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Crítica do filme A Vida Invisível

As solidões cotidianas das mulheres

Lu Belin

por
Lu Belin

Domingo, 05 Janeiro 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Vitrine Filmes
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Não existe outra forma de escrever sobre “A Vida Invisível” sem deixar claro sob que perspectiva se fala. Então, desta vez peço licença para este texto em primeira pessoa e devo apontar desde já que - atenção, leitor! - esta crítica contém alguns spoilers.

Dirigido por Karim Aïnouz e com roteiro adaptado por ele próprio e por Murilo Hauser e Inés Bortagaray a partir da obra de Martha Batalha, “A Vida Invisível” foi o filme selecionado para representar o Brasil no Oscar 2020, embora não tenha entrado na lista de finalistas.

Diferente da versão literária, que se chama “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e que conta a história da protagonista a partir de sua própria e única perspectiva, a película abre também um outro o olhar, o da irmã de Eurídice, Guida.

Até então, muito próximas e inseparáveis, as duas irmãs se afastam quando, apaixonada por um marinheiro grego que está de passagem pelo Rio de Janeiro, Guida (Julia Stockler) decide, num impulso, embarcar no navio e ir embora com ele para a Grécia. A viagem não sai como planejado e ela acaba voltando ao Brasil, grávida e sozinha, mas é expulsa de casa pelo pai, um português conservador que acha que a filha está arruinada.

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Com o pai rechaçando a memória da irmã e agora casada com Antenor (Gregório Duvivier), um homem tão tradicionalista quanto seu progenitor, Eurídice (Carol Duarte) luta sozinha para não deixar morrer seu sonho de ser uma grande pianista. Sozinhas na família, mas com o apoio de outras mulheres, elas seguem seus caminhos tendo apenas a si próprias e a memória da outra onde buscar forças para lidar com as agruras que suas novas vidas lhes trazem.

Performar a solitude

Sensível aos detalhes e à complexidade da solidão feminina - especialmente daquela que acomete as mães e esposas das famílias tradicionais - “A Vida Invisível” consegue lançar luz sobre uma a parte da vida das mulheres que costuma ficar nas sombras. É nos bastidores de uma festa de casamento, de um parto, de um simples jantar em família que estão os sinais da pesadíssima carga mental feminina. É nos refúgios dos banheiros femininos e nos ombros de outras mulheres que elas encontram a força para enfrentar desafios que, em tantas vezes, elas sequer queriam.

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Eurídice Gusmão é a sua mãe, sua tia, sua avó e tantas outras mulheres que se anularam ou continuam se anulando para viver a vida que foi ditada para elas por outras pessoas - em geral, homens. E é preciso muita sensibilidade no olhar para conseguir retratar tudo isso em algumas horas de filme, uma tarefa que “A Vida Invisível” realiza muito bem, graças, em boa parte, ao talento das duas atrizes principais, Carol Duarte e Julia Stocker.

A tristeza e frustração estampadas no rosto de Eurídice, a dor e o abandono refletidos nos olhos de Guida, disfarçados com sorrisos quando a vida assim demanda, são grandes méritos das atrizes, que entregam suas personagens impecavelmente mesmo nas cenas mais impossíveis de fazer. Dispensa comentários também a participação de Fernanda Montenegro, responsável por arrancar as lágrimas dos espectadores que, até a cena final do filme ainda não haviam chorado. A diva do cinema e da televisão brasileira não é quem é à toa.

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O problema é o Antenor

Embora o filme de Aïnouz seja essencialmente sobre as mulheres, outro personagem que merece atenção é o do marido de Eurídice, Antenor, que representa muito bem toda uma geração de homens, pais de família respeitáveis que não hesitariam em sacrificar a alma das mulheres pela estabilidade do clã.

À parte o fato de que nunca mais vou conseguir assistir nenhum vídeo do Porta dos Fundos sem sentir raiva do Gregório Duvivier, é justo dizer que a atuação dele em uma peça que não é de humor, fora da zona de conforto do comediante, não é exatamente um fracasso.

Embora oscile entre exagerada e aceitável, a performance de Duvivier faz pensar que ele talvez seja um daqueles artistas cujo trabalho está tão atrelado a apenas um gênero, que fica difícil para o espectador separar o que é personalidade e característica pessoal do que é atuação.

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De qualquer forma, fica muito clara a intenção de Ainouz ao escalar justamente o humorista de Porta dos Fundos para este papel. Ainda assim, não estou totalmente convencida de que o alívio cômico que ele tenta trazer para o filme funciona, de fato. Está mais para um desespero cômico. Algumas das participações de Duvivier provocam risos forçados de canto de boca, quando o espectador ri, mas de nervoso.

No entanto, nem mesmo a tentativa de arrancar risadas a partir do personagem consegue retirar dele o peso da responsabilidade pela infelicidade de tantas mulheres. Antenor representa a única persona cuja satisfação parece importar nas histórias das famílias tradicionais, mas o que sustenta essa lógica, na verdade, são as tantas Anas, Zélias e Filomenas. A primeira, por meio da autoanulação, as duas últimas, pelo suporte que fornecem às outras mulheres.

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É uma pena que a película não consiga aprofundar a história destas personagens, passando brevemente por cada uma. Seria interessantíssimo conhecer também a vida invisível de pessoas como Filomena (Bárbara Santos), a mulher negra de periferia que conseguiu, a duras penas, uma casa para morar, e que, sozinha, é o grande pilar de sustentação para tantas outras mães.

É ela quem fica com os filhos e filhas das vizinhas para que estas consigam trabalhar, é ela quem fornece o suporte de que as outras tanto precisam para seguir em frente. Conheço algumas filomenas na vida, e arrisco dizer que se encontram ainda mais fundo nas sombras do que minhas Eurídices e Guidas.

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Ao nos obrigar a prestar atenção nas lutas pessoais de tantas mulheres, nas pequenas anulações cotidianas que sofrem e em como tudo isso nos transforma, diariamente, “A Vida Invisível” poderia muito bem ser um grande viral feminista para nos deixar com ódio dos homens narra o cotidiano de um país inteiro em muito mais do que uma geração.

Embora se passe nos anos 50, ele é o retrato imperfeito de muitas famílias até hoje, imperdível para nos ajudar a olhar com mais empatia para as mulheres ao nosso redor. Elas não são invisíveis. Às vezes, apenas não queremos ver.

Fonte das imagens: Divulgação/Vitrine Filmes

A Vida Invisível

Um melodrama tropical

Diretor: Karim Aïnouz
Duração: 139 min
Estreia: 31 / Out / 2019

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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