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Crítica do filme O Candidato Honesto

A parte boa é quando acaba!

André Luiz Cavanha

por
André Luiz Cavanha

Sábado, 27 Setembro 2014
Fonte da imagem: Divulgação/
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Reparei que alguns jornais mencionam a retomada da tradição da comédia política no cinema nacional ao mesmo tempo em que a disputa dos presidenciáveis anda bem acalorada nas últimas semanas. Esse é o contexto da estreia de O Candidato Honesto, encarregado desse ambicioso projeto que ressuscita a sátira de péssima qualidade ao nível do falecido programa Casseta & Planeta.

A estreia oficial acontecerá no dia 2 de outubro (três dias antes do primeiro turno das eleições), mas antes disso o protagonista João Ernesto (Leandro Hassum) fará um pronunciamento fictício veiculado na TV Globo durante o intervalo do Jornal Nacional – e, simultaneamente, na Rede Telecine e Megapix, Canais Fox, e nos canais GNT, Multishow e Sportv 1, 2 e 3, da Globosat.

Não apenas o investimento das Organizações Globo na campanha do candidato de mentirinha vem sendo levado a sério: o próprio ator revelou em entrevista que vem dedicando tempo ao estudo da política com objetivo de dominar o personagem, mesmo sem nunca antes ter se interessado pelo assunto. Porém, adianto que o resultado final é desastroso, sinalizando que nem mesmo o roteiro consegue escapar da mais primária e cansativa reprodução do senso comum.

candidato

Conta-se a história de um político corrupto candidato à presidência que quando chega ao segundo turno das eleições recebe uma mandinga da avó, impedindo-o de mentir. Caracterizado pela nítida imitação de O Mentiroso (1997), o enredo obriga de maneira extremamente forçada que o protagonista se pareça com Jim Carrey em várias cenas.

Quando vi o trailer já imaginava que o enredo seria maçante, carente de novidades. Mas custo a compreender qual a razão de reafirmar que todos os políticos são corruptos num clichê incapaz de prolongar a reflexão. Relevante seria, por exemplo, expor de onde vem o dinheiro que vai parar nas cuecas dos corruptos e quem são os corruptores (desafio que o canal Porta dos Fundos consegue superar, necessitando de no máximo dois minutos para questionar e satirizar a lógica autofágica do sistema político brasileiro).

Outro aspecto que reforça a superficialidade é a trilha sonora, por meio da canção “Inútil” da banda Ultraje A Rigor. A letra aponta o dedo na cara do eleitor brasileiro, considerado incapaz de eleger presidente, combinando com o estilo de humor que subestima a inteligência da população. 

Mas para não dizer que a pesquisa sobre política foi totalmente infrutífera, há referências feitas ao ex-presidente Lula, o eterno José Sarney, o empresário-pastor-deputado Marco Feliciano, Sérgio Cabral e até mesmo a sugestão de que um candidato supostamente envolvido com causas ecológicas consiga chegar ao segundo turno. Eis aqui uma oportuna alusão em tempos de crescimento substancial de Marina Silva nas pesquisas.

pastor

Evito sugerir que a comédia abandone a descontração e se engaje no aprofundamento de temas sérios, mas é ridículo apostar que somente o estilo Zorra Total contemple a nossa necessidade de diversão. Além disso, se a intenção fosse apenas fazer comédia, o clímax de O Candidato Honesto não seria tão dramático e moralista pouco antes do desfecho.

Afinal, há algo de realmente bom nesse filme?

Claro que há: quando ele acaba! E falo sério: são cômicas algumas das cenas cortadas exibidas por entre os letreiros após o término. Lamento que elas tenham sido avaliadas como meros erros de gravação.

Fonte das imagens: Divulgação/

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André Luiz Cavanha

Todo coração é uma célula revolucionária.

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