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Crítica do filme Noé

Fantasia bíblica independente de religião

Thiago Moura

por
Thiago Moura

Quarta, 02 de Abril de 2014
Fonte da imagem: Divulgação/
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ATENÇÃO: Esta crítica contém alguns spoilers. 

Se você pensa que já conhece a história e que o filme é uma clara tentativa de te fazer acreditar em um Deus cristão, você está errado. "Noé" é baseado em uma história bíblica, mas não tem a pretensão de evangelizar ninguém. Daren Aronofsky usa de licença poética para demonstrar sua visão de uma forma épica, com alguns pontos questionáveis, mas mantendo sempre a essência e valores dessa história que é um marco para a fé de milhões de pessoas.

Após serem expulsos do Paraíso por terem provado o fruto proibido, Adão e Eva têm três filhos: Caim, Abel e Set. Caim assassina Abel e é condenado a vagar pelo mundo, então Set nasce como substituto de Abel, sendo considerado justo e herdeiro de Adão.

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Nóe, descendente de Set, recebe um sonho profético cujos detalhes não são muito claros, algo envolvendo uma maçã, uma cobra, fogo, morte, uma enchente e mais morte. Com esse sonho ele entende que tem que construir uma arca e colocar dentro um macho e uma fêmea de cada espécie de animal pra salvar o mundo e sua família. Ao contrário do fogo, a água não destrói simplesmente, mas limpa e purifica, sendo assim a Terra seria lavada do mal que os filhos de Caim espalharam pela Terra.

Um filme pé no chão

É importante notar que Deus não aparece em nenhum momento, sendo referido apenas como o Criador e percebido pelos personagens apenas como manifestações da natureza. Sendo assim, nenhuma das decisões que Noé tomou foram "ordens diretas do Criador", mas sinais sutis dando uma direção sobre o que iria acontecer. Sim, Noé e sua família foram escolhidos para serem salvos por manterem suas vidas voltadas a Deus, e por isso eram considerados bons e dignos de viver no mundo renovado. Mas Noé entende que todas as pessoas devem morrer, incluindo ele e sua família. 

Aronofsky escreveu (junto com Ari Handel) e dirigiu, e assim como os protagonistas de seus filmes anteriores (o matemático de "PI", o viciado em drogas de "Requiem para um Sonho", o sonhador romântico de "Fonte da Vida", "O Lutador", e a bailarina de "Cisne Negro") Noé possui uma obsessão que o leva a beira da loucura, fazendo-o tomar decisões terríveis e capaz de matar todos a sua volta apenas para completar seu objetivo.

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Ao contrário do que se possa pensar, esse não é um filme para os fiéis cristãos, mas para qualquer ser humano que acredite em bem e mal. Em determinado ponto, Noé afirma que não existem pessoas boas, todos eles foram expulsos do Jardim de Éden por desagradar o Criador. Mas sua esposa Naameh contesta, dizendo que seus filhos eram bons.

Nesse ponto deixamos de lado o maniqueísmo e vemos que ninguém é totalmente benigno e maligno, no máximo um dos lados se destaca mais. É tudo uma questão de escolha. Uma das frases que melhor descrevem o filme não é proferida por Noé, mas sim por seu rival Tubal-Cain (Ray Winstone), descendente de Caim e autoproclamado rei.

Um homem não é governado pelos céus. Um homem é governado por sua vontade (livre-arbítrio). 

Noé segue suas convicções, assim como Tubal-Cain segue as que foram ensinadas pra ele. 

Um filme sobre fé que busca o realismo

Durante o Dilúvio, Tubal-Cain tenta salvar seu povo da única maneira que ele sabe, com violência e tomando tudo a força, enquanto Noé só busca a segurança de sua família e o término da sua missão, entretanto muitas vidas inocentes foram tiradas nesse processo, e esse é um questionamento bem explorado durante o filme.   

Vários conflitos são desenvolvidos enquanto a chuva não vem, tudo que está na Bíblia é representado ali, acrescentando alguns detalhes na história que servem apenas para enriquecê-la e preencher alguns furos.

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As filmagens foram feitas em regiões remotas da Islândia, dando as paisagens um aspecto imenso, assustador e fascinante. Destaque para as sequências em time-lapse, como o rio que percorre a terra, os pássaros indo em direção a Arca, e a história contada no livro de Gênese sobre o começo do mundo.

Os produtores buscaram as referências para construir a Arca com as mesmas dimensões descritas na bíblia e a construíram de verdade. Com exceção de alguns pássaros, todos os animais são feitos em computação gráfica, mas são convincentes e servem bem para retratar a história.

Se você sempre se perguntou como tantos animais diferentes conseguiram conviver pacificamente dentro de uma arca, a resposta é muito simples: eles hibernaram! A família de Noé prepara uma poção mágica, jogam fumaça nos bichos e eles dormem. Simples e eficiente. Uma curiosidade engraçada: alguns animais sofrem acidentes durante o percurso e acabam morrendo, e nenhum desses bichos existem hoje em dia.

E não, nenhum dinossauro foi salvo.

O dilúvio mais impressionante de todos os tempos

Tudo isso é muito melhor aproveitado nas telas gigantes dos cinemas, e os efeitos 3D são bem decentes, sem coisas sendo jogadas na sua cara desnecessariamente. O 3D serve para enfatizar pontos nos efeitos, como a chuva e as estrelas. Eu normalmente odeio filmes em 3D, mas nesse caso achei a aplicação interessante. 

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Vale aqui um destaque para os Guardiões, anjos caídos que vieram para ajudar os homens, mas acabaram presos à terra e as pedras. Eles são toscos, disformes e parecem mal animados. Mas tudo isso é proposital, pois eles são anjos caídos e perderam a glória divina de antes, tornando-se seres que não pertencem a esse mundo e não combinam nem um pouco com ele.

Apesar de parecerem deslocados e fantasiosos demais, eles tem um papel fundamental ajudando Noé, e com o tempo suas vozes graves e movimentos estranhos se tornam agradáveis. Mas é nas cenas de batalha que eles utilizam todo seu potencial, com armas e movimentos que só eles poderiam usar com eficiência, alcançando a redenção que eles tanto buscavam. 

Revivendo a Bíblia em grande estilo

Falando em batalhas, e essas não são as únicas partes com ação, elas são acompanhadas por uma trilha sonora que combina perfeitamente com cada cena, cada movimento é marcado por um som dentro da música, praticamente uma orquestra sendo regida pelas imagens. Clint Mansell, que já trabalha com Aronofsky há algum tempo, acertou novamente nas composições.

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Russel Crowe encarna Noé de uma forma muito convincente. Ele é heroico, mas ainda humano e limitado, é correto e justo, mas tem momentos de dúvida como qualquer um de nós. E é atormentado por uma tarefa dada a ele por ninguém menos que Deus, um peso que não é fácil de suportar. A evolução e profundidade desse personagem são muito visíveis e marcantes. A construção da Arca é seu objetivo, mas todas as escolhas que envolvem esse feito precisam e são tomadas por ele. 

Jennifer Connely interpretando Naameh, mesmo sendo apenas uma mãe de família que apoia o marido e cuida dos filhos, continua linda, assim como Emma Watson, que dispensa qualquer comentário sobre sua beleza. Interpretando Ila, uma descendente de Caim que é encontrada gravemente ferida e é adotada e amada pela família de Noé, especialmente por seu filho primogênito, Sem.

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Ila é um personagem tão importante quanto Noé, pois ela está designada a casar-se com Sem e repovoar o mundo, mas devido ao ferimento que ela recebeu na barriga momentos antes de Noé encontra-la, ela é estéril. Porém, é durante o Dilúvio que ela rouba a cena, interpretando de forma magistral juntamente com Jennifer Connely o papel das mulheres, mostrando que elas não são só rostinhos bonitos. 

Sem, o primogênito bonito, obediente e apaixonado por Ila, faz apenas isso e não se destaca muito. Cam, o filho não tão bonito assim, filho do meio que acaba virando a ovelha negra da família, mostrando que a família de Noé não era tão pura e perfeita assim.

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Apesar de ter um papel relativamente importante na trama, ele não se destaca muito mais do que filho desobediente, tomando escolhas não muito inteligentes ao longo da trama. E Jafé é só o filho mais novo, ele cuida dos bichos e tenta não atrapalhar muito, aliás, não tenho certeza se ele fala. 

Anthony Hopkins, que interpreta Matusalém, sendo assim avô de Noé, rouba a cena cada vez que aparece. Seu papel é o de conselheiro, e é a ele que Noé recorre para entender seu sonho profético, e a ele que Naameh pede ajuda sobre a esterilidade de Ila e a descendência dos homens após o dilúvio. Ele é um velhinho muito simpático e tudo que ele queria eram algumas frutinhas silvestres, mas acaba ajudando todo mundo com sua magia de velhinho sábio.

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Noé é recheado de fantasia, mas retrata a história da Arca de Noé de uma forma empolgante, guardando ainda uma mensagem sutil sobre tolerância e justiça. E principalmente sobre nossas escolhas. Aconselho a assistir sem expectativas, pois com certeza você vai se entreter com essa história fantástica.

Fonte das imagens: Divulgação/

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Thiago Moura

Curto as parada massa.

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