A Longa Marcha | Vale a pena ler o livro de Stephen King antes de ver o filme? O que mudou? Novo final?

Stephen King escreveu “A Longa Marcha” ainda na juventude, lá por meados de 1966 e 1967, até mesmo antes de se tornar o mestre do terror que o mundo conhece. E já fica aqui uma curiosidade: esta foi a primeira história que ele escreveu, porém a publicação ocorreu só em 1979, alguns anos após a publicação dos primeiros livros de sucesso do autor, como Carrie (1974), Salem (1975) e O Iluminado (1977).

Assinando como Richard Bachman — justamente para testar como obras um pouco diferentes iriam impactar o público sem o peso de sua fama —, ele criou uma distopia perturbadora, sobre um evento anual chamado "A Longa Marcha", o qual reúne uma centena de jovens, que se inscrevem voluntariamente, e que são obrigados a caminhar sem parar até restar apenas um vivo.

Décadas depois, Francis Lawrence transporta essa premissa para o cinema em “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” — e o resultado é uma conversa fascinante entre duas obras separadas pelo tempo, mas unidas pela mesma angústia existencial. Eu já publiquei minha opinião sobre o filme (e você pode clicar aqui para ler a Crítica do filme A Longa Marcha), abordando os acertos e poucos deslizes da adaptação, mas hoje quero focar na diferença entre as abordagens do texto e da obra audiovisual.

Do papel à tela: escolhas que transformam a história

O primeiro ponto de destaque é a fidelidade temática. Tanto o livro quanto o filme exploram o mesmo conceito central: a caminhada como metáfora da vida. No papel, King mergulha profundamente nos pensamentos de seu protagonista, criando uma narrativa quase claustrofóbica, de ritmo lento e opressivo. Já no cinema, Lawrence traduz essa imersão em movimento e imagem, substituindo a introspecção literária por uma tensão constante.

A ambientação dos anos 1970 é um elo essencial entre as duas versões. O diretor poderia ter atualizado a trama, mas manteve a época original — uma escolha inteligente. As tecnologias modernas eliminariam o isolamento e a dependência emocional entre os personagens. A ausência de celulares, câmeras pessoais e conexões instantâneas faz com que tudo pareça mais humano, mais cru, mais desesperador.

alongamarchalivro01 bbb12Créditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Uma das principais diferenças está no número de participantes. Enquanto o livro conta com 100 jovens, o filme reduz o grupo para 50. A decisão é prática e narrativa: manter o mesmo volume de personagens tornaria o longa interminável. Essa mudança, porém, não prejudica a história — ao contrário, torna-a mais focada e emocionalmente acessível.

Além das alterações já citadas, o filme também fez mudanças importantes nos personagens e no tom da narrativa. Por exemplo, Raymond Garraty não tem namorada, o que altera algumas memórias, mas ajuda a manter o foco no essencial da trama. O destino de seu pai é apresentado de forma mais marcante, funcionando como motivação clara para que Garraty participe da Longa Marcha — sem revelar demais, isso dá densidade ao personagem e aproxima o público da sua jornada.

Outros ajustes incluem o tom mais contido do filme em relação a palavrões e piadas de cunho sexual, pequenas alterações nas regras da marcha (como a velocidade da caminhada) e ajustes na forma como as advertências funcionam. Para leitores que prezam pela fidelidade, esses detalhes podem chamar a atenção, mas eles são necessários para que a narrativa cinematográfica seja direta, intensa e envolvente.

alongamarchalivro02 1b51aCréditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Outro contraste está na forma como a violência é tratada. No livro, a eliminação dos participantes ocorre de forma seca, quase burocrática. King raramente descreve em detalhes — o horror está na espera, na expectativa. Já no filme, as execuções são explícitas e brutais. A intenção é chocar, sim, mas também deixar clara a monstruosidade do sistema. Ainda assim, há quem prefira a sutileza do texto original.

Mantendo a tensão: diferenças que funcionam

O ritmo é outro ponto interessante. O livro é exaustivo por natureza — propositalmente. King faz o leitor sentir o cansaço, o peso da caminhada, o tédio e a dor. É uma experiência que exige paciência. O filme, por sua vez, é mais direto. A narrativa é enxuta, os diálogos são pontuais, e a montagem mantém a tensão viva até o fim. Cada formato funciona à sua maneira.

E falando em final: aqui está a grande diferença. O desfecho do livro é ambíguo, filosófico e, para muitos, frustrante. King deixa a interpretação aberta, como se a caminhada nunca terminasse. Já o filme entrega uma conclusão muito mais clara e impactante — um fechamento que honra o percurso e oferece uma catarse emocional poderosa. É raro dizer isso, mas neste caso o final do filme supera o do livro.

Mesmo com todas as alterações, o espírito da obra original é preservado. A camaradagem entre os personagens, o sentimento de solidariedade em meio à competição e o medo de desaparecer sem propósito continuam intactos. A versão cinematográfica não trai o texto — apenas o traduz em outra linguagem, igualmente eficaz.

alongamarchalivro03 4222eCréditos da imagem: Fábio Jordan / Café com Filme

Além disso, há méritos únicos em cada um. O livro é mais psicológico, mais filosófico, um estudo sobre o sofrimento e a resistência humana. O filme, por sua vez, é uma experiência sensorial e visualmente devastadora, que fala diretamente ao corpo e à emoção. Juntos, eles se complementam: um faz o outro ganhar ainda mais significado.

Por fim, tanto no papel quanto na tela, “A Longa Marcha” segue sendo uma história sobre a humanidade diante do absurdo. É um lembrete de que seguimos caminhando, mesmo sem saber por quê — e talvez seja essa a beleza (ou o horror) da vida. Ler o livro e assistir ao filme é percorrer dois caminhos diferentes para o mesmo destino.

Crítica do filme A Longa Marcha | A jornada é longa e cheia de horrores

O jovem Raymond (Cooper Hoffman) está prestes a participar de uma famosa prova anual de resistência. Ele é apenas um entre dezenas de adolescentes dispostos a encarar “A Longa Marcha”, uma competição em que os participantes devem manter uma velocidade mínima de caminhada — ou levam um tiro. O evento atrai multidões e termina apenas quando restar um sobrevivente. Até onde Raymond está disposto a ir?

Acima está a sinopse oficial de “A Longa Marcha”, mais um longa-metragem baseado em uma obra de Stephen King. Pelo breve resumo, fica o questionamento: um filme em que os personagens simplesmente caminham sem parar pode realmente prender a nossa atenção? Como criar tensão em uma história que depende quase inteiramente de diálogos e longos silêncios?

alongamarcha00 8466aFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Sem dúvidas, esta era uma missão quase impossível. Não por acaso, o próprio Mike Flanagan — diretor do excelente filme “A Vida de Chuck” (outra adaptação recente de Stephen King) —, mencionou que estava muito interessado em ver fariam essa adaptação de The Long Walk, sugerindo que era muito complexa essa tarefa. E, de fato, parecia um trabalho fadado ao fracasso — até agora.

Antes de continuar com meus argumentos, deixo abaixo a playlist da trilha sonora oficial do filme (que depois comentarei sobre) para você sentir a emoção da Longa Marcha enquanto lê esta crítica. Aperte o play e aproveite a jornada!

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” é aquele tipo de filme que não apenas te prende pela tensão, mas te consome lentamente — assim como a jornada de seus personagens. Baseado na obra homônima de Stephen King, escrita sob o pseudônimo Richard Bachman, o longa dirigido por Francis Lawrence (que você provavelmente conhece de “Eu Sou a Lenda”, “Jogos Vorazes” e “Constantine”) surpreende por conseguir transformar uma narrativa essencialmente introspectiva em uma experiência cinematográfica angustiante, intensa e emocionalmente devastadora.

E ainda antes de entrar em detalhes, se você já leu o livro (ou pretende ler) e está se perguntando se tem muitas diferenças entre o obra literária e o filme, a resposta é sim! No entanto, eu considero que todas as mudanças foram muito justificáveis para a dinâmica do longa funcionar melhor e nada do que foi alterado altera significativamente o andar da carruagem. Todavia, para entender melhor essas adaptações, recomendo que você clique aqui para ler meu texto comparando o livro A Longa Marcha e o longa-metragem.

A Longa Marcha vale a pena?

A Longa Marcha é uma adaptação ousada de Stephen King que impressiona com direção precisa, atuações marcantes de Cooper Hoffman e David Jonsson, tensão constante e final surpreendente, transformando a caminhada mortal em uma experiência cinematográfica intensa.

Da página à tela: o impossível virou cinema

Logo de início, o filme estabelece um tom sombrio e realista. A ambientação dos anos 1970 é impecável — uma decisão acertada que preserva a essência da história original. Trazer essa trama para os tempos atuais seria uma tarefa quase impossível, não só pelas diferenças tecnológicas, mas porque o conceito da “Longa Marcha” depende muito dessa atmosfera de isolamento, vigilância militar e ausência de questionamento popular — sem dúvidas que uma história similar ambientada em tempos recentes seria extremamente complexa de produzir.

alongamarcha01 3ca23Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

O roteiro é eficiente em apresentar os personagens sem precisar recorrer à exposição excessiva ou muitas cenas paralelas (os flashbacks são bem raros aqui). Em poucos diálogos, entendemos suas motivações, seus medos e suas esperanças. Esse dinamismo faz com que o público se conecte rapidamente, o que torna cada perda ainda mais dolorosa. A camaradagem que se forma entre os participantes é o que dá alma ao filme — uma amizade improvável em meio à certeza da morte.

Visualmente, “A Longa Marcha” é austero e belíssimo. As paisagens vazias, a fotografia fria e os contrastes de luz e sombra criam um cenário que reflete o esgotamento físico e psicológico dos personagens. Cada passo dado pelos jovens carrega peso — e cada rosto abatido parece gritar por redenção.

alongamarcha02 4eac1Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Aliás, falando em esgotamento, eu acho que é quase inevitável ver este filme (ou mesmo ler a obra original) e não ficar se questionando: mas será mesmo que é possível caminhar centenas de quilômetros sem parar? Alguém já fez isso no mundo real? Bom, eu fui pesquisar e, segundo o site Live Science, tudo depende da definição de "caminhar sem parar".

No conteúdo publicado em fevereiro de 2025, o site informa que Dean Karnazes detém o recorde não oficial da corrida mais longa sem dormir, com 563 km (350 milhas), que ele correu em três dias e meio em 2005. Já em 2023, o ultramaratonista Harvey Lewis estabeleceu um novo recorde em um tipo de corrida de longa distância chamada Backyard ultra. Nesse tipo de competição, os corredores completam um circuito de 6,7 km (4,17 milhas) a cada hora, até que reste apenas um corredor em pé. Lewis correu 108 desses circuitos no equivalente a 4,5 dias, totalizando 724 km (450 milhas), com apenas alguns minutos ao final de cada hora para descansar antes de recomeçar.

Voltando às considerações sobre o filme, mas ainda mantendo nesse tópico, vale ressaltar como a direção de Francis Lawrence é precisa e corajosa. O ritmo é constante e exaustivo, até porque realmente precisa ser, já que os participantes devem continuar andando — sem sequer uma pausa para amarrar os cadarços — em uma velocidade superior a 5 km/h.

alongamarcha03 99b3fFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

A tensão dos enquadramentos é palpável, e cada pausa ou silêncio é tão importante quanto os momentos de violência. O cineasta equilibra a brutalidade do conceito com uma sensibilidade inesperada. Mesmo nas cenas mais duras, há espaço para empatia — e é aí que o filme mais se destaca: ao lembrar que, antes de competidores, aqueles jovens são pessoas.

O horror de continuar vivo

Para obter êxito em sua realização, o filme conta com um elenco diversificado — como exige a história original — e repleto de talentos inesperados. Cooper Hoffman (filho do lendário Philip Seymour Hoffman) entrega uma atuação impressionante como Raymond, o jovem que decide participar da prova mortal e que serve como fio condutor da narrativa.

Ainda assim, quem muitas vezes se apropria das atenções, de forma quase natural ao seu personagem, é David Jonsson, em uma performance carregada de nuances. Ele é o coração emocional do filme, com uma presença magnética, vulnerável e intensa.

alongamarcha04 8c24bFonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Somando-se aos dois, Ben Wang e Tut Nyuot completam o núcleo principal da história — e é o dinamismo entre eles que sustenta essa longa jornada. Os diálogos, que começam de forma curiosa, ganham peso e cumplicidade ao longo do caminho, criando momentos de emoção genuína que tornam a caminhada mais humana do que competitiva.

Já Charlie Plummer adiciona um toque de insanidade que vem em boa hora: seu personagem quebra o ritmo da caminhada com momentos de desconforto e tensão, dando ao longa uma energia imprevisível. E, para completar o elenco, Mark Hamill surge em um papel secundário, quase caricatural, mas eficaz — o veterano cria uma figura repulsiva que simboliza o sistema desumano por trás da competição. Ponto para o Jedi.

alongamarcha05 0e710Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes

Vale dizer que o filme é violento — e não pouco. Algumas execuções são gráficas e viscerais, o que certamente vai dividir opiniões. Pessoalmente, achei que em alguns momentos o excesso poderia ser substituído pela sugestão. O medo do que não se vê é, muitas vezes, mais eficaz. Ainda assim, é inegável que a violência faz parte do impacto que a história quer causar. Afinal, estamos diante de uma distopia cruel, em que a própria vida é o prêmio final.

A trilha sonora de Jeremiah Fraites,  que mencionei no começo do texto, é outro acerto notável. Minimalista, inquietante e melancólica, ela pontua a narrativa com delicadeza e cria uma atmosfera de urgência e desespero. As notas, às vezes cadenciadas e, em outras situações, longas e tensas funcionam como uma espécie de batimento cardíaco coletivo — uma lembrança constante de que o tempo (e a distância) estão sempre correndo.

O final, sem dúvidas, é um dos grandes trunfos da adaptação. Ao contrário do livro, que opta por um encerramento mais ambíguo e filosófico, o filme entrega algo mais ousado e emocionalmente satisfatório. Há coragem e justiça em sua conclusão, um fechamento que dá sentido à longa caminhada — tanto literal quanto simbólica.

No fim das contas, “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” é mais do que um filme de terror ou suspense. É uma reflexão amarga sobre propósito, sacrifício e a busca insaciável por reconhecimento. Francis Lawrence e o roteirista JT Mollner conseguiram o que Mike Flanagan — e boa parte dos fãs — achavam impossível: adaptar “A Longa Marcha” sem perder sua alma. O resultado é uma das melhores e mais intensas experiências cinematográficas do ano.

Crítica A Vida de Chuck | Entre o Fantástico e o Cotidiano

Adaptado da obra de Stephen King e dirigido por Mike Flanagan, A Vida de Chuck apresenta uma história única sobre a existência humana. Contada de forma não linear, a jornada de Charles "Chuck" Krantz (Tom Hiddleston) se desenrola como um mosaico de memórias, encontros e despedidas, explorando o amor, a dor e as escolhas que moldam uma vida. O longa combina drama, fantasia e até pequenas doses de terror, numa experiência cinematográfica que foge de classificações fáceis.

De modo geral, o filme surpreende por equilibrar leveza e melancolia, momentos de riso e instantes de profunda reflexão. Ao longo de suas quase duas horas, Flanagan convida o espectador a mergulhar não apenas na trajetória de Chuck, mas também em nossas próprias memórias e relações. É um filme irregular em ritmo, mas com cenas que encantam, emocionam e deixam aquela sensação de que viver é, no fim das contas, uma experiência tão improvável quanto preciosa.

A Vida de Chuck vale a pena?

A Vida de Chuck é uma obra que, assim como seu protagonista, não cabe em definições fáceis. É um filme para rir, refletir e até estranhar, mas sobretudo para lembrar que o tempo que temos é precioso. Mike Flanagan e Stephen King entregam um conto cinematográfico sobre humanidade, que mistura o fantástico com o cotidiano para revelar que, em cada segundo, existe a chance de conexão, de afeto e de beleza.

Filmes que falam sobre a vida

Quero começar trazendo uma ideia um tanto diferente, mas essencial para a gente falar sobre "A Vida de Chuck". Existe um tipo de obra que não se encaixa em rótulos tradicionais de gênero, mas que poderíamos chamar de “dramas existenciais fantásticos”. Filmes como Aqui (com Tom Hanks), Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, A Vida em Si e A Vida Secreta de Walter Mitty seguem esse caminho: narrativas que misturam drama, fantasia, comédia e até romance, mas cujo verdadeiro propósito é refletir sobre o sentido da vida. A Vida de Chuck se encaixa perfeitamente nessa tradição.

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Assim como nesses exemplos, Flanagan utiliza o lúdico e o exagero para transformar o cotidiano em algo mágico. Uma simples dança em praça pública pode se tornar uma catarse coletiva, uma frase em um outdoor pode provocar questionamentos existenciais, e até elementos apocalípticos são usados mais como metáfora do que como ameaça real. Esse hibridismo de gêneros pode causar estranhamento, mas é justamente o que dá força e identidade ao filme.

Outro ponto interessante é a estrutura narrativa fora de ordem. Ao começar do fim e avançar em direção ao início, o roteiro nos força a montar o quebra-cabeça da vida de Chuck por fragmentos. Essa escolha aumenta a curiosidade e garante que cada revelação tenha um peso maior, já que sabemos que tudo se encaminha para uma conclusão inevitável. Ainda assim, a mensagem é menos sobre o fim e mais sobre a intensidade de cada instante vivido.

No fundo, esses filmes acabam funcionando como lembretes. Eles nos dizem que a vida não é feita apenas dos grandes feitos, mas também das pequenas conexões: um gesto de carinho, uma conversa inesperada, uma noite de dança. Flanagan reforça essa ideia ao usar referências de pensadores como Carl Sagan, conectando a brevidade da existência humana com a imensidão do cosmos.

Direção, atuações e estética

Mike Flanagan, já conhecido por suas adaptações de Stephen King como Doutor Sono e Jogo Perigoso, entrega aqui um projeto mais ousado. Ele se afasta do horror tradicional que marcou sua carreira e aposta em um drama poético, recheado de momentos lúdicos e até humorísticos. Essa transição não é perfeita — em alguns trechos o filme parece hesitar entre gêneros —, mas a ousadia compensa ao oferecer uma experiência diferente dentro do cinema contemporâneo.

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O elenco é um dos pontos altos. Tom Hiddleston conduz o papel com carisma e entrega emocional, mas grande parte da força dramática vem do jovem Benjamin Pajak, que interpreta Chuck em uma fase mais delicada e intimista. Aliás, vale mencionar que esse é um dos primeiros projetos de Pajak, um ator mirim que já mostra seu talento. A participação breve de Jacob Tremblay também vem a calhar, enquanto Karen Gillan e Chiwetel Ejiofor acrescentam camadas importantes ao enredo, funcionando como peças-chave que ajudam a refletir sobre o valor da vida e do tempo.

Visualmente, o filme é deslumbrante. Flanagan aposta em cores vibrantes, cenários que parecem transitar entre o real e o imaginário e efeitos visuais que surpreendem pela criatividade. As cenas de dança, coreografadas com precisão, trazem energia contagiante e ajudam a equilibrar o tom melancólico da narrativa. Já a trilha sonora é fluida e emocional, alternando entre momentos de pura empolgação e outros mais introspectivos, sempre dialogando bem com o que acontece em tela.

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Ainda que não seja um filme isento de falhas — alguns fatos e personagens ficam meio perdidos e há passagens em que a mistura de gêneros soa forçada —, o saldo é extremamente positivo. A Vida de Chuck pode até não agradar a todos, mas aqueles que se entregarem à proposta certamente sairão tocados pela mensagem de celebrar o presente, amar sem reservas e dançar no ritmo da vida.

Crítica do filme Looney Tunes - O Dia Que A Terra Explodiu | Voltando às loucas origens e entregando diversão para todos

Looney Tunes - O Dia Que A Terra Explodiu é uma explosão (com o perdão do trocadilho) de nostalgia e irreverência que acerta em cheio na proposta: resgatar o humor anárquico que tornou os personagens da Warner Bros. tão icônicos. Gaguinho e Patolino, que já dividem as telinhas desde a década de 1930 — mais antigos até que o próprio Pernalonga —, ganham aqui uma improvável, mas divertida, história de origem.

Essa ideia, ainda que não precise ser encarada como definitiva (afinal, Looney Tunes sempre brincou com linhas do tempo e realidades), é criativa e oferece um novo olhar sobre uma das duplas mais carismáticas da animação. Mesmo com toda essa ousadia, alguns fãs podem sentir falta de um ingrediente essencial: Pernalonga. Sua ausência é sentida, especialmente por aqueles que o veem como o grande símbolo dos Looney Tunes.

Ainda assim, o filme se sustenta com maestria, graças ao carisma inegável de Gaguinho e às loucuras audaciosas de Patolino, bem como ao roteiro que sabe explorar tanto o absurdo quanto temas surpreendentemente maduros, como mercado de trabalho, vida adulta e laços afetivos. Tudo, é claro, com o humor característico da franquia.

Desenho, Doideira e Nostalgia

Visualmente, o filme aposta no tradicional e acerta. Nada de versões 3D aqui: o desenho é no bom e velho estilo cartunesco, com um colorido vibrante e perspectivas ousadas que, vez ou outra, até sugerem uma leve tridimensionalidade — sem abandonar o charme dos traços clássicos.

A estética de Looney Tunes - O Dia Que A Terra Explodiu carrega exageros visuais que se alinham perfeitamente ao espírito dos Looney Tunes, como cenas com ângulos esticados, explosões sem sentido e reações absurdamente físicas que só funcionam mesmo dentro desse universo animado.

looneytunesodiaqueaterraexplodiu01 283f2Fonte: Divulgação/Warner Bros.

O humor é um dos pontos altos. Cheio de referências contemporâneas, o roteiro zomba de tudo: desde o excesso de "produtos genéricos sem alma" no mercado até a cultura de influenciadores digitais. Mas o que realmente brilha são os diálogos afiados entre os protagonistas. A dinâmica entre o sensato Gaguinho e o caótico Patolino continua funcionando perfeitamente, e a dublagem brasileira — com as vozes já consagradas — faz essa química saltar da tela.

Este filme é um verdadeiro estouro!

A trilha sonora, como sempre, é outro destaque. Ela acompanha as cenas com precisão cirúrgica, fazendo os momentos de tensão parecerem mais absurdos e os momentos de comédia, ainda mais hilários. O ritmo do filme é bem acertado: com pouco mais de uma hora e vinte minutos, ele entrega o que promete sem se alongar demais, deixando aquele gostinho de "quero mais" no final.

Para quem cresceu vendo Looney Tunes ou simplesmente quer uma comédia leve e criativa, este é um prato cheio. É o tipo de filme ideal para se ver no cinema com pipoquinha ou em casa tomando um Nescauzinho. Ele não tenta reinventar a roda, mas reafirma o que torna os Looney Tunes tão especiais: o humor sem amarras, o absurdo bem dosado e personagens que já fazem parte da história da animação mundial.

looneytunesodiaqueaterraexplodiu02 53e85Fonte: Divulgação/Warner Bros.

Looney Tunes - O Dia Que A Terra Explodiu é, acima de tudo, uma carta de amor aos fãs. Talvez não seja o mais memorável de todos os tempos, mas é, sem dúvidas, um dos mais afetuosos. E nos dias de hoje, isso já vale muito. Quem sabe, seja também um novo pontapé para a Warner Bros. bolar mais ideias de filmes isolados com outros personagens ou até cruzando com essa histórias. Vamos ver o que vem por aí, não dá para saber ainda!

E por hoje é... só só só... pe-pe-pessoal!

Crítica do filme A Mais Preciosa das Cargas | Um pouco de humanidade no fim do mundo

Dirigido por Michel Hazanavicius e baseado na novela de Jean-Claude Grumberg, o filme “A Mais Preciosa das Cargas” mergulha na Segunda Guerra Mundial com uma estética singular para narrar a improvável história de um casal pobre que encontra uma criança atirada de um trem em movimento. A partir daí começa uma jornada silenciosa sobre sobrevivência, transformação e resistência.

Apesar da curta duração — apenas 81 minutos —, o filme tenta abarcar uma densidade emocional e simbólica considerável. É uma obra que fala sobre o horror, mas também sobre a beleza frágil que resiste mesmo em meio ao caos. Ainda que em certos momentos falte equilíbrio entre forma e conteúdo, “A Mais Preciosa das Cargas” encontra seus momentos de força quando aposta na sutileza em vez da exposição direta, especialmente ao retratar o cotidiano do casal e a crescente ligação com a criança. O filme, assim, caminha entre o bucólico e o brutal, entre o conto e a tragédia histórica.

Em tempos de guerra, quando a compaixão parece extinta e a violência se normaliza, “A Mais Preciosa das Cargas” propõe um olhar sensível sobre o resgate da humanidade por meio de um gesto de amor improvável. Um filme com ritmo lento, mas que conquista pela temática profunda e sempre necessária.

Entre o frio e a esperança

A narrativa se desenvolve a partir de duas histórias que correm em paralelo: a do lenhador e sua esposa, e a de uma família judia separada por um dos trens da morte. Essas tramas se entrelaçam de maneira poética, embora nem sempre com o impacto dramático esperado.

O vínculo que nasce entre a mulher e o bebê encontrado — e, posteriormente, o envolvimento do marido inicialmente relutante — compõem o centro emocional da obra. A transformação do pai, em especial, representa uma das mensagens mais fortes do filme: a possibilidade de amor mesmo em corações aparentemente endurecidos pela fome, pelo medo e pelo ódio.

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Visualmente, a obra adota uma animação desenhada à mão que foge dos padrões modernos e aposta em um estilo mais clássico, quase artesanal. Esse visual evoca tanto delicadeza quanto dureza, acompanhando bem o tom ambíguo do roteiro. No entanto, há momentos em que a paleta escura e os traços densos tornam difícil compreender o que está acontecendo em tela — uma escolha estética que, embora coerente com o clima sombrio, compromete um pouco a clareza narrativa.

A trilha sonora de Alexandre Desplat funciona como um dos pontos altos da obra. Em vez de ser apenas um pano de fundo, ela atua como guia emocional do espectador, preenchendo os silêncios e potencializando os momentos mais íntimos e dolorosos. Ainda assim, há quem possa sentir que, em certos momentos, a música dramatiza em excesso, impondo um sentimento em vez de permitir que ele emerja organicamente da cena.

Fábula sombria e intensa, mas pouco surpreendente

A maior fragilidade do filme está talvez em sua previsibilidade. O trailer entrega grande parte da trama, o que reduz o potencial de surpresa para quem já chega ao filme sabendo o que esperar. O espectador acaba apenas preenchendo lacunas daquilo que já foi antecipado, acompanhando as nuances do relacionamento entre os personagens e os contextos de guerra que os cercam. Isso não chega a esvaziar o impacto emocional da história, mas certamente limita seu alcance dramático.

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Ainda assim, “A Mais Preciosa das Cargas” cumpre um papel importante ao lembrar que, mesmo nas situações mais desesperadoras, o afeto e a solidariedade podem resistir. A fábula criada por Hazanavicius pode não atingir todo o seu potencial artístico ou emocional, mas tem valor ao propor uma reflexão delicada sobre o amor como forma de resistência. É um filme que talvez não surpreenda, mas que emociona nos detalhes — e, no fim, talvez seja justamente essa a sua maior carga preciosa.

Crítica Às Vezes Quero Sumir | Do Nada ao Lugar Nenhum

Primeiro, vamos esclarecer que esta, assim como toda crítica que trago aqui no site, é uma resenha a partir do meu ponto de vista, trazendo a minha impressão sobre a obra. Logo, se você assistir a “Às Vezes Quero Sumir” e ver genialidade no filme, está tudo bem, pois cada um vai ter sua respectiva opinião. Dito isso, vamos ao que interessa.

Obras de ficção têm papéis poderosos e, eu diria que até, fundamentais na sociedade. No entanto, algumas não parecem ter nada para contar. “Às Vezes Quero Sumir” se encaixa nesse segundo grupo, uma vez que não consegue cativar o espectador e, na verdade, consegue mais entediar do que servir como uma distração ou um material para reflexão.

Para você que não leu a sinopse, segue o texto original: A tímida Fran (Daisy Ridley) vê sua vida transformada com a chegada de um novo colega de trabalho. Uma conexão inesperada surge entre eles, ela terá que se reinventar para, enfim, embarcar na aventura de viver.

asvezesquerosumir01 185c9Fonte: Divulgação/Synapse Distribution - Às Vezes Quero Sumir mostra como um escritório é entediante

A temática é superimportante e a abordagem é válida, uma vez que reflete milhares de histórias comuns e facilita a conexão com o público. Contudo, de nada adianta um bom ponto de partida, um elenco competente e uma produção razoável, pois, como sempre, tudo depende de como uma história é contada e desenvolvida. Se o roteiro não vai progredir, não vai ter uma moral e será apenas um recorte de tristeza, acaba sendo bem superficial. Eis o tombo do filme.

Às Vezes Quero Sumir vale a pena?

Não vale a pena! “Às vezes Quero Sumir” é lento, permeado por diálogos cansativos, transições desconexas e uma trama que não vai a lugar algum. Como comédia, um filme que extrai poucas risadas. Como romance, uma obra que não permite o desenrolar da paixão. Como drama, um título sem superação. Talvez essa fosse a proposta, mostrar o beco sem saída da depressão. Todavia, não é para qualquer um e nem para qualquer momento.

Um assunto complexo

“Às vezes Quero Sumir” é o típico filme que tenta mostrar uma realidade a qual não estamos habituados, o que ele faz com maestria ao deixar o público desconfortável para revelar o dia a dia da personagem Fran, permeado por períodos cansativos de escritório, rotinas entediantes em casa e viagens em pensamentos aleatórios (como descansar na floresta ou fazer uma cabana de madeira na beira da praia). Assim, o longa-metragem parece tentar constantemente mostrar esse lado complexo da depressão e como ela afeta cada aspecto da vida da pessoa.

asvezesquerosumir02 85a4fFonte: Divulgação/Synapse Distribution - Fran (Daisy Ridley) em um mundo de delírios

Nesse sentido, é compreensível usar uma mixagem de som distorcida, em que ouvimos tudo à distância, não conseguimos prestar atenção nos diálogos e ficamos perdidos em meio às aleatoriedades. A obra se alonga muito para apresentar personagens, tudo acontece de forma lenta e com diálogos maçantes.

Tudo bem, a vida tem pessoas mais pacatas e outras mais agitadas, por isso o filme tenta contornar a situação ao equilibrar o ritmo com a chegada de Robert (Dave Merheje), que é animado e traz o tom de humor. De certa forma, o script consegue propor uma boa relação entre eles, mas as coisas são constantemente dificultadas pela depressão.

asvezesquerosumir03 bb5c2Fonte: Divulgação/Synapse Distribution - Dave Merheje contracena com Daisy Ridley numa tentativa de comédia romântica

O problema é que para provar um ponto, diretora e roteiristas fogem tanto do comum, que acaba sendo complicado se manter entretido pela história, que, evidentemente, pode fugir do comum, mas precisa dialogar com o público para entregar entretenimento ou, mesmo que seja, uma reflexão aprofundada.

Às Vezes Queria Não Assistir

A montanha-russa de pequenas alegrias e grandes tristezas de “Às Vezes Quero Sumir” acaba sendo complexa para a plateia que poderá cair no sono (com grandes períodos de silêncio) ou ficar entediada pela história rasa. A sensação que temos é de entrar conhecendo pouco dos personagens e sair como entramos.

Curiosamente, há um paralelo disso na trama, o que parece reforçar essa dificuldade das relações em meio à depressão. Só que a obra fica apenas patinando no cotidiano contemplativo da protagonista, que, apesar de fazer um esforço para lidar com situações rotineiras, não sabe lidar com as emoções.

asvezesquerosumir04 f501bFonte: Divulgação/Synapse Distribution - Às Vezes Quero Sumir é lento e dá sono, conforme comprova o ator do filme

No fim do dia, o filme não propõe nada lidar com os problemas e deixa apenas a personagem refletir levemente sobre suas ações. No fundo, uma obra que parece a vida real: estamos perdidos, temos problemas e não tem solução fácil. Lide com isso.

Quem lida bem com isso é o elenco, que acaba parecendo muito natural. Os elogios para Daisy Ridley (lembrada apenas por Star Wars) são válidos, pois a atriz se encaixou muito bem no papel. O problema para sua carreira é que este não é um papel para ser memorável, já que é uma obra que não cairá no gosto popular.

Dave Merheje se destaca muito em meio ao mar de tristeza, o que é perfeitamente natural, já que seu personagem é o engraçadão – o que deve ter exigido quase nada de um cara que já é comediante. Muito bom ver também Brittany O'Grady por aqui, mas apesar de sua fama em outros projetos, a atriz é bem secundária nessa trama.

asvezesquerosumir05 1cb6dFonte: Divulgação/Synapse Distribution - Daisy Ridley reflete sobre a existênia em Às Vezes Quero Sumir

Enfim, me parece um filme que, além de entediante, acaba sendo um desfavor. Não sei dizer se é uma obra adequada para quem está passando por situações depressivas, mas certamente é um filme que deprime aqueles que estão numa fase regular. Se esse era o objetivo, parabéns aos idealizadores, mas não acho que seja uma boa forma de conquistar o público.