Crítica do filme Oldboy

A Vingança é melhor servida na martelada

por
Levi Merenciano

10 de Abril de 2021
Fonte da imagem: Divulgação/BG21IST

Oldboy” (2003) é um filme nota 10 no quesito técnico e temático. Ao lado de produções como “Clube da Luta”, “Seven - Os Sete Crimes Capitais” (1995), “Bad Boy Bubby” (1993), entre outros filmes nota máxima em minha concepção, o que me encanta nessas produções não é a violência, mas o fato de ser ofuscada por uma configuração de temas diversos mais relevantes do que a própria violência explícita.

Como já tenho afirmado comumente em reviews, não costumo ter palavras para descrever as produções que acho excelentes. Mas, Oldboy, não o filme americano de 2013, e sim a produção sul-coreana de 2003, tirou nota dez de duas formas: por ser o filme que mais me incomoda até hoje; e por me abrir os olhos para o cinema sul-coreano.

Sobre a primeira impressão, o tema da vingança não é levado simplesmente a sério, mas ao extremo do extremo, de forma que se perde até mesmo a noção semântica dessa palavra, tão clichê em outras artes como na literatura e no teatro, por exemplo. Sobre a segunda nota máxima, o cinema sul-coreano, devidamente descoberto aqui no Brasil lá pelo início deste século, vem conquistando cada vez mais espaço, sobretudo no último The Oscars, com a vitória de “Parasita”.

O tema clichê da vingança com ar de novidade

Oldboy tem basicamente tudo colocado na prateleira (na ordem e na posição corretas) de forma a dar o efeito de sentido da vingança e da culpa necessárias ao percurso narrativo de cada personagem. Assim, no plot narrativo, nada sobra, pois todo signo se adapta à história. Assim, a clareza temática da vingança se expande para outros subtemas: o remorso, a hipnose, o incesto, o perdão. Comecemos pela premissa.

Um rapaz (Dae-su Oh, interpretado por Min-sik Choi) é capturado sem explicação aparente e preso em um quarto, com acesso a tevê e cuidados pessoais por quinze anos, sem ter contato com nenhuma outra pessoa. O que me incomoda não é o fato de estar preso, mas o fato de não saber durante 180 meses ou 5400 dias o “porquê de estar ali”. Somente essa premissa seria suficiente para um plot interessante.

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Repentinamente, Dae-su é solto em um lugar desconhecido. A partir desse ponto, irá buscar respostas, pois havia deixado um passado para trás: uma filha pequena, agora adulta. Ao iniciar a busca, as ações reveladoras vão acontecendo sem dar fôlego ao expectador, à medida que os temas mencionados vão encaixando na história de Dae-su, de sua filha e de um terceiro elemento, a ser revelado mais à frente na narrativa.

Esse elemento estabelece o encaixe temático completo com os temas mencionados, como um ciclo de vingança que se completa ao mesmo tempo em que anula o sujeito que buscava a vingança, por se tornar esta, de fato, o único motivo da vida do antagonista. Por isso, mencionei anteriormente a vingança no extremo do extremo, a ponto de anular o próprio sujeito que a cumpre.

Oldboy, um filme que não vai envelhecer

Sugiro que apenas assista a essa produção, que faz parte dos meus três filmes favoritos, a qual ainda vai demorar para sair desse pódio, por me incomodar a um ponto de ficarmos pensando dias sobre o filme. O seu final também é um show à parte, pois acreditamos que será vinculado a algo de extremo, mas não, ele fica no meio termo, como se fosse um “half measure” (meias medidas) para suportar a dor da verdade, ao mesmo tempo em que se deve conviver com certas ilusões.

Quer seja um grão de areia ou pedra, na água ambos afundam igualmente

No quesito violência, ela tem algo de novo (nas cenas longas de luta em plano sequência, com enquadramento em plano geral) e até mesmo um pouco de “torture porn” (tortura explícita), mas que tem sentido, pois se vincula ao excesso o qual mencionei, a partir de um personagem cuja ira não pode ser explicada por palavras, mas por ações que vão além da capacidade humana de compreensão. Enfim, parte do mote do filme é explicada em voz over (voice-over) por meio de um ditado: “quer seja um grão de areia ou pedra, na água ambos afundam igualmente” (Be it a stone or a grain of sand, in water they both sink).

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No Rotten Tomatoes, Oldboy tem avaliação de 94% do público, a minha simplesmente seria 100%. Ao estudar mais sobre o filme, descobri que ele faz parte de uma trilogia da vingança, com mais duas produções, cada uma independente, as quais abordam a mesma temática, todos dirigidos pelo genial Chan-wook Park: “Sympathy for Mr. Vengeance” (2002) e “Lady Vingança” (2005).

Confira esta crítica também em vídeo:

Fonte das imagens: Divulgação/BG21IST

Oldboy

Ele tem cinco dias para encontrar respostas

Diretor: Chan-wook Park
Duração: 120 min
Estreia: 21 / Nov / 2003

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Levi Merenciano

Se eu fosse 10% do Ryan Gosling, tava bom! Levi Henrique Merenciano é linguista e semioticista, aficionado por cinema e games. É dono do canal Cinessemiótica, página especializada em indicação de filmes cults, documentários e lançamentos.