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Crítica do filme Ele Está de Volta

Hitler ainda vive

por
Juliane Krainski

29 de Abril de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Eichborn Verlag
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Não restam dúvidas de que Adolf Hitler foi uma das figuras mais macabras de que se tem notícias. O militar, líder do Partido Nazista, foi responsável por institucionalizar a perseguição e o extermínio de grupos étnicos, raciais, religiosos e minorias, como os ciganos, eslavos, testemunhas de jeová, homossexuais e, sobretudo, os judeus, culminando no maior genocídio da história. Segundo os relatos oficiais, Hitler se suicidou com um tiro em 30 de abril de 1945, ao perceber que a Alemanha havia sido derrotada na Segunda Guerra Mundial.

Mas e se o Fuhrer não tivesse morrido em seu bunker em Berlim? E se algum evento misterioso o trouxesse para viver nos dias atuais? Essa é a temática abordada no longa Ele Está de Volta, adaptado do livro homônimo (de Timur Vermes) e dirigido por David Wnendr. O filme que causou polêmica quando estreou em 2015 na Alemanha, chegou recentemente ao Brasil, disponibilizado na Netflix. 

Na história, Adolf Hitler (Oliver Masucci) simplesmente acorda na belíssima cidade de Berlim, em 2014. Confundido com um humorista, ele sai pelas ruas tentando se localizar no espaço-tempo, observando e tentando entender as evidentes mudanças de seu país, que agora é inclusive governado por uma mulher. Boa parte da comicidade do filme se dá quando ele se depara com os avanços tecnológicos e coisas que nos são corriqueiras, como levar as roupas para lavar, por exemplo.

Ajudado por um repórter Fabian Sawatzki (Fabian Busch), ele sai em turnê pela Alemanha  sendo filmado em uma espécie de reality show. O filme mistura ficção e documentário, mostrando a interação do ator com pessoas reais, que não estão representando e nem foram contratadas para o filme. E é neste ponto que a comédia toda deixa de ser engraçada e começa a ficar assustadora. 

Ele Está de Volta

O mundo anda moderninho demais, só que não

Rapidamente surgem inúmeras pessoas que concordam totalmente com os argumentos conservadores da ideologia nazista. Basta uma chance para que todo tipo de clichês racistas e preconceituosos em geral sejam destilados (Brasil, é você?). Muitos falem abertamente o quanto os imigrantes são indesejados e deveriam ser expulsos. Com exemplos rasos e sem grande esforço, o Fuhrer consegue convencer que a mistura de raças é errada e gera aberrações (oi?). 

São pouquíssimas as pessoas que questionam a situação ou dizem que um homem vestido de Hitler fazendo esse tipo de humor não é engraçado. Pelos lugares onde passa, ele recebe majoritariamente sorrisos, apoio e pedidos para tirar selfies, tanto que um de seus vídeos viraliza e então não demora até que uma rede lhe ofereça um programa de televisão. A televisão, aliás, é a coisa que mais lhe agrada no mundo atual, pois ela é uma possibilidade infinita de se fazer propaganda e disseminar ideias.

É triste pensar que um período tão traumático da história, que deixou um legado de terror e absurdos, continua tendo ainda hoje tão numerosos apoiadores. E talvez o aspecto do filme que mais cutuque as nossa feridas seja justamente mostrar que Hitler só conseguiu matar milhares de pessoas em campos de concentração porque tinha o apoio massivo da população. 

Ele Está de Volta

Trágico sim, cômico também

O recurso de trazer um personagem histórico do passado e imaginar como ele se comportaria hoje, por si só já é muito interessante. Mas esse roteiro apresenta observações sensacionais, como por exemplo o fato de Adolf não concordar em nada com o atual cenário político do país, principalmente com seus seguidores, os Neonazistas, a quem considera uns fracotes. Embora o enredo não tenha compromisso com a realidade, é curioso também conhecer o personagem sob outro viés como seu amor pelos animais e pela natureza. 

Um dos grandes destaques do filme é a atuação brilhante de Oliver Masucci, exagerada e engraçada na medida exata. Outro ponto forte é a edição, que consegue inserir um grande número de informações, piadas, ironias e insights com dinamismo e ritmo. 

É um filme que possibilita uma série de reflexões sobre o modo como estamos nos comportando em sociedade, sobre como nossa forma de se organizar mudou pouco, mesmo com a história nos cobrando dívidas tão severas com o passado. E fica quase inevitável não fazer um comparativo com o atual momento político do Brasil, sendo uma pena que talvez os mais necessitados não enxerguem o quanto lhes serve a carapuça.

Fonte das imagens: Divulgação/Eichborn Verlag

Ele está de volta

Confira o trailer deste filme dirigido por David Wnendt

Diretor: David Wnendt
Duração: 116 min
Estreia: 9 / Abr / 2016

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Juliane Krainski

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