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Crítica do filme Chocolate

Alegria no palco, tristeza no camarim

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 04 de Agosto de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Califórnia Filmes
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O circo é uma verdadeira fábrica de risos. A arte circense surgiu há milhares de anos e veio se moldando ao público com diferentes atrações. Entre tantas figuras, o palhaço sempre foi a mais icônica, incorporando a essência do circo tanto em sua aparência quanto em seu jeito de interagir com a plateia.

Tirando os apaixonados pelo mundo do circo, poucas pessoas sabem os nomes de palhaços famosos, mas há alguns personagens que marcaram época. É o caso de Chocolate, um artista que conquistou a simpatia dos franceses lá no final do século XIX, ao realizar apresentações em dupla com o palhaço Foottit.

Nascido em Cuba, por volta de 1868, Rafael Padilha foi vendido quando ainda era criança. Quando ficou adulto, sua única chance de ter uma vida melhor foi trabalhar em circos, interpretando geralmente selvagens ou criaturas que colocassem medo na plateia. Nesta época, os circos dos horrores ainda eram famosos e necessitavam de bizarrices.

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Foi num desses circos que seu caminho se cruzou com Foottit, palhaço de origem inglesa e de fama nos espetáculos franceses. O artista europeu então tem a brilhante ideia de fazer dupla com Chocolate, colocando um palhaço branco (sério) e outro augusto (exagerado) num mesmo número. Era o começo de um futuro brilhante para um dos primeiros artistas negros da França.

Espetáculo na telona

Não tem nada melhor do que ver atores que realmente abraçam os papéis. Os palhaços Chocolate e Fottit marcaram época com seus números, então foi de grande valia o esforço de Omar Sy e James Thiérrée para dar esse toque de veracidade para o longa-metragem. É claro que, como protagonista, Sy ganha ainda mais notoriedade, e não é para menos, já que ele esbanja talento em cada frase, sorriso ou representação de sofrimento.

Além das expressões convincentes e das caracterizações que denotam o ótimo trabalho da equipe de maquiagem, os dois atores se mostram dedicados a levar a arte de circo — pelo menos a que fazia naquela época — para o cinema. Eles arrasam no palco com números que envolvem muita desenvoltura, acrobacias e diálogos que parecem improvisados.

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O figurino se mostra fundamental para criar os personagens, sendo uma característica marcante da obra. Frequentemente, os dois palhaços estão trocando de roupas para as apresentações, com roupas muito bem elaboradas que remetem ao lúdico e expressam com clareza a alegria do circo.

O desenvolvimento de “Chocolate” também depende do cenário do circo constantemente, uma vez que estamos falando da história de dois palhaços. O roteiro centraliza vários diálogos nas dependências circenses. A reconstrução minuciosa dos ambientes é algo que chama a atenção, já que estamos tratando de uma época bem antiga. Há cenas que desviam desses locais, mas ainda é notável o esforço da equipe técnica para nos transportar ao passado.

Omar Sy ganha notoriedade ao esbanjar talento em cada frase, sorriso ou representação de sofrimento

A trilha sonora é um deleite à parte, graças ao talento de Gabriel Yared — que você já deve conhecer de filmes como “À Beira Mar” e “O Talentoso Ripley”. O uso de repiques para dar o tom das danças no palco, os sons calmos que embalam os momentos alegres e até a dramatização pesada com o uso recorrente de tons mais graves dão o rumo ideal para a trama.

Há também algumas músicas improvisadas com os palhaços já em suas apresentações, o que é bem interessante, uma vez que o filme não fica só dependente dos sons da edição. A sincronia entre os palhaços e a plateia também conta muito nesse sentido, já que transpassa a alegria do espetáculo para os espectadores no cinema.

A vida de palhaço não é só alegria

O filme “Chocolate” tem um aspecto bastante interessante em sua construção de roteiro, algo que vai se moldando por emoções e tons diferentes de abordagem. O filme começa de forma neutra, com um sujeito que não tem muita perspectiva de vida. Todavia, essa neutralidade é facilmente superada quando as coisas começam a melhorar.

Aos poucos, a alegria e a diversão tomam conta da tela. A carreira do palhaço Chocolate vai muito bem, sendo que ele consegue fazer uma boa grana no maior circo da França. É uma história de superação, de alguém que saiu da lama e foi para o palácio.

Ele consegue renovar seu guarda roupa, ter o privilégio de usar veículos motorizados, beber das melhores bebidas, jogar e ter muitas mulheres. Aonde ele vai, as pessoas o veneram por seu talento e carisma. Ele é sucesso entre as crianças e também muito namoradeiro.

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Acontece que, viver em uma época em que negros são marginalizados pela sociedade — não que isso seja um comportamento extinto hoje — dificulta bastante as coisas. Não demora a que muitas coisas comecem a dar errado. Em parte, o próprio Chocolate é culpado, mas há muitos eventos incontroláveis que mudam drasticamente a vida dele e o tom da película. A diferença de trato, as injustiças e todo o entorno mostram o sofrimento do artista.

Isso inclusive me lembra uma piada.

“Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.

O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”

O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”

Curiosamente, a piada contada por Rorschach (da graphic novel Watchmen, de Alan Moore) cai como “uma luva” para entender um pouco da vida de Chocolate. O artista está ali para fazer as pessoas rirem, mas sua vida não é só alegria. Como alguém que viu a carreira subir rapidamente, Rafael Padilha queria acabar com o preconceito e conquistar a fama fora do circo.

Com muitos infortúnios em série, a trama muda de alegria para tristeza. As cores e luzes do palco são trocadas por tons apagados e sombras em locais terríveis. Chocolate passa por uma fase terrível, que chega a ser dolorida para o público.

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A discussão sobre preconceito, ódio e desprezo é marcante e agrega muito ao longa-metragem. Apesar de ser somente uma entre as milhares de histórias relevantes sobre a exclusão dos negros, essa é uma história que precisava ser contada e que chega ao espectador de forma muito atraente. Uma produção francesa do mais alto nível.

Chocolate” segue uma linha de construção inteligente enquanto discorre sobre vários aspectos. É um filme alegre, que anima ao mostrar que a sociedade dá passos devagar em direção ao futuro, mas ainda se mostra reflexivo sobre questões pertinentes que foram — e ainda são — verdadeiros atrasos. Recomendamos acompanhar essa história na telona!

Fonte das imagens: Divulgação/Califórnia Filmes

Chocolate

Confira o trailer deste filme dirigido por Roschdy Zem

Diretor: Roschdy Zem

Duração: 110 min

Estreia: 21 / Jul / 2016

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