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Crítica do filme O Lobo do Deserto

O pequeno Theeb e o fim da era dos beduínos.

por
André Luiz Cavanha

25 de Fevereiro de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes
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A categoria “filme estrangeiro” é a pequena oportunidade que temos anualmente, durante a premiação do Oscar, de conhecer outras histórias do mundo por meio de lentes pouco convencionais. E entre os cinco indicados de 2016 está o jordaniano “O Lobo do Deserto”, dedicado ao arquiteto e artista ícone da cultura árabe Ali Maher.

O longa também marca a vitoriosa estreia do diretor Naji Abu Nowar, que ganhou o Bafta como melhor estreante britânico. Somado ao talento na elaboração de seu primeiro grande projeto, duas influências que estão entre as mais importantes figuras do teatro e cinema brasileiro são mencionadas como a base para seleção do elenco: Augusto Boal e Guti Fraga.

Segundo a agência de notícias Reuters, o diretor extraiu dos teóricos brasileiros as técnicas já utilizadas em filmes como Cidade de Deus e o recente Trash – A Esperança vem do Lixo.  Todas as pessoas que assumem a missão de representar os beduínos do início do século XX são atores amadores e com traços dos povos que viveram no deserto árabe, conferindo o aspecto mais natural e espontâneo aos personagens.

Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat ) é o menino protagonista que dá o nome original da obra. Ele pertence a uma comunidade tradicional nômade que vaga pelo deserto da província de Hejaz, resistindo e preservando o modo de vida dos povos do deserto que sofrem com a ameaça da expansão do colonialismo britânico sobre o território do Império Otomano.

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No meio de uma noite escura, um oficial do exército britânico e seu guia aparecem de surpresa para solicitar auxílio à aldeia instalada nos confins do oriente médio. Eles querem chegar a um poço romano que encontra-se em um perigoso território de caça e quem se oferece para auxiliar na missão é Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen), irmão de Theeb, seguindo a tradição de nunca negar ajuda àqueles que vêm de longe. 

Contra a vontade dos demais e cheio de desconfiança, o garoto segue atrás dos três e se esforça para sobreviver às consequências de uma jornada extremamente perigosa. Sua história é muito fácil de ser entendida, com simples ensinamentos da filosofia árabe que são ditados nos primeiros minutos e que seguem sendo a tônica de todo desenvolvimento da trama.

Apenas onze pessoas fazem parte desse pequeno elenco (todos do sexo masculino) e os diálogos são curtos, abrindo maior espaço para as expressões faciais e atuações mais sinceras. Suspende-se toda complexidade do contexto histórico e explicações detalhadas sobre as motivações de cada personagem, o que não significa que a concepção política seja evitada ou que uma criança não seja capaz de interpretar as razões dos homens que a cercam.

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Bonitas paisagens desérticas são exploradas pelas câmeras, mas sem esconder a vida difícil de quem precisa se transportar de camelo pelas rotas perigosas suportando a escassez de água. E chega a dar angústia a quantidade de moscas em momentos de repouso, a areia que acumula nos pés descalços e a sensação de secura do ar, dando a todos os personagens o aspecto forte e corajoso.

O Lobo do Deserto é uma história curta, que se prolonga por meio do silêncio e do olhar atento de uma criança curiosa e que não teme as consequências das suas próprias dúvidas. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho digno de várias premiações, por revelar sutilmente ao ocidente o passado desaparecido em meio ao avanço das linhas de trem e da cobiça das nações imperialistas.

Fonte das imagens: Divulgação/Paris Filmes

O Lobo Do Deserto

Confira o trailer deste filme dirigido por Naji Abu Nowar

Diretor: Naji Abu Nowar
Duração: 100 min
Estreia: 18 / Fev / 2016

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André Luiz Cavanha

Todo coração é uma célula revolucionária.

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