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Critica do filme Midsommar - O Mal Não Espera a Noite

Arraiá do terror

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Quinta, 19 de Setembro de 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes
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Ari Aster é sem sombra de dúvida um dos grandes nomes do cinema de terror contemporâneo. Seguindo a sua estreia avassaladora, o diretor de Hereditário entrega uma produção que solidifica seu talento e consolida seu estilo de direção e escrita. Em Midsommar – O Mal Não Espera a Noite o diretor desenvolve a mesma angustia presente em sua primeira obra, evocando terror mais com a história do que com sustos baratos.

Fugindo da obviedade, Aster constrói um filme competente que beira a etnoficção. Com uma câmera que se introduz no meio, sem fazer parte dele, o diretor apresenta antropologia visual com uma espécie de docuficção etnográfica escandinava. Com a mesma habilidade singular evidenciada em Hereditário, Ari Aster subverte os clichês do gênero e as expectativas do público, criando um filme difícil de classificar.

Midsommar – O Mal Não Espera a Noite exige um olhar crítico do espectador, algo difícil de encontrar na maioria dos filmes de terror, forçando interpretações que vão além das próprias imagens e diálogos apresentados, mas que explorem contextos socioantropológicos. Assim como Robert Eggers (A Bruxa), Jordan Peele (Corra), ou Ben Wheatley (Turistas), Ari Aster busca o desenvolvimento de um terror substancioso, que sacie o espectador por mais tempo do que alguns minutos, permanecendo com você para além da sessão.

Fãs do gênero vão apreciar as releituras propostas por Aster, enquanto os nãos iniciados ficaram investidos na construção do ambiente extremamente imersivo. Midsommar – O Mal Não Espera a Noite é sem sombra de dúvida um dos melhores do ano. Com uma história envolvente, um elenco excelente (destaque para Florence Pugh) e uma direção formidável, o filme reescreve o tradicional terror folclórico do passado de maneira artística e palatável para a geração contemporânea.

Festa junina

Dani (Florence Pugh) acaba de vivenciar uma terrível tragédia familiar e além de todo o trauma a garota ainda tenta manter vivo o relacionamento com seu namorado Christian (Jack Reynor). Em meio ao caos da vida de Dani, o casal é convidado pelos amigos de Christian para irem até a Suécia, e participarem das festividades do solstício de verão. Mas em vez de pular fogueiras e dançar quadrilha, as festas são muito mais próximas das celebrações pagãs que comemoram a chegada da nova estação.

Um dos artifícios mais inteligentes de Ari Aster ao longo de toda a narrativa de Midsommar é que ele não esconde nada do espectador, sabemos desde o início da película que nada está bem e que tudo vai piorar. Pouco a pouco o diretor introduz elementos que sugerem o que está para acontecer e mesmo assim seguimos a jornada totalmente investidos na história.

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Além disso, o diretor brinca com luz, cor e sons para mostrar que o medo não precisa se apoiar em nenhum desses elementos. Na terra do sol da meia-noite não há momentos de escuridão total, assim, o suposto mal acontece sob um céu ensolarado totalmente diferente do que se espera de um filme de terror sombrio.

Com um estilo que parece ter sido destilado diretamente do mestre Stanley Kubrick, Aster guia a câmera de maneira fluida e explora a ótima fotografia Pawel Pogorzelski para deixar claro que cada enquadramento é relevante para a história em si. Aster parece ter encontrado uma linguagem capaz de traduzir o terror tradicional para novas audiências.

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Inferno são os outros

Se Ari Aster merece ser celebrado pelo seu trabalho atrás das câmeras, o elenco principal de Midsommar também deve partilhar desses elogios. Will Poulter, Jack Reynor, William Jackson Harper e Vilhelm Blomgren tem seu momento de brilho na tela, mas sem sombra de dúvida é Florence Pugh a verdadeira estrelada película.

William Jackson Harper, mais famoso como Chidi Angonye da série The Good Place, está muito confortável na pele de um antropólogo imerso dentro do seu objeto de estudo. O mesmo acontece com o novato, Vilhelm Blomgren, que vive Pelle um dos anfitriões das festividades.

Enquanto isso, Florence Pugh entrega os momentos mais dramaticamente carregados do filme. Com uma grande presença ao longo da história Florence oferece um desempenho forte e imponente que a faz se destacar na tela sempre que está em cena.

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Quem vê de fora fala, quem tá por dentro vive...

Midsommar trabalha diferentes temas em diferentes níveis. A percepção de quem está de fora é diferente daquela de quem está inserido no meio. Ari Aster faz um ótimo trabalho navegando por esses assuntos sem abordalos diretamente. O proprio relacionamento de Dani e Christian — apresentado como problemático desde a primeira cena — é abordado de dois angulos diferentes, seja pela percepção de Dani e sua amiga ou por Christian e seus colegas. O diretor e roteirista do filme trabalha o tempo todo para que o espectar exercite a sua capacidade de ver os dois lados, seja em uma briga de casal ou na ritos culturais de um determinado grupo.

Apesar de realmente impressionante, nem tudo é acerto em Midsommar. O terceiro ato apesar de catárdico esconde alguns atropelos. A ideia original de Midsommar era a de ser um "slasher" com a pegada Ari Aster, e para todos os efeitos ele realmente executa essa tarefa com um releitura incrível do subgênero.

O absurdo de um é o costume do outro. Expor nossas diferenças e similaridades é o que faz Midsommar chocar tanto!

Aster esconde o seu slasher dentro de um terror folclórico (o folk horror à lá O Homem de Palha) e desenvolve a sua história de maneira muito inteligênte com algumas mortes sanguinolentas e até mesmo uma "final girl", mas tudo isso vem ao custo de algumas situações pouco plausíveis, que desconsideram muito do desenvolvimento dos personagens, que se veem agindo de maneira "idiota" apenas para se encaixar no tropo.

Mesmo assim, nada disso atrapalha a apreciação do filme. Midsommar reve elementos tradicionais do terror e apresenta a festa junina mais angustiante já vista — não se iluda amiguinho, tudo o que acontece em Midsommar é uma festa junina pré-cristã, com direito a fogueira, mastro de São João, simpatia para casar e roupa de caipira.

Fonte das imagens: Divulgação/Paris Filmes

Diretor: Ari Aster

Duração: 147 min

Estreia: 19 / Set / 2019

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