Crítica do filme Livre

Ir longe para encontrar a si mesmo

por
Douglas Ciriaco

06 de Janeiro de 2015
Fonte da imagem: Divulgação/

Incursões no meio da natureza selvagem (ou nem tanto) têm o poder de causar uma série de reflexões em quem as realiza. Seja para alcançar paz de espírito, expiar algum momento ruim da vida ou apenas para experimentar o contato com o natural — ou tudo isso junto —, o fato é que os resultados podem ser bem positivos.

Em “Livre”, o que vemos é uma adaptação de uma história real de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon), que resolve fazer a Trilha do Pacífico, que cruza a pé os EUA ao longo de toda costa do oceano Pacífico. A jornada vem como tentativa de “pagar os pecados” após a então jovem mulher passar por uma série de problemas em sua vida. A somatória de coisas erradas em sua vida a joga em uma espiral autodestrutiva que quase dá fim à sua vida e a todas as suas relações.

Além de uma fotografia excelente, esbanjando paisagens da costa oeste dos EUA, o grande destaque da película está na atuação impecável de Witherspoon, mais famosa por atuar em comédias. O resultado geral é uma obra reflexiva e muito bem realizada também do ponto de vista técnico.

Em busca de um eu melhor

A jornada de Strayed é o fio condutor de todo o filme, que já começa com ela em certa altura da trilha, com os pés feridos e perdendo um pé de seu par de botas. Aos poucos, a história apresenta diversos fatos ao espectador, sempre em doses homeopáticas, digamos assim, intercalando presente e passado com bastante competência.

Esse tipo de montagem, que mistura tempos cronológicos diferentes dentro do filme, correm o risco de se perder e deixar a história confusa ou mesmo cansativa. Entretanto, não é o caso de “Livre”, baseado no livro de Strayed, roteirizado por  Nick Hornby (“Alta Fidelidade”) e muito bem dirigido e montado por Jean-Marc Vallée (“Clube de Compras Dallas”).

Livre

Assim como em “Clube de Compras Dallas”, Vallée volta a trabalhar com uma espécie de incursão para dentro da alma humana. Se no filme que consagrou Matthew McConaughey o diretor deu vida a um homem que se refez diante de AIDS, em “Livre”, a protagonista passa por um processo de desconstrução e reconstrução semelhante, porém por outros motivos.

Reese Witherspoon está, provavelmente, em uma de suas melhores atuações — e não se espantem se pintar uma indicação ao Oscar. Ela leva ao extremo a experiência que beira o extrassensorial de Strayed diante das inúmeras coisas com as quais ela cruza: perigos, medos, belezas naturais, pessoas legais e uma espécie de animalização da transformação pela qual ela passou.

O roteiro consegue transparecer perfeitamente as sensações da protagonista, da angústia de ver sua vida escorrendo pelos dedos sem saber ao certo o momento quando isso começou ao êxtase final, aquele suspiro profundo que parece reconectar corpo e alma. O conjunto entre uma ótima atuação, excelente direção e montagem impecável criam um clima perfeito para a reflexão vivida no filme.

Fonte das imagens: Divulgação/

Livre

1100 milhas de liberdade

Diretor: Jean-Marc Vallée
Duração: 115 min
Estreia: 15 / Jan / 2015

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Douglas Ciriaco

Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?