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Crítica do filme O Poço

Angustiante, visceral e incômodamente atual

por
Thiago Moura

04 de Abril de 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix
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O novo filme da Netflix tem dado o que falar, principalmente pela sua temática e seu final em aberto. “O Poço” é um filme de terror que assusta por ser uma fábula aplicável a vida real. O confinamento obrigatório por conta da pandemia que está nos assolando a algum tempo nos força a buscar distrações, mas quando elas falham passamos a olhar para nós mesmos e como a estrutura social vigente é falha.

“O Poço” foi pensado originalmente para o teatro, mas ao passar para a película ganhou um peso ainda mais sombrio e visceral que dificilmente seria possível em uma peça teatral.

A Netflix acertou no momento de disponibilizar esse título, já que o distanciamento social e a falha estrutura socioeconômica  pode nos mostrar o pior do ser humano, é assustador o quanto o longa é análogo a nossa realidade.

“Existem três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”

O longa se passa inteiramente em um “Centro Vertical de Autogestão”, uma torre que serve de prisão, conhecida como O Poço. Somos apresentados a Goreng (Ivan Massagué) que ao contrário do que se espera decidiu por conta própria ir para lá, pois queria ler “Dom Quixote” e ainda ganharia um certificado no final de sua estadia de 6 meses.

Lá, ele conhece Trimagasi (Zorion Eguileor), um idoso que será seu companheiro de cela naquele mês. Há meses nessa prisão, ele didaticamente explica como funciona a estrutura do local. Não há luz solar e o alimento é enviado para cada andar através de uma plataforma que se move entre os andares todos os dias.

Goreng e Trimagasi estão no nível 48, então precisam esperar os 47 níveis acima se alimentarem até que os restos cheguem ao seu andar. Não demora para ficar claro que os meses ali serão como um pesadelo e que simbolizam a própria condição humana: o medo, a solidão e o desespero que mostra o pior lado de cada um.

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O luxuoso banquete é preparado no nível zero com as comidas favoritas de cada um dos prisioneiros, mas a plataforma permanece por apenas dois minutos em cada nível. Não é permitido estocar a comida, sob a pena de sofrer com calor ou frio extremos até a morte.

Mais tarde, é explicado que o banquete é pensado de forma a alimentar todos os níveis, mas fica claro que a estrutura é falha pois os níveis superiores costumam comer muito mais do que deveriam, sem se importar com quem está abaixo. A cada 30 dias, os presos são remanejados para outros andares, podendo subir ou descer de forma aleatória, o que reforça ainda mais a estrutura falha da prisão, forçando que todos passem por situações extremas até atingir os limites da fome e da sanidade humana.

Em sua estreia como diretor, o espanhol Galder Gaztelu-Urrutia acerta na narrativa com muitos elementos de gore e suspense, explicando muito alguns aspectos da trama para permitir deixar em aberto outras. Fica clara a influência de Platão e de obras neo-platônicas como Dom Quixote, que permeiam o filme para elucidar alguns pensamentos a respeito do Poço, cada detalhe é pensado para levar a uma interpretação maior da obra, principalmente a semelhança entre o protagonista e o “cavaleiro das causas perdidas”.

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“O Poço” escancara e critica a ideia de que as estruturas sociais por si só não são capazes de educar os seres humanos para a verdadeira incorporação da justiça. O modelo socialista e a luta pela justiça social é criticado constantemente ao longo do filme, que levanta um debate importante para a educação da personalidade dos indivíduos através da conquista das virtudes.

Apenas o medo pode educar, ou a própria educação?

Goreng percebe que ninguém é beneficiado na prisão, tentar fazer os níveis acima mudarem ou até mesmo serem ouvidos é uma tarefa impossível. Cada um é incentivado a comer o máximo que puder enquanto puder, sem pensar muito nas consequências.

Em certo nível o protagonista compartilha a cela com Imoguiri (Antonia San Juan), que acredita que “somente uma solidariedade espontânea pode trazer mudanças”. Ao alimentar-se apenas com o que é necessário, haveria comida para todos. Mas como fazer essa mensagem ser notada quando quem tem abundância quer mais, enquanto os níveis inferiores são obrigados a morrer de fome, enlouquecer ou tornar-se canibais?

Tanto a educação quanto o uso da violência não são suficientes para convencer todos os prisioneiros a agirem de forma justa, por isso o livro de Dom Quixote se faz tão importante para compreender o filme. Dom Quixote não simboliza apenas o conhecimento teórico, ele é o personagem literário que encarnou nos seus comportamentos os próprios valores.

Mas e o final?

“O Poço” é um filme de terror com muito mais do que alguns sustos e cenas gore. É bastante agonizante e o tempo parece parar em alguns pontos, como se você estivesse preso ali também, aguardando a narrativa chegar ao fim ou aproveitando os momentos mais tranquilos antes que tudo piore de vez. É exatamente sobre o final que eu gostaria de falar. Muitos vão assistir e se decepcionar, mas o final em aberto é o que torna o filme ainda mais relevante.

Ao tentar levar os alimentos até os andares inferiores, Goreng e Baharat (Emilio Buale) finalmente encontram a filha perdida de Miharu (Alexandra Masangkay), escondida no último andar da prisão. Ao invés de enviar a panacota intacta à Administração, como uma mensagem de solidariedade espontânea, Goreng entrega à criança faminta.

Ao compreender que a jovem poderia ser uma mensagem mais eficaz, ele se sacrifica para salvá-la. A prisão representa o que há de mais egoísta dentro do seu humano e ao salvar a filha de Miharu, ele entende que uma vida que está em risco pode ser salva se fizermos uma ação de solidariedade.

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“Nenhuma mudança é espontânea”, diz o protagonista, ou seja, é necessário passar por todos os níveis para criar compaixão para com os mais necessitados. Salvando a criança, Goreng cria uma ponta de esperança para que essa mudança ocorra. Essa é uma visão positiva e ideal, de que há recursos para todos mas os “de cima” precisam abrir mão dos excessos.

Ao chegar no fundo do Poço, ele reencontra Trimagasi, que mesmo depois de morto continua assombrando o protagonista, óbvio. Eles saem caminhando como bons amigos em direção a escuridão enquanto o velho diz que a missão foi cumprida. Diversas interpretações são possíveis.

O personagem pode ter morrido no processo e a última cena mostra o encontro com o amigo no outro mundo ou talvez mesmo salvando a menina O Poço corrompeu tanto Goreng que sair de lá já não era possível. Ou tudo não passou de um delírio após toda a fome e dificuldades enfrentadas enquanto descia, incluindo ferimentos. Talvez Goreng só precisasse esperar no último nível até o fim do mês e o confinamento finalmente acabasse. 

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Pessoalmente, não gosto dessas interpretações. Eu acredito que a chave para interpretar o final está na panacota. A menina que Goreng e Baharat encontram não passa de um delírio, já que não são admitidas crianças na prisão e ela estava saudável e limpa, mesmo estando no último nível da prisão. Ela representaria a esperança, e o fato dela comer a panacota seria a mensagem chegando ao destino. Porém, o que voltou ao nível 0 foi justamente a sobremesa.

Há uma cena anterior que mostra a indignação do chef ao notar a panacota intacta mas com um cabelo em cima. Então a mensagem que chegou foi a de que os prisioneiros não comeram a sobremesa por conta desse descuido. Todo o sacrifício foi em vão, quem está acima não vai entender seus esforços e tudo continua da mesma forma.

De qualquer forma, assim como “O Poço”, o filme possui diversas camadas de interpretação, cabe a cada um decidir até que nível é suportável chegar. É um filme recomendassímo, considerando o quanto é difícil encontrar um título interessante nas plataformas de streaming, vale a pena para quem tem estômago.

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

O Poço

Quando os de baixo se movem os de cima caem!

Diretor: Galder Gaztelu-Urrutia
Duração: 94 min
Estreia: 20 / Mar / 2020

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Thiago Moura

Curto as parada massa.

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