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Crítica do filme Cinquenta Tons de Cinza

rítica do filme Cinquenta Tons de Cinza

André Luiz Cavanha

por
André Luiz Cavanha

Sexta, 13 de Fevereiro de 2015
Fonte da imagem: Divulgação/
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Em cada época o bestseller aponta sintomas dos problemas da sociedade e isso ocorre desde os clássicos de Jane Austen, independente do que é considerado bom do ponto de vista literário.

O próprio romance (novel) já foi considerado literatura de baixa qualidade, digno de ser lido apenas por mulheres em tempos que eram consideradas inferiores (vamos fingir que esse pensamento primitivo já tenha sido superado por todos) e mesmo assim, é o gênero com maior registro das transformações sociais dos últimos três séculos.

No contexto atual ainda existem tabus com relação aos modos de se relacionar e em nosso imaginário permanece tênue a linha que separa afetividade e sexualidade. Desse modo, é de se valorizar a quantidade de debates que giram em torno da proposta de E. L. James durante os quase quatro anos de existência de seu maior sucesso, mesmo com resistência dos que se autoproclamam intelectuais que definem esteriótipos para os leitores da obra.

Na telona, Cinquenta Tons de Cinza é composto por duas horas de enredo que evolui pouco e a passos de tartaruga, com sequências cansativas de pormenores que parecem infinitos. As cenas eróticas é que se sobressaem de fato, bem aproveitando o jogo de câmeras que exibem não só o corpo dos atores, mas as insinuações em sequências de ações excitantes ou que simulam posições sexuais.

Anastasia Steele (Dakota Johnson) ou somente Ana, é uma garota tímida e que fala pouco. Apesar de ser somente uma estudante de literatura inglesa, ela substitui sua amiga jornalista e, com pouquíssimo preparo, entrevista um empresário bem sucedido chamado Christian Grey (Jamie Dornan). Inicia-se durante o encontro um relacionamento peculiar, de interesses distintos que aos poucos vai se desenvolvendo de modo conflitante.

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Grey estabelece condições e literalmente expõe um contrato para que se relacionem discretamente, sem assumir o compromisso publicamente. Essa sugestão é difícil de ser concebida pela garota, que adia a assinatura do contrato quando percebe os abusos de determinadas cláusulas e ao se sentir mergulhada na idealização de um típico relacionamento amoroso que contraria as expectativas do parceiro.

Conforme a história avança, a construção de personagens e evolução do enredo são aspectos totalmente esquecidos. Naturaliza-se a relação de poder e os momentos que soam românticos são colocados de modo a intercalar chantagens emocionais com relações sexuais consideradas pouco convencionais. 

A custa de muito dinheiro do ricaço investido em surpresas que apenas um bilionário seria capaz de proporcionar, os trechos românticos se baseiam em atividades caras. Consequentemente a construção pífia do personagem sugere que a garota é facilmente manipulada e que o desejo de Ana manter algo sério não se baseia nas virtudes de Grey.

Em comparação com o livro, muitos vícios foram ocultados deixando o rapaz mais bonzinho do que o personagem descrito pela autora. Há poucos (ou nenhum) segurança monitorando a vida de Ana, mas ainda assim é ridículo que tudo seja providenciado por Taylor (Max Martini), o mordomo que também é guarda-costas e faz-tudo a mando do mauricinho.

A discussão sobre os métodos anticoncepcionais também foi amenizada, sem que a face extremamente machista e manipuladora fosse escancarada. A imaturidade da autora ao lidar com fantasias sexuais e BDSM também soa prejudicial na história, esquecendo de diferenciar abuso e relações consensuais e saudáveis por mais estranhas que pareçam. 

Cinquenta Tons de Cinza sofre daquele mal de quase todo filme baseado em livro: o de não conseguir reproduzir com fidelidade a criação original, problema que somado à falta de domínio sobre questões de sexualidade acaba por prejudicar bastante o resultado final. Entretanto, se há algo positivo, destaco a seleção de músicas para a trilha sonora. Embora nem todas tenham combinado com as cenas, considero a playlist realmente fantástica.

Fonte das imagens: Divulgação/

Cinquenta Tons de Cinza

Confira o trailer deste filme dirigido por Sam Taylor-Johnson

Diretor: Sam Taylor-Johnson

Duração: 125 min

Estreia: 12 / Fev / 2015

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André Luiz Cavanha

Todo coração é uma célula revolucionária.

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