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Crítica do filme Êxodo: Deuses e Reis

Transformando um profeta em general

Douglas Ciriaco

por
Douglas Ciriaco

Quinta, 18 Dezembro 2014
Fonte da imagem: Divulgação/
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O diretor britânico Ridley Scott é conhecido por suas grandes obras de ficção científica (“Blade Runner” e “Alien”, por exemplo) e também por seus épicos de ação (como “O Gladiador” e “Robin Hood”). Desta vez, o cineasta volta à baila com o segundo gênero, transformando a passagem bíblica da libertação do povo hebreu no Egito em um grande conto de guerra e fé.

Em “Êxodo: Deuses e Reis”, sai aquela imagem tradicional que se tem de Moisés como um senhor com barba e cabelos brancos e entra a de um homem jovem e guerreiro, que foi do ceticismo à fé quase cega no Deus de Abraão, levando para a tela do cinema algumas dos feitos bíblicos mais conhecidos de todos, como as pragas do Egito e a travessia do Mar Vermelho.

Mas o embricamento entre fé e guerra não funciona tão bem nesta obra, que parece ter ficado um tanto quanto perdida sobre qual caminho seguir. Apesar de um bom uso da computação gráfica para recriar o mundo do Egito de quase 3,5 mil anos atrás e de longas sequências de ação no melhor estilo Ridley Scott, o resultado geral é de um filme mediano e nada mais do que isso.

Fé cega, faca amolada

Esse lema, título de uma música muito conhecida de Milton Nascimento, descreve bem a saga de Moisés em “Êxodo: Deuses e Reis” depois que ele toma conta de quem ele é de fato. No filme, após visitar uma pedreira onde escravos ensaiavam uma rebelião, Moisés (Christian Bale) tem uma conversa reveladora com um intelectual hebreu (Ben Kingsley) e descobre que é hebreu.

Ao sair da reunião, o incrédulo Moisés é interpelado por dois guardas e os ataca, tirando a vida de ambos. Tanto a morte dos guardas quanto a possibilidade de Moisés ser hebreu chega aos ouvidos do agora faraó Ramsés (Joel Edgerton), que assumiu o posto depois que seu pai, Seti (John Torturro), morreu. O líder egípcio então resolve exilar aquele que foi criado ao seu lado, como um irmão, e Moisés parte errante pela região até conhecer Zéfora (Maria Valverde) e se casar com ela.

Se na Bíblia tudo isso leva 80 anos para acontecer, na cronologia do filme leva pouco mais de nove anos. Agora, um pastor de ovelhas, Moisés têm a revelação dos desígnios de Deus em sua vida ao ficar soterrado em pedra  e lama após uma tempestade.

Êxodo: Deuses e Reis

Aqui está um das surpresas bastante válidas de Ridley Scott para este filme: o deus hebreu é representado como uma criança, que aparece e some repetidas vezes para Moisés, dando a tudo um ar meio Mestre dos Magos. A partir daí, Moisés retorna à pedreira do início do filme, reencontra o intelectual judeu e resolve treinar um exército para a batalha contra os egípcios, resultando, de modo geral, em uma das grandes falhas do roteiro.

Coescrito por Adam Cooper, Bill Collage e Steven Zaillian, o argumento do filme não consegue explorar a ligação afetiva de Moisés e Zéfora, algo que passaria incólume se não houvesse a tentativa de dar um toque de amor romântico no final da obra. Além disso, a ligação de Moisés com o povo hebreu também parece superficial demais, mesmo com a inclusão de um irmão e de um sobrinho biológicos na história, que simplesmente somem do mapa depois de serem apresentados ao messias hebreu.

As adaptações feitas na trama para trazer algumas das 10 Pragas do Egito à cena também deixam a trama um tanto mais bizarra — nesse ponto, destaca-se a fonte da maré que deixou vermelha a bacia do rio Nilo e as suas consequências imediatas, também pragas bíblicas, como a presença de moscas, rãs e sarnas. A trama tenta dar um ar mais “científico” a isso tudo, porém, isso foi desnecessário diante da natureza do filme e não foi capaz de eliminar a bizarrice dos acontecimentos.

Um líder político e um deus cruel

Apesar da carga espiritual óbvia de Moisés no filme, um dos pontos em que os roteiristas acertam em cheio é em deixar mais claro o papel de líder político em detrimento ao de líder religioso. No filme, o messias é um general, logo seu apelo para guerra é evidente, apesar de não ter havido nenhum grande confronto entre eles e tudo acabar se resolvendo mais na fé e no cruel senso de “justiça” do deus hebraico.

A conversa de Moisés com um de seus aliados ao final da história o coloca como politica e socialmente consciente da bomba que tem em mãos, quando ele questiona as possibilidades para o futuro. O líder lembra que, ao chegar em Canaã, os judeus serão vistos como invasores, visto que deverão tomar à força a terra de seus ocupantes. Além disso, ele reconhece a dificuldade de manter a comunhão os objetivos de todos, abrindo brecha para a necessidade de leis “divinas”. Pode-se dizer que a fé do povo hebreu em Deus e em Moisés como seu representante é explorada nesse ponto.

Fazendo um balanço geral, o pior de tudo, entretanto, é a cena em que o Mar Vermelho se fecha com Moisés e Ramsés sobrevivendo quase que intactos a um verdadeiro tsunami — coisas de Hollywood. A mais nova obra de Ridley Scott não consegue funcionar bem como saga espiritual nem como nem como um conto de feitos épicos de um homem para libertar seu povo.

Fonte das imagens: Divulgação/

Êxodo: Deuses e Reis

Confira o trailer deste filme dirigido por Ridley Scott

Diretor: Ridley Scott

Duração: 150 min

Estreia: 4 / Dez / 2014

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Douglas Ciriaco

Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?

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