada uma da cena. Aqui darei destaque a uma só que me surpreendeu com a simplicidade e com a beleza que é retratada.

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Stephen e Jane começam a conversar sobre uma das teorias de Hawking, que afirma que se os planetas estão se distanciando cada vez mais, portanto se voltássemos o tempo, chegaríamos a um momento em que todos os planetas e galáxias estariam juntos em uma única unidade.

Nisso Jane começa a fazer comparativos ao tempo que os dois tem juntos e quanto isso não importa, porque a cada novo minuto era só eles voltarem o relógio por mais dois minutos e assim seriam eternos um para o outro. Enquanto ela descreve esse “retorno no tempo”, ela dá a mão para ele começa a girar em sentido anti-horário enquanto a câmara acompanha. Bem... descrevendo assim não parece grandes coisas, mas assim que vocês virem essa cena, por favor comentem sobre. Eu achei fabuloso.

De verdade eu nem queria falar sobre isso, porque ela fala por si só e todo mundo que eu conversei concordou, e todos os site de crítica concordaram e todos os prêmios mais importantes do mundo também deram seu aval. A atuação é impecável. Não só pelo casting que acertou em cheio na hora de chamar os atores (que são absurdamente iguais a Hawking e Jane), mas pelo grau de dificuldade que é retratar uma pessoa real e ainda colocar a sua própria personalidade em cima da personagem.

Eddie Redmayne (Stephen Hawking), que está abocanhando todos os prêmios possível de melhor ator, faz você sentir o que o físico está demonstrando naquele momento e mexendo o menor número de músculos possível, e ainda sem falar absolutamente nada. É possível? Ele tornou possível.

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A Teoria de Tudo não é somente a descrição da vida humana de um ser de outro planeta (afinal, é isso que os gênios são). Mas é também um tipo de lição de humanidade, um tipo de cura pra doença do mundo, pra falta de ser humano. Atenção, amor, perseverença, paixão e uma dose fodida de não adaptação constroem um mundo melhor. Valeu, Falou.

Fonte das imagens: Divulgação/

A Teoria de Tudo

A incrível história de Jane e Stephen Hawking

Diretor: James Marsh

Duração: 123 min

Estreia: 29 / Jan / 2015

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Gustavo Loeff Zardo

Meu sonho é ter barba.

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