Jim Carrey - Café com Filme

Crítica do filme Crimes Obscuros | Vislumbres da verdade

Filmes investigativos são tomados por clichês, sejam eles embutidos como parte dos acontecimentos na história ou através de aspectos inerentes aos personagens. As pessoas não costumam tecer comentários negativos a tais detalhes, uma vez que, muitas vezes, essas facilidades são apenas superficiais perante o elenco ou mesmo ao glamour de uma produção hollywoodiana.

Essas trivialidades são cansativas, ainda mais quando em excesso, pois evidenciam os fins comerciais da produção. O resultado em muitos dos filmes do gênero é algo “comum”, ao que já estamos habituados, mas que não condiz com a realidade. Particularmente, eu acho cretina a insistência em detetives que são brilhantes ao ponto de ver uma única pista e solucionar até a árvore genealógica do assassino — e olha que sou fã de Sherlock Holmes, mas me refiro, obviamente, à versão dos livros.

Entre tantas apostas em lugar-comum, temos algumas que são pontos fora da curva, como é o caso de “Crimes Obscuros”. Longe de ser uma obra genial de suspense, a película estrelada pelo comediante Jim Carrey (sim, ele também tem obras sérias em seu currículo; e esta é uma das boas)  chega como um alento por se arriscar num abismo experimental, ainda que existam considerações ao roteiro.

Inspirado em um artigo do New Yorker — de David Grann (que se inspirou em eventos reais) —, o filme “Crimes Obscuros” acompanha a jornada investigativa do policial Tadek (Jim Carrey), que busca pistas para resolver o caso de um assassinato arquivado. Curiosamente, a ocorrência dada como inconclusiva anos antes tem semelhanças com um livro de escritor polonês (Marton Csokas).

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A grande dificuldade é ligar o assassinato a uma publicação, sendo algo ainda mais complicado quando as pistas já estão frias. Assim, o investigador segue uma trilha perigosa, que envolve até a namorada (Charlotte Gainsbourg) do escritor. No todo, um filme misterioso, que joga principalmente com a carta da inexperiência do detetive, algo que deixa o ritmo mais lento, mas que torna a história convincente.

Na contramão de Hollywood

Apesar de trazer um ator bem americano (que amamos por “Debi & Loide”), o filme “Crimes Obscuros” só tem Jim Carrey de comum, pois o restante da produção se afasta dos padrões da indústria. É importante pontuar isso antes de tudo, pois este não é um “filme do Jim Carrey”, então nem perca dinheiro se você quer ver um filme de comédia como “O Todo Poderoso” — isso evita que você passe raiva e comentários sem noção na sala de cinema.

Bom, além do deslocamento do ator, narrativa e ritmo devem causar estranheza para o grande público. Mesmo quem está acostumado com outros filmes de suspense pode tomar um choque ao ver que este não é um título como “Seven - Os Sete Crimes Capitais” ou “Zodíaco” — até porque o filme de forma alguma dá essa impressão. O ponto é que estamos tratando de uma produção bem europeia, então é uma dinâmica bem alheia aos estereótipos hollywoodianos.

É interessante notar que essa abordagem diferenciada se dá de forma estrutural, então não se trata de uma história fraca ou de uma direção bizarra, mas de uma montagem mais crua. Dessa forma, temos mais respiros entre as ações dos personagens, algo que deixa o ritmo mais pausado e até mais realista. Em vez de termos um gênio no papel principal divagando sobre tudo, seguimos um viés mais falho e, assim, mais convincente.

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Parte da estruturação diferenciada também se dá aos diálogos mais crus e mais críveis, com poucas frases de efeito (tirando as citações do personagem que é um escritor). Muita coisa se passa através dos olhares, do respiro, das reações. Isso aliado ao nível raso de ação torna o filme mais lento, porém ainda muito interessante. Para fechar o pacote, temos uma trilha sonora sombria, que condiz com a confusão dos fatos, mas que foge do padrão.

Protagonismo embebido em enigma

Quem acompanha a vida dos famosos sabe que Jim Carrey teve em um longo hiato em sua carreira de ator e resolveu se dedicar a outras artes, como a pintura. De qualquer forma, quem só viu as comédias talvez estranhe esse ator sério e centrado, que não esboça um sorriso  e que tem um olhar profundo. Não que seja um universo novo para ele, já que temos aí “Número 23” com um Jim Carrey mais sombrio e inusitado.

Curiosamente, através dos últimos documentários e vídeos do ator, podemos ver que ele está numa fase mais reflexiva, algo que parece se misturar com o personagem do filme. Ainda que exista aqui uma clara gama de características próprias do policial, o comportamento de Carrey no decorrer do roteiro é bem caricato e nos faz pensar se ele não trouxe um pouco de seu longo período reflexivo para incorporar ao modus operandi do detetive.

Claro, simplesmente jogar Jim Carrey num filme sem propósito não teria qualquer propósito, então o que temos aqui é uma boa combinação de construção de personagem e de escolha de protagonista. O detetive é o fio condutor do filme, então cerca de 90% do filme depende única e exclusivamente da história do policial que busca se destacar na força policial e, consequentemente, da capacidade interpretativa do ator.

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Assim, é impossível dissociar qualquer sucesso do filme da presença de Carrey. Um simples olhar vazio para a tela já nos deixa encucado com o que ele pode estar tramando e orquestra perfeitamente com a história que ruma vagarosamente. O personagem tem lá suas inúmeras falhas, mas se trata de algo que agrega à trama, que tenta não apenas desenvolver a investigação, mas retratar uma região e seus subtemas, como: sexo, violência e machismo.

No mais, eu acho que temos aqui um filme bem construído, com uma fotografia caprichada, uma direção coerente (com ótimos enquadramentos) e um elenco de suporte fenomenal. Se você viu o trailer de “Crimes Obscuros” e ficou intrigado, é bem possível que o filme tenha algumas surpresas que valem o seu ingresso, mas fica o alerta para não esperar uma produção trivial.

Crítica do filme A Casa que Jack construiu | A arte nos alicerces da loucura

Quem já viu ao menos um filme de Lars von Trier sabe que o cara não faz filme para as massas – e não estou falando num sentido pejorativo, mas é fato que seus roteiros são pouco digeríveis e muita gente só consegue sentir repulsa a suas analogias.

Suas abordagens de temas chocantes são pra lá de polêmicas e, ao menos a meu ver, ele tem fases um tanto distintas. Eu já vi o lado dele mais voltado à natureza humana, bem como já pude ver sua percepção de insignificância do ser perante o universo.

Agora, em sua mais recente adaptação, von Trier parece querer explorar o lado mais obscuro da mente humana, numa viagem pela lógica – se é que esse termo se aplica em alguma coisa do cineasta – de um serial killer.

Afinal, o que motiva alguém a matar outrem? O que leva alguém a matar repetidas vezes, de forma até compulsiva, tantas pessoas pelo simples prazer de ver a vida se esvair? Há tantos impulsos, variáveis, emoções e pensamentos que se disfarçam de motivações, mas será que há uma justificava final?

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Esta é uma das raízes para tantos filmes sobre assassinos em série: explicar o inexplicável. É claro que cada roteirista tem uma determinada inclinação para uma abordagem, que dificilmente vai conseguir chegar a algum lugar, mas alguma conclusão sempre pode ser tirada – até mesmo da mais confusa das obras.

Lars von Trier, como de praxe, resolve seguir uma vertente mais ousada, mostrando toda a violência possível de alguém que mata por prazer, mas sem deixar de mostrar que, apesar de quase inexplicável, pode haver um tom de coerência e até de arte por trás de tamanha brutalidade.

Em “A Casa que Jack construiu”, acompanhamos a jornada de Jack (Matt Dillon), que nos conta suas peripécias ao longo de doze anos, período em que refinou suas habilidades em uma série de assassinatos. Felizmente, desta vez, o cineasta conseguiu resumir a história em pouco menos de três horas, mas há boas motivações.

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Só para adiantar, é um filme brutal em sua essência, que visa retratar apenas o lado do assassino, então não espere nada menos do que uma pegada desumana e visceral. Na sala em que eu estava, um idoso saiu logo após uma hora de filme e chamou todos os espectadores de “perturbados”. Engraçado porque é verdade.

Bom, mas vamos ao que interessa. Abaixo, vou comentar um pouco sobre minha perspectiva desta obra de Lars von Trier. Por se tratar de um filme um bocado complexo, é inevitável fazer um texto mais elaborado sem entrar em detalhes. Então, esteja avisado: esta crítica contém spoilers.

Filme, documentário ou debate?

Via de regra, filmes como “Zodíaco”, “Seven” ou “O Silêncio dos Inocentes” seguem uma linha bastante clara dentro de um cenário fictício. Vez ou outra, alguns roteiros usam de recursos com diálogos em segundo plano para facilitar a linha de raciocínio, mas esta não é uma regra para os títulos de suspense pautados em serial killers.

Nesse sentido, até determinada parte, von Trier segue a cartilha, com uma história até linear e uma conversa de fundo, que pode ser entre o protagonista e um psicólogo, por exemplo. Todavia, o papo secundário aqui parece ser um recurso conveniente para dar mais sustento a uma outra linha de raciocínio, já que somente a história principal seria violência gratuita sem motivo – não que a adição de uma conversa mude isso.

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É claro que os desavisados já podem estranhar um bocado o filme após o primeiro capítulo, já que tão logo possível, o diretor nos presenteia com cenas ilustrativas para embasar as falas do personagem. Isso vai desde cenas de tigres na selva até um pianista tocando com maestria. Qual o sentido? Às vezes, nenhum. Mas é a arte...

E eis aqui o ponto que quero chegar, essa discussão de arte insistente no filme é algo que talvez faça algum sentido na cabeça do protagonista – e por que não de outros tantos psicopatas que fizeram atrocidades ao longo da história da humanidade? A destruição, a morte e a violência dificilmente são associadas à arte, mas eis o trunfo do filme, que tenta sugerir o bizarro e inconcebível para muitos espectadores.

O mais interessante é que não é de todo tosca a linha de lógica do assassino, uma vez que ele consegue formular boas justificativas para suas ações, mesmo que isso seja completamente contra a moral e a civilidade. Logo, somos presos em sua mente e queremos saber qual será seu próximo passo e onde ele quer chegar – e mais, o que tudo isso pode ter a ver com a casa dele.

Um ponto válido a ser apontado é que o diretor dinamarquês quebra a máxima de sua estranheza inerente ao balancear esse debate entre a ficção e a arte. Além disso, a meu ver, ele parece querer se justificar com esta obra, já que as questões apresentadas por Jack também são pertinentes para outros artistas.

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Enquanto tantas pessoas questionam os limites da arte e criticam fortemente os títulos de von Trier, ele mesmo resolve se justificar e propor que, às vezes, é preciso um bocado de estranheza, violência desmedida, assuntos inconvenientes e uma linguagem ousada para criar algo único e memorável.

No fim, esta parece ser a mensagem, a arte deve perpetuar, custe o que custar. Se isto é certo? Provavelmente não. Se alguém concorda? Também não. Mas oras, não assistimos aos filmes porque compactuamos com um ponto de vista, mas porque queremos fazer parte deste debate e opinar sobre a arte alheia.

Violência do jeito que a gente gosta

Bom, apesar de todo esse debate de arte, uma coisa que eu devo enaltecer aqui foi a capacidade de Lars von Trier de sair de sua zona de conforto (e desconforto para os demais) para entrar em uma linha mais direta e inteligível. É bom sim que “A Casa que Jack construiu” seja em seu cerne um filme de serial killer, pois podemos ver outras capacidades do diretor.

Ainda que dividido em alguns capítulos para criar esse debate, o roteiro é centrado nas histórias de Jack, de modo que podemos acompanhar com clareza de detalhes toda sua psicopatia e nos deleitar com um banho de sangue, pautado em uma brutalidade, às vezes, até descomunal. Não, as mortes apresentadas não ficam só no básico, afinal esta é a melhor assinatura do diretor. E daí a polêmica, claro.

Felizmente, temos um ator incrivelmente persuasivo no papel principal. Matt Dillon se consagra aqui, dando uma aula de encenação e loucura como vimos poucas vezes. Enquanto alguns psicopatas tendem a se esconder nos filmes, Jack domina toda a película, já que a perspectiva do roteiro é completamente avessa ao comum. E aí é que entra a necessidade de alguém muito talentoso e dedicado.

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Particularmente, eu vejo Dillon aqui num misto entre a loucura e o charme. A forma como Matt Dillon expressa cada frase e a força com que ele domina as cenas, bem como suas vítimas, é algo para aplaudir em pé.

Não sei porquê, mas ele me pareceu um ator que consegue balancear as caretas insanas de Jim Carrey e a postura pomposa de Josh Brolin. Faz sentido? Talvez não, mas só achei válido comentar que algumas cenas ele me lembra um ou outro, talvez eles tenham feito a mesma escola de artes cênicas.

Obviamente, para a mágica acontecer do jeito que a gente gosta, há toda uma produção consistente, com situações propícias e coadjuvantes colaborativos – incluindo uma participação especial de Uma Thurman. A edição do filme também ajuda consideravelmente, uma vez que há cenas um bocado difíceis que precisam de realismo e o timing perfeito para nos convencer de que tudo é real.

E falando em apreciar um bom filme de violência, eis aqui um ponto interessante de “A Casa que Jack construiu”: uma obra talvez quase desnecessária (se julgarmos que não há um vilão e um bandido), mas que nos chama a atenção pelo teor exagerado de brutalidade. E por que gostamos de filmes assim? Eu não sei, talvez seja a sensação de impotência, pânico ou angústia, mas algo muito forte prende nossa atenção.

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Nesta obra em específico, o cineasta nos dá boas razões porque gostamos de ver tal tipo de arte, sendo que uma delas é a possibilidade de apreciar a incrível burrice humana. Outro motivo é a nossa admiração pelos mistérios da mente, que aqui se acentuam num nível extraordinário. Enfim, há várias lições e argumentações muito válidas neste longa-metragem, que merecem nossa atenção.

Muita gente não vai ver graça ou qualquer razão para ver este filme, porém eu acho que os aficionados por serial killers e os fãs do diretor vão encontrar aqui um prato cheio de sanguinolência para degustar com calma. Há muitas cenas e ideias geniais, que você certamente vai precisar curtir no cinema para aproveitar toda a maestria de Lars von Trier.

Robin Williams: Entre Na Minha Mente | Trailer oficial e sinopse

Um divertido, íntimo e comovedor retrato de um dos comediantes mais queridos e inventivos do mundo, Robin Williams. O filme explora sua extraordinária vida e carreira, revelando o que o levou a dar voz aos personagens em sua mente até sua trágica morte em 2014.

Crimes Obscuros | Trailer legendado e sinopse

Inspirado no artigo do New Yorker, "True Crimes - A postmodern murder mystery" de David Grann. O filme acompanha a jornada do policial Tadek (Jim Carrey) conforme ele investiga um caso de assassinato não resolvido e encontra semelhanças do crime em um livro de um artista polonês. Ao investigar a vida do escritor e da sua namorada, uma mulher misteriosa (Charlotte Gainsbourg) que trabalha num sex club a obsessão de Tadek cresce, deixando o detetive cada vez mais atormentado, adentrando num submundo de sexo, mentiras e corrupção.