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Critica do filme Alita: Anjo de Combate

Visão hiperfuturista meio embaçada

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Quinta, 14 Fevereiro 2019
Fonte da imagem: Divulgação/20th Century Fox
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Longe de alcançar o mesmo impacto que a obra de Yukito Kishiro, a adaptação cinematográfica do mangá cyberpunk Gunnm — publicado originalmente entre 1990 e 1995 e conhecido no ocidente como Battle Angel Alita, ou Alita: Anjo de Combate —, é uma mistura equilibrada de erros e acertos. Saído do limbo de desenvolvimento e sob a tutela de James Cameron e Robert Rodriguez, o filme acerta em cheio no visual, mas escorrega na narrativa.

A enxurrada de efeitos ajuda a construir uma ambientação ciberpunk imersiva e análoga a do mangá/anime original, com direito a grandes olhos amendoados (próprios dos “quadrinhos” nipônicos). Infelizmente, toda essa maravilha estética não tem paralelo no roteiro. A história é apressada e pouco envolvente, enquanto os personagens parecem “ocos” e sem essência.

Mesmo com alguns “bugs”, Alita ainda se destaca como um esforço interessante na adaptação para os cinemas de uma das obras mais icônicas dos mangás/animes japoneses. Entretanto, em nenhum momento a produção realmente alcança todo o seu potencial.

A arma dos sonhos

No filme seguimos a história da pequena Alita (Rosa Salazar), uma pequena ciborgue que é encontrada desmemoriada em um ferro-velho pelo benevolente cibercirurgião Dyson Ido (Christoph Waltz). Vivendo na Cidade da Sucata (Scrapintown), uma espécie de favela abaixo de Zalen — a última grande metrópole flutuante —, a dupla acaba criando uma relação de pai e filha, enquanto Ido e Alita tentam descobrir mais sobre o seu passado. Em tempo Alita lembra de sua história e de suas habilidades incríveis, sendo na verdade uma relíquia de guerra com poderes extraordinários e é aqui que encontramos os principais problemas do filme.

Por conta da necessidade de espremer muita informação em pouco tempo, o Rodrigues acaba fazendo algumas escolhas narrativas pouco eficientes. Paradoxalmente, o diretor consegue criar uma ambientação sólida, apresentando vários elementos da sociedade e como as coisas funcionam na Cidade da Sucata, entretanto isso não se traduz muito no crescimento dos personagens.

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Tudo acontece muito rápido, sem tempo para que o espectador acompanhe a jornada de cada personagem, forçando uma empatia que não emerge naturalmente. O filme ficou engavetado por mais de dez anos, seja por limitações tecnológicas ou criativas. James Cameron pensou em adaptar o mangá como um seriado, seguindo o sucesso de seu projeto anterior, Dark Angel (que aborda temas similares). Depois de abandonar a idéia, Cameron sugeriu que comandaria o primeiro filme de uma franquia, sendo que o roteiro original da primeira iteração teria cerca de 3 horas de duração.

Finalmente, em 2016, com a introdução de Robert Rodriguez, o projeto começou a ganhar contornos mais sólidos, chegando até a versão de Alita: Anjo de Combate que finalmente chegou às telas. Essas mudanças não comprometem o estilo do filme, mas certamente minaram a sua estrutura narrativa.

Uma coisa é certa, o filme é extremamente dinâmico e, na maior parte, faz um bom trabalho ao apresentar os diversos elementos que compõem o vibrante universo de Alita: Anjo de Combate. Rodriguez fica na sua zona de conforto e entrega o que faz de melhor, um filme de ação. Fica evidente o esforço de Rodriguez para trabalhar a história de maneira que as fundações estejam sólidas para que a franquia possa crescer livremente.

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Sentimentos vazios

Se o metaenrredo é bem amarrado, as histórias dos personagens acabam ficando em segundo plano e sem tempo de tela. Assim, fica difícil empatizar com todos sem acompanhar a sua evolução natural, no fim ficamos com a sensação de que os personagens não têm motivações reais e apenas reagem.

Essa falta de exploração narrativa acaba subestimando um elenco de apóio de alto calibre. Christoph Waltz, Jennifer Connelly e Mahershala Ali não exploram metade de seu talento e ficam reduzidos a coadjuvantes de luxo. E por sinal, antes que xiitas uivem sobre whitewashing, vale lembrar que a história original é totalmente ambientada no que sobrou dos Estados Unidos, nos arredores de Kansas City, Missouri, sendo que Kishiro não perde muito tempo alucubrando sobre isso.

Como o filme não tem tempo para explorar histórias paralelas, não temos como acompanhar o desenvolvimento de seus personagens e como resultado tudo parece raso. Sem saber exato o que motiva os personagens, todas as suas ação parecem desprovidas de emoção e um tanto exageradas ou deslocadas. 

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Começo da caminhada

Robert Rodriguez tem um estilo inteligente na hora de traduzir a arte seqüencial para o cinema. Assim como em Sin City, o diretor é capaz de transportar quadros inteiros das páginas dos quadrinhos/mangas diretamente para a tela, algo a se louvar quando o assunto é adaptações de mídias extremamente visuais.

Enquanto o roteiro pena para conciliar a estruturação de um metaenrredo superior ao mesmo tempo em que carrega um capítulo coerente e interessante, muito acaba se perdendo pelo caminho. O grande problema fica por conta da exploração dos personagens que se tornam rasos frente à profundidade da trama maior. Algo que certamente será melhor abordado no futuro da série.

Alita: Anjo de Combate soa contraditório, mas se faz entender.

Alita: Anjo de Combate é um ótimo filme de ação, uma boa razoável e um capítulo pouco elevado do que pode ser uma franquia muito interessante. Fãs de ação de ficção científica não devem se desapontar, mesmo porque, sobrepujando qualquer falha narrativa, temos um grande espetáculo visual repleto de ação, mesmo que desprovido de grande emoção. 

Fonte das imagens: Divulgação/20th Century Fox

Alita: Anjo de Combate

O sonho da arma

Diretor: Robert Rodriguez

Duração: 122 min

Estreia: 14 / Fev / 2019

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