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Crítica do filme Trash – A Esperança vem do Lixo

Vamos fazer uma revolução?

André Luiz Cavanha

por
André Luiz Cavanha

Sexta, 10 de Outubro de 2014
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures
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O surgimento de produções cinematográficas com alto teor político durante eleições presidenciais é algo comum no cinema nacional. Este ano não poderia ser diferente: acompanhando o acirramento das disputas partidárias e posterior à pressão exercida por milhares de jovens que ocuparam as ruas durante as jornadas de junho de 2013, a estreia do filme “Trash – A Esperança vem do Lixo” soa bastante proposital no intervalo entre o primeiro e segundo turno.

Engana-se quem acredita que esse aspecto seja prejudicial para o contexto da obra: é sobre política sim, sem que isso signifique o abandono da sofisticação artística. Aliás, quem seria tão ingênuo de acreditar na arte estritamente compromissada com a estética e isenta de posicionamento sobre as decisões que interferem na organização da sociedade?

Eis aqui um projeto carregado de parcialidade sem aspirar a contraditória neutralidade exigida pelos acomodados. Um filme contraindicado para quem recusa o desconforto de pensar sobre os próprios privilégios em relação àqueles que sobrevivem da reciclagem.

Uma história bem conhecida

Apesar de categórica, a primeira frase explicitada no trailer faz parecer que estamos diante de um enredo sem novidades: “a única coisa que importa aos políticos deste país é o dinheiro”. Isso pode gerar bastante desconfiança àqueles que esperam por uma crítica qualificada. A corrupção policial, assim como o relato das dificuldades cotidianas do povo da favela trazem certa previsibilidade na abordagem de questões brasileiras que muitos críticos acreditam estarem saturadas de exibição. No entanto, existem distinções que são fundamentais para transformar esse mais do mesmo em algo valioso. 

O filme conta a vida de três garotos pobres que trabalham no lixão. Eles encontram uma carteira recheada de dinheiro e alguns códigos que precisam ser decifrados para que toda grana desviada por um importante político possa ser encontrada. Assim somos convidados a descobrir, junto com os personagens, para onde levam as pistas codificadas.

Poderia ser qualquer país, mas escolheram o Brasil

O diretor inglês Stephen Daldry, consagrado por dirigir o filme As Horas (2001), esteve por bastante tempo estudando formas de reproduzir o romance do escritor Andy Mulligan, no qual o filme se baseou. Originalmente o local onde a trama se desenvolve é num país fictício, mas o reconhecimento do trabalho de Fernando Meirelles (Cidade de Deus) foi fundamental na escolha do lugar, pois a ideia era encontrar atores fielmente sintonizados com a realidade de onde moram.

atores até então desconhecidos

Os protagonistas poderiam ser três figuras conhecidas, mas os produtores optaram por crianças que nunca tiveram a oportunidade de atuar. Elas foram escolhidas bem antes de Selton Mello e Wagner Moura, em uma seleção que durou seis meses até que fossem preenchidos os pré-requisitos necessários para a atuação. São três garotos que transmitem espontaneidade e transbordam tanta descontração que superam a crueza de toda miséria e sangue derramado.

Responsáveis por um olhar necessário sobre aquilo que clama por mudança, essas crianças servem como incentivo ao hábito de se manifestar e fazer valer a democracia na forma mais pura. Decidem pelo que consideram certo a ser feito, misturando intuição e sagacidade sem saber exatamente para quais armadilhas tais escolhas podem levar.

É som de preto, de favelado…

O que mais me incomodou no filme, não estava no filme: após a exibição, vi algumas pessoas reclamarem da trilha sonora. Acho perceptível que a justificativa para essa insatisfação seja exatamente o sintoma da desigualdade econômica a que somos condicionados e que amplia também o distanciamento cultural entre as classes sociais.

Logo nos primeiros minutos ouvimos o “Rap da Felicidade”, em uma cena que mostra as crianças trabalhando cercadas de muito lixo e mesmo assim sorriem e se divertem: tristeza e alegria que caminham lado a lado. Música clichê, mas após vinte anos de existência continua sendo cantada em uníssono nas festas e bailes funk, provocando bastante emoção. A maioria dos brasileiros sabem cantar, mas nem todos sentem na pele o que de fato a letra significa.

tristeza e alegria

Outra música que se encaixa perfeitamente na trilha sonora é “Baianá”, do grupo brasileiro de percussão corporal chamado Barbatuques. O ritmo é bem marcado e as vozes das femininas preenchem o coração de esperança no momento em que os meninos renascem e resistem às agressões que sofrem de seus ambiciosos algozes: sentimento que o ingrediente nordestino desperta sem grande esforço.

A trilha é maravilhosa, mas não por uma simples questão de gosto: o rock, a MPB ou a música clássica soariam extremamente inadequados nesse contexto. O responsável pela seleção sabia o que estava fazendo, deixando eruditismos musicais para personagens de moral questionável.

A esperança acima de crenças e religiões

Mais brasileiras do que tudo que já foi listado até aqui são as referências que aparecem escancaradas ou com certo grau de subjetividade. As mais fáceis de perceber estão logo ali, na carteira que as crianças encontram: um santinho de São Francisco de Assis e um calendário onde estão enumerados no verso todos os animais que compõem o jogo do bicho. Dois objetos subestimáveis, porém atribuídos do significado necessário para a resolução dos problemas.

Não é preciso ser católico para captar a explicação sobre o envolvimento daquele santo. Afinal, a escolha recente do novo papa deixa essa informação bem fresquinha na cabeça de todos nós. Os entusiastas de assuntos eclesiásticos podem visualizar alguns traços da Teologia da Libertação na cena em que, tomado pela revolta, o padre decide se abster da costumeira bênção com sinal da cruz para entoar um dos mais famosos hinos de resistência política: “de pé, ó vítimas da fome”.

Em Trash – A Esperança vem do Lixo, até mesmo a fé é colocada a prova num mar de sujeira e, mesmo assim, o que se sobressai é a pureza dos que nunca se corromperam. Como a flor de lótus, que nasce em meio à lama.

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

Trash - A Esperança vem do Lixo

Esperança e medo andam juntos

Diretor: Stephen Daldry

Duração: 113 min

Estreia: 9 / Out / 2014

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André Luiz Cavanha

Todo coração é uma célula revolucionária.

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