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Crítica do filme Jogo do Dinheiro

Quem tem medo do mercado financeiro?

Lu Belin

por
Lu Belin

Quinta, 09 Junho 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Sony Pictures
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A maneira como se organiza o mercado financeiro internacional, as cotações diferentes das mais diversas moedas estrangeiras, os valores de investimentos em ações de empresas de setores variados. Encontrar uma lógica de operação nesse universo da economia não é exatamente uma habilidade que está ao alcance de qualquer pessoa.

Em "Jogo do Dinheiro", o emaranhado e complexo universo das bolsas de valores é explorado a partir da construção de um programa de TV que se dedica a desmistificar Wall Street. Comandado por Patty Fenn (Julia Roberts) e apresentado por um homem que é considerado um verdadeiro “mago do dinheiro”, Lee Gates (George Clooney), a atração Money Monster se utiliza de uma linguagem simplificada e de recursos escrachados para tornar acessíveis os macetes do mercado financeiro.

Com a presença de dançarinas e performers, usando palavrões, sons de chacota e piadas de mau gosto, o personagem de Clooney faz especulações financeiras e dá dicas de investimentos para o público leigo. Quando uma das empresas recomendadas pelo protagonista tem suas ações subitamente desvalorizadas e os investidores perdem 800 bilhões de dólares, um dos atingidos pela queda, o entregador Kyle Budwell (Jack O’Connell) decide jogar a merda no ventilador invadir a emissora ao vivo durante a exibição do programa para escancarar a farsa que é o mercado financeiro.

Universos cruzados

Embora o mote de "Jogo do Dinheiro" seja explorar a duvidosa e ao mesmo tempo escrachadamente fraudulenta organização do mercado financeiro, o longa-metragem nos conduz simultaneamente por um outro mundo: aquele que está por trás das câmeras nos programas de televisão.

Primeiro grande trabalho da atriz Jodie Foster como diretora e roteirizado por Jamie Linden (Querido John) e Alan DiFiore (da série Grimm), o filme é resultado de um minucioso trabalho para mostrar fielmente ao público toda a estrutura de pessoal e equipamentos envolvida na produção de uma atração de TV.

Jogo do Dinheiro

Mas não apenas isso: o longa trabalha a maneira como o que é apresentado pela TV pode ser uma farsa e, ainda assim, influenciar diretamente na vida de milhares ou milhões de pessoas que confiam naquela informação, impactando inclusive o próprio mercado financeiro.

Bem construído, mas devagar

Para contar essa história, Jodie Foster aproveita bem a carta mais importante que tem na manga: essa duplinha lindíssima e de arrasar formada por George Clooney e Julia Roberts. Talentos inquestionáveis e com uma sintonia evidente, os atores carregam o filme nas costas. Particularmente, achei que a personagem de Roberts se destaca e rouba a cena. A atriz está muito confortável no papel – talvez seu melhor trabalho dos últimos anos.

Julia, inclusive, teve um cuidadoso background de pesquisa para desenvolver Patty Fenn, buscando a ajuda de produtoras de televisão e se dando o trabalho de aprender a comandar uma mesa técnica para representar com mais fidelidade a Patty.

O Jogo do Dinheiro

Por falar em técnica, um detalhe bacana sobre "Jogo do Dinheiro" é que as câmeras que aparecem no set de gravação de Money Monster não estão ali apenas de brincadeira. Elas foram de fato utilizadas na gravação de algumas cenas e os cinegrafistas que aparecem não são atores, são cinegrafistas de verdade. Todas as cenas gravadas no estúdio foram filmadas duas vezes: uma sob o ponto de vista dessas câmeras e outra vez com o ângulo das câmeras do cinema. Um trabalho super bem orquestrado.

Mas o que se ganha em qualidade técnica talvez se perca em andamento. O longa demora um pouco para engatar e, em diversos momentos, parece que se arrasta um pouco, não prende muito a atenção do público. O que falta é uma trilha sonora envolvente e melhor alinhada com os momentos de clímax do longa, que quase passam despercebidos. Como suspense, Jogo do Dinheiro não nos deixa sem ar, mas nos coloca para pensar sobre uma série de questões que nos afetam para além do roteiro de ficção.

Uma moral da história que já conhecemos bem

O ponto desta produção é: no jogo do dinheiro, um lado sempre sai perdendo, enquanto outro sempre sai ganhando. E isso cansa, não é justo, causa revolta e uma sensação de impotência. Tanto que o suposto vilão nos desperta uma empatia instantânea: Kyle poderia ser qualquer um de nós que apostou todas as suas economias em um investimento que deveria ser seguro. E perdeu.

O longa de Jodie Foster nos faz pensar um pouco sobre esta forma como o sistema financeiro se organiza e a total e completa falta de controle que temos sobre ele. Pense comigo: do dinheiro que você tem, quanto dele você tem, de fato? E eu nem estou falando de grandes fortunas. Pode ser só aquele restinho de salário que segue persistente na conta do banco depois que todas as contas do débito automático caíram.

Jogo do Dinheiro

É como se ele não existisse materialmente, mas somente no plano das ideias. Como o próprio longa-metragem coloca: são dígitos em um código criptografado de um jeito que você não entende em um servidor que você não sabe onde fica.

E "Jogo do Dinheiro" não é apenas sobre isso, mas sobre como esse mundo do qual não entendemos nos é “traduzido” por meios de comunicação como a TV que não necessariamente fala a verdade.

São questionamentos bem válidos, não são? Vale pensar, vale ver esse longa e curtir bons momentos no cinema. Mas o Ministério do Bom Senso adverte: o que não vale é sair por aí sequestrando apresentadores de televisão! 

Fonte das imagens: Divulgação/Sony Pictures

Jogo do Dinheiro

George Clooney é feito refém no primeiro trailer de Jogo do Dinheiro.

Diretor: Jodie Foster
Duração: 98 min
Estreia: 26 / Mai / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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