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Crítica Ninfomaníaca Parte 2

A Tragédia Cômica ou a Comédia Trágica de Ms. Joe

Gustavo Loeff Zardo

por
Gustavo Loeff Zardo

Quinta, 27 Março 2014
Fonte da imagem: Divulgação/
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Relato de um ex-usuário de Cocaína:

O vício não se dá por causa da droga, nem pelo efeito que ela causa, muito menos por algum tipo de ‘doença’. Não é uma mentira que alimenta o vício, ou o vício que alimenta uma mentira, não é o mundo diferente que a droga proporciona que mantém alguém dependente. Digo por experiência própria, que o vício existe única e exclusivamente pela compulsividade.

Dizem os especialistas que os comportamentos compulsivos, apesar do objetivo que têm de proporcionar algum alívio de tensões emocionais, normalmente não se adaptam ao bem estar mental pleno, ao conforto físico e à adaptação social. Eles se caracterizam por serem repetitivos e por se apresentarem de forma frequente e excessiva. Um compulsivo se torna uma doença.

Eu, ser-humano, nunca estudei psicologia para tirar uma conclusão mais profunda sobre comportamentos compulsivos, mas acredito entender porque eles ocorrem a ponto de achar atitudes dessa natureza extremamente compreensíveis.

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Imagine você, realizando a mesma tarefa repetidamente dia após dia, seguindo padrões e regras que você nem sabe quem as criou ou porque existem, e se sentir incomodado com tudo isso. Mas, apesar dessa consciência, acreditar que o errado, no final da história, é você. De repente, por uma obra casual, você se vê diante de pessoas que pensam da mesma maneira, pessoas que acreditam que existe um novo jeito de viver, uma maneira de ser humano, de viver humanamente, que existe uma alternativa. Sem a menor dúvida você embarcaria com essas pessoas e viveriam aqueles sonhos juntos. Porém, começa a se dar conta que essas pessoas que estão do seu lado têm os mesmos preconceitos que elas julgam lutar contra. E, no final das contas, percebe que é o planeta todo que está com uma grande doença, e não existe nenhuma solução aparente para criar o tal “mundo melhor”. O que fazer diante disso? Criar um mundo só pra você. Mentir. Compulsivamente.

O que eu quis dizer com toda essa baboseira é que tudo o que parece estranho, bizarro, absurdo, nojento, tem um porquê, principalmente se há falta de adaptação.

3 para 1

Só pra esclarecer uma coisinha, apesar da crítica ser sobre a parte 2, eu vou falar do filme como uma obra só... Afinal de contas é isso que ele é. Inclusive, essa segunda parte inicia exatamente no mesmo momento onde a outra terminou.

É inegável a habilidade de Lars Von Trier (Diretor de Ninfomaníaca) para criar obras de arte. Claro, a opinião do leitor pode ser bem diferente da minha, porém, tudo, absolutamente tudo, o que ele faz possui a uma identidade nítida. Se você ainda discorda de mim, faça a seguinte experiência: pegue algum filme dirigido por ele depois de “Dançando no Escuro”. Agora, coloque em qualquer cena. Assista alguns minutinhos. Percebeu uns cortes estranhos, onde os atores estão fazendo alguma coisa e de repente, do nada, a cena corta e eles estão fazendo outra como se nada tivesse acontecido? Pois é! Isso se repente em todos os filmes do diretor. Particularmente, acho isso lindo porque é muito sutil, as pessoas raramente percebem e nos lembra que o que estamos vendo é uma obra de ficção, é um filme, nada mais que isso. 

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Ninfomaníaca é puramente uma obra de ficção. Não conta uma história real, nem fala de uma possível realidade. É um universo que o autor criou para expor uma ideia, apenas isso. E essa ideia é personificada em Joe, a personagem principal. Uma das coisas mais legais que o autor faz, é não dar uma cara exata para essa personagem. Ao todo são 5 atrizes que interpretam Joe em várias fazes de sua vida, porém são 3 que recebem um destaque maior: Joe de 10 anos (Ananya Berg), a jovem Joe (Stacy Martin) e Joe (Charlotte Gainsbourg). Cada uma dessas atrizes tem uma cara completamente diferente da outra. Por exemplo, a Joe de 10 anos tem olhos muito azuis, já a Joe mais velha tem olhos escuros! Ou seja, não importa quem é a Joe de fato, o ponto chave em questão é o que ela representa.

Eu gosto de trepar

Afinal de contas, sobre o que é o filme? Eu me fiz essa pergunta logo que os créditos finais começaram a subir. Pensei muito no que aquelas 4 horas significam, e a minha conclusão é que o filme não é sobre ninfomania. 

Em uma das cenas, Joe é encaminhada a um grupo de ajuda (igual ao dos Alcólicos Anônimos). Ao se apresentar,

-“ Olá, Meu nome é Joe

- Olá Joe!”,

Ela se declara ninfomaníaca. A psicóloga do grupo diz que não, que ela é viciada em sexo. Nesse momento acontece uma das cenas mais gostosas do filme, onde Joe dá um discurso afirmando que ela é sim ninfomaníaca e se ama muito por isso, mas acima de tudo “amo minha boceta e minha luxúria suja e obcena”. E aquilo tudo é uma polícia moral da sociedade, cujo dever é apagar a obscenidade da terra para que a burguesia não se sinta doente.

Minha conclusão é que Ninfomaníaca é sobre seres humanos, suas doenças, seus medos, seus segredos, seus nojos, sua violência e, acima de tudo, sobre humanidade. Joe não é apenas 3 atrizes, Joe é o ser humano. Aquele que luta pra satisfazer o seu desejo, para se adaptar na sociedade e diante da falha de adaptação, desenvolve uma compulsividade colaborando com a doença do mundo.

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Dica importante: se for matar alguém, engatilhe sua arma

A quantidade e a qualidade de referências que Lars coloca em seu filme é algo que me deixou bastante satisfeito. De onde menos se espera surge uma alusão a algo que ilustra a história de Joe de maneira surpreendente. A gama de cartas na manga, para essa estratégia, vai desde matemática e música clássica à James Bond e montanhismo. 

O que é mais interessante, é que para cada nova temática introduzida há um começo, um meio e um fim. Toda nova história apresentada pelas personagens se desenrola junto com o roteiro principal, acrescenta muita informação valiosa (que na maioria das vezes, pela quantidade de novas informações, acabamos deixando escapar alguma coisa), e tem um desfecho. Eis algo de tirar o chapéu para o roteiro, pois nada é desperdiçado, tudo fica amarrado o que torna a história ainda mais rica.

Para um primeiro olhar o roteiro é bem previsível. Tudo o que ali é contado, alguns instantes antes é possível adivinhar. Porém, isso, como é bem executado, não torna a história maçante ou ruim. Principalmente pelo teor do filme não se tratar da historinha tragicômica de Joe, mas sim desse algo mais profundo que já falei anteriormente.

E não é que nessa história de adaptação na sociedade o ser humano acaba dando um jeito de se virar!? As vezes de uma maneira que leva a outra atitude tão grotesca quanto à compulsividade. Joe nos surpreende, e no momento mais obvio toma a atitude mais inesperada, pondo fim a história que ela começou a contar.

Escolha o seu lado da força

É surpreendente a repercussão que o filme tomou! Há muito tempo eu não via um filme “não hollywoodiano” ganhar tanto destaque em jornais, revistas, internet, redes sociais, enfim, a porra toda! Mesmo os outros filmes de Lars, que foram talvez mais polêmicos que esse (Dogville e Anticristo), não tiveram o mesmo destaque. Por exemplo, no cinema em que estreou Ninfomaníaca Parte I o ingresso era 40 reais. Mesmo assim precisei ir 3 vezes para conseguir um lugar no cinema!

Claro que esse em especial tem uma fator que contribui muito para o interesse do público. A quantidade de pica, boceta e metelança que aparece, é algo que não estamos acostumados a presenciar em um filme não-pornô. E, apesar de chamar muito público, é por esse exato motivo que o público não está tendo uma excelente aceitação.

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Entre meus amigos “adoradores e estudantes de cinema”, fui um dos únicos que gostei da obra completa. De todo o teor do filme. Vale ressaltar que quando terminou a Parte I, eu achei o filme bem comum. Porém, ao contemplar as 4 horas da obra finalmente compreendi o que era aquilo e fiquei absorto.

Quer assistir? Vá preparado. O filme é excepcional e garante uma imersão profunda naquela história. Se você não gostar do que viu, pelo menos excitado eu garanto que você fica. Delite-se!

Fonte das imagens: Divulgação/

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Gustavo Loeff Zardo

Meu sonho é ter barba.

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