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Crítica do filme Dois Papas

Uma comédia disfarçada de biografia

Lu Belin

por
Lu Belin

Domingo, 05 Janeiro 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix
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Para quem cresceu envolto nos mistérios da igreja católica, a figura do Papa sempre foi coberta por uma aura de divindade e curiosidade, um enigma. Afinal, não é esta a maior autoridade religiosa do mundo, o principal representante de Deus entre os homens, praticamente um secretário humano do Todo Poderoso?

Para muitos católicos, o cotidiano do Santo Padre é motivo de uma curiosidade que pode ser lindamente saciada com o filme da Netflix que conta um pouco sobre a transição do papado de Bento XVI para Francisco, "Dois Papas". É uma película que chega sob a aura de drama e de biografia, mas que se revela uma deliciosa e santa comédia.

Guardados os devidos momentos de contemplação, memória e tristeza, "Dois Papas" adota o bom humor como linguagem para amenizar a rigidez com a qual muitas vezes esta figura religiosa é vista. Sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles, o longa-metragem traz Anthony Hopkins nos sapatos vermelhos do pontífice alemão Joseph Ratzinger e Jonathan Pryce para encarnar a simplicidade do argentino Jorge Mario Bergoglio.

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Com tantos ângulos possíveis para contar estas histórias, o roteirista Anthony McCarten escolheu justamente o período de transição entre pouco antes da renúncia de Bento XVI e a posse de Francisco. Embora concentre-se neste período histórico como central, ele retrata os bastidores da rotina do Papa, mas também o passado do homem que atualmente ocupa este cargo.

A solidão dos grandes

Sagaz, a opção de roteiro de  McCarten tem na interação conflituosa entre os dois e no contraste de personalidades - um conservador, outro progressista - seu principal trunfo.

A partir de um encontro de ambos no Vaticano, antes da renúncia, a película viaja pela memória de Francisco para resgatar os fatos que ajudaram a construir a figura não tão admirada de Bergoglio em seu país natal e os motivos do desgosto, que remontam à ditadura argentina dos anos 60.

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As renúncias feitas ao longo da trajetória, as perdas, os reencontros e, acima de tudo, a solidão que é quase uma presença, ela mesma, de quem abraça a vocação do sacerdócio, são alguns dos aspectos que o filme aborda, assim como o aprofundamento deste sentimento quando um cardeal passa a calçar as sandálias de pontífice.

Assim, Dois Papas tem também como grande característica o fato de que retira o pontífice do pedestal em que a igreja e a mídia constantemente o colocam, mostrando que, por trás do principal representante de Deus na Terra há um homem como qualquer outro, com uma história muito parecida com a dos demais, que também entra em contradição e também pode mudar de opinião.

Divina comédia

Como não se trata de um documentário, o filme de Meirelles não tem a pretensão de seguir à risca a realidade, embora seja bastante fiel aos fatos. O que o roteirista e o diretor fazem é preencher as lacunas da história com trocas e momentos que aconteceram na intimidade das residências oficiais da igreja e que foram testemunhadas apenas pelos próprios Bento e Francisco.

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Reconstruir os diálogos dos dois é algo que o filme faz tão bem que o espectador pode passar o tempo todo se questionando se teria sido assim mesmo. Se ambos os personagens teriam dito esta ou aquela frase exatamente assim, se este trecho do diálogo de fato aconteceu, se um ou outro fez ou falou o que aparece na tela. E, acima de tudo, se todas as interações dos dois realmente foram recheadas de tantos comentários bem humorados.

A construção do roteiro e o bom uso de recursos metafóricos para exaltar as características de personalidade de ambos, mas que representam também grandes divergências dentro da igreja católica, é outro mérito de "Dois Papas". A culinária, as vestimentas, as pequenas manias, os hábitos culturais, o gosto por música e futebol são algumas das metáforas para diferenças maiores nas visões de mundo e nas formas de conduzir a igreja que os dois apresentam.

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E as atuações impecáveis de Hopkins e Pryce são o que permite que o filme inteiro se sustente apenas sobre os dois. É preciso grandes atores para garantir uma história interessante, instigante e divertida pautada na interação entre duas pessoas. Um elenco reduzidíssimo, mas gigante ao mesmo tempo, já que ambos dão um verdadeiro show de atuação.

Como entretenimento e informativo, "Dois Papas" é uma boa opção até mesmo para quem não segue a religião católica, já que trata de questões de poder, política e história da Argentina. Além disso, é garantia de boas risadas até o final da subida dos créditos.

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Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

Dois Papas

Os Papas são pop!

Diretor: Fernando Meirelles
Duração: 125 min
Estreia: 20 / Dez / 2019

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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