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Crítica do filme Crimes Ocultos

O paraíso que só existe por meio da censura

André Luiz Cavanha

por
André Luiz Cavanha

Quinta, 11 Junho 2015
Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes
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No dia 9 do mês passado foi comemorado na Rússia o aniversário de setenta anos da vitória da União Soviética sobre a Alemanha Nazista e a repercussão foi grande nos principais veículos de comunicação. Exceto os de algumas nações alarmadas com as tensões na fronteira com a Ucrânia, representantes de diversos países estiveram presentes no evento que contou com um grandioso desfile com mais de dezesseis mil soldados na Praça Vermelha.

Foi nesse contexto que estreou o filme Crimes Ocultos, sendo imediatamente censurado pelas autoridades russas que o consideram uma distorção da história daquele país. Para o ministro da cultura da Rússia, Vladimir Medinsky, o longa retrata os cidadãos soviéticos como "fisica e moralmente subumanos, uma massa sangrenta de orcs e ghouls".

Independente do nosso posicionamento no espectro político, a verdade sobre tudo que se passou na URSS é algo que dificilmente conheceremos com exatidão. Das poucas informações a que temos acesso, é possível ter a noção de como os direitos do povo russo eram violados pelas políticas autoritárias implementadas durante o período em que Josef Stálin liderou o país. Não bastava que a estratégia fosse apenas a de reforçar o antagonismo com o sistema capitalista do ponto de vista econômico, mas havia todo um monitoramento da rotina dos cidadãos nas diferentes funções que exerciam.

É com objetivo de denunciar os abusos desse período que a literatura de Tom Rob Smith foi parar nas telonas sob a responsabilidade de Daniel Espinosa. Baseado no livro “Child 44”, o filme mostra um pouco da vida difícil do agente da KGB, Leo Demidov, ao investigar uma série de horríveis assassinatos e quem assume o papel desse protagonista é o ator Tom Hardy, marcando o ano de 2015 com o privilégio de participar das mais importantes produções, como Mad Max: Estrada da Fúria.

Leo é encarregado da investigação de diversos assassinatos que misteriosamente acontecem no país que, segundo suas lideranças, é o verdadeiro paraíso. Segundo a lógica de Stálin, assassinatos existiriam somente dentro do sistema capitalista e seriam inconcebíveis pelo modo de vida socialista. Com esse tipo de visão, não só as manifestações artísticas ou midiáticas, mas todo tipo de investigação policial sofria com a censura que delimitava o que era compatível ou não com a realidade de um mundo pós-revolucionário.

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A rotina desse investigador começa a apresentar constantes conflitos entre o que se vê e o que se acredita, de modo que sua vida pessoal acaba sendo atingida pela pressão exercida pelas patentes mais altas da organização estatal de que faz parte. Leo é obrigado a conviver com a ocultação dos detalhes da morte do filho de seu amigo e ao mesmo tempo suportar a dor da perseguição à sua esposa, Raisa Demidova (Noomi Rapace).

O enredo se desenvolve de modo bem fluido, com uma dinâmica continuidade sem qualquer cena que sirva apenas de enrolação. É fascinante para os interessados em filmes históricos, com temática que envolve a Segunda Guerra Mundial e a condição do lado oriental durante o período que costumamos chamar de Guerra Fria.

Apesar de filmado em Praga, na República Tcheca, os cenários são personalizados com detalhes que nos fazem imaginar o cotidiano do povo russo naquela época. As cores de toda paisagem, sempre muito frias e acinzentadas, combinam com os figurinos de modo que, só de imaginar, rola até um friozinho na sala de cinema.

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Existem variadas cenas de espionagem e perseguições, que empolgam bastante e nos enchem de ansiedade e expectativa para que os casos sejam resolvidos imediatamente. Não há como assistir sem se posicionar, sem se imaginar naquele contexto e sem concordar que, de fato, todo período histórico necessita de uma profunda reflexão. 

Diante das maiores dificuldades para fazer aquilo que é certo em defesa de seu próprio povo, Leo é o herói em contradição, que individualmente se coloca contra todo aparato estatal e a crença que possui sobre aquilo que é justo. É frustrante saber que em 2015 o povo russo está privado de conhecer essa obra de arte, pois diferente do que dizem as autoridades, Crimes Ocultos não ridiculariza os fatos e não serve como recurso panfletário. 

Com a censura atual, faz-se o que é previsto: a antiga estratégia de regimes que se perdem na vaidade e que se corrompem cada vez mais naufragados em tanto abuso de poder. História conhecida no oriente, no ocidente, em qualquer sistema e em qualquer tempo...

Fonte das imagens: Divulgação/Paris Filmes

Crimes Ocultos

Capture o assassino, revele a verdade

Diretor: Daniel Espinosa
Duração: 137 min

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André Luiz Cavanha

Todo coração é uma célula revolucionária.

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